Tem um lindo par de edifícios logo no início da Costábile Romano. Foram construídos, acho, na década de 70, em estilo néo-clássico e continuam bonitões, bem conservados, sombreados por grandes árvores e bem em frente ao Parque Curupira. Um gostoso lugar pra morar e um belo cartão postal da cidade. Até a gente olhar a lixeira, localizada bem em frente aos prédios. Imensa, ela toma grande parte da fachada, mas não dá conta . Tem lixo saindo pra todo lado, inclusive no chão. É feio, sujo, anti-higiênico. Por que os condôminos dos edifícios não fazem alguma coisa?
Pois é, amigos. Há 25 anos, quando me mudei para a casa onde moro, o terreno em frente à minha casa já era destinado a uma praça. O projeto estava aprovado na Câmara Municipal. Até hoje o terreno está aqui, com mato alto, animais peçonhentos, lixo e escuridão – a despeito de reivindicações, pedidos e abaixo assinados da vizinhança. Meu quarteirão fica entre três avenidas importantes da cidade- Portugal, Nove de Julho e Maurílio Biagi -, ou seja, não estamos falando de nenhuma zona rural distante. De lá pra cá, bairros inteiros foram construídos na cidade com lindas pracinhas por perto, onde passeiam, correm e brincam os legítimos herdeiros da classe AAA. É A CARA DE RIBEIRÃO, NÉ NÃO?
Olha, eu até que me dou muito bem com esse negócio de solidão. Não falo daquela solidão existencial, do isolamento dos tristes e anti-sociais. Refiro-me a estar só, eventualmente, e gostar bastante. Ver um filminho, ler um bom livro, escrever, meditar, enfim, estar comigo.
Mas outro dia fiquei bastante preocupada ao me ver conversando com o pote de geléia. Tá certo que era uma geléia muito boa, importada, natural, sugar free, enfim, uma geléia de classe. Mas peraí...com um pote de geléia?
Acontece que eu tinha colocado o pote virado na geladeira e escorreu um bocado de geléia. Comecei a limpar a bundinha do pote e me peguei dizendo “desculpe querida, foi sem querer”... e por aí foi.
Gente! Se ainda me faltassem interlocutores. Mas eu tenho amigos, muitos, bons conversadores, interessantes, inteligentes, divertidos (bem mais divertidos que um pote de geléia) e converso muito com eles, sempre.
Caduquice? Já? Ah não!
Tá certo que sempre falei sozinha. Afinal, sou prima do Luciano Lepera que, pra quem não conheceu, era, além do único comunista de verdade que eu conheci, um grande conversador solitário. Sempre falou sozinho, em qualquer lugar. E o mais interessante: respondia. Ou seja, estabelecia um bom debate sem precisar de interlocutor. Outro dia mesmo, eu estava numa conversa animada e a minha filha veio lá do banheiro perguntando com quem eu estava falando. “Tô falando sozinha”, respondi. Ela continuou a escovar os dentes e não pareceu se preocupar. Afinal, faz parte da família.
Mas com um pote de geléia, acho que é demais.
Amigos, por favor, respondam-me se vocês, ao menos uma vezinha na vida, já conversaram com potes de geléia ou assemelhados. Sei lá, um papinho com a luminária sobre o calor; ou uma troca de ideia com o creme dental, o aspirador de pó, enfim, com esses seres inanimados que, afinal, também são fiéis companheiros do nosso cotidiano.
Não vale mentir, tá? Aguardo ansiosa pela resposta de vocês. Agora deixa eu tomar meu Lexotam (brincadeirinha!)
Acabei de assistir, sem querer, a um documentário delicioso e surpreendente. “Coração Vagabundo”, sobre o Caetano Veloso, dirigido por Fernando Gronstein Andrade que, pelo que eu vi, é um menino – talentosíssimo, diga-se de passagem.
Nessas décadas todas, foi a primeira vez que vi Caetano de forma tão íntima, tão desarmada e espontânea. Que gostoso conhece-lo por esse lado também. O resultado é a descoberta de um homem inteligente, sim, genial, como já sabemos, mas doce como eu jamais imaginei.
O crítico Amir Labaki, que apresentou o programa, já havia antecipado essa impressão, que é confirmada por todos que assistem ao filme. Vale a pena.
Sempre há o que descobrir de novo no ser humano, não é mesmo?
Gente, que história é essa de falar “risco de morte” em vez de “risco de vida”? Vi num telejornal local. Para com isso. Vamos combinar que você põe(ou alguma coisa põe) sua vida em risco – e não sua morte em risco. E não se fala mais nisso,ok?
Devia ser obrigatório nas escolas. Além dos adultos, crianças e adolescentes deveriam assistir a esse belo filme para conhecer uma história que quase ninguém conhece.Para saber de um Brasil lindo, que também tem heróis.
Eu sou contemporânea de Orlando e Cláudio Villas Boas, passei a vida ouvindo falar deles, mas não sabia nadinha dessa história magnífica - dessa saga de irmãos que se embrenham na floresta brasileira e tomam para si a missão de salvar nossos índios.
Emocionante, envolvente, bem feito e lindamente dirigido pelo Cao Hamburguer que já deu provas de sobra sobre o diretor que é.
Assistam a Xingu. Recomendem aos amigos- e aos inimigos também. Quem sabe eles melhoram a cabecinha.
Pendurou a esperança no gatilho e puxou. O estampido era mais seco e menos barulhento do que esperava. E não era que nem os filmes que assistia pela tevê. Era muito mais solitário e assustador. Além disso, não tinha música de fundo.
O corpo do moleque magrinho curvou-se para trás e depois foi desmoronando devagar feito um saco vazio. Tombou. Até que fora fácil. Matara o ladrãozinho - e não se sentia herói. Só mais esperto. Depois levou a arma até a mesa e ficou pensando o que fazer nos próximos minutos. Tentou se lembrar dos filmes e ligou para a polícia.
Tinha 18 anos e queria ser engenheiro, como o pai. O vestibular daqui a alguns meses o assustava mais do que o crime que acabara de cometer. Afinal, guerra é guerra, mas esta se ganhava com rapidez, sangue frio e pontaria. A outra, a do vestibular, era imponderável.
O filme do Bruce Willys não saía da cabeça. Ficou esperando a viatura sentado no degrau da frente. Depois, abriu um saco de Doritos e empanturrou o estômago oco. Mais Coca-Cola.
Para a polícia mais tarde, explicou que o moleque invadira a casa armado e que o pai lhe ensinara a atirar. Fins de semana no sítio, latas vazias, como nos filmes. Só então lembrou do celular da família em férias e contou tudo, primeiro pra irmão mais velho que atendeu lá da praia, depois pro pai que o chamou de “meu herói” e resolveu tudo com o delegado, amigo de pôquer.
A perícia examinou um pouco e depois levou o corpo do moleque sem nome. A vizinhança se alvoroçou, mas evitou intimidades. Foi cada um cuidar da vida.
Viu um pouco de televisão, fez um baita sanduíche e se enfiou outra vez nos livros. Vestibular era guerra pra gente grande.