Tenho estudado um pouco de Filosofia Clínica nos últimos meses. Quem tiver algum interesse pode conhecer um pouco mais sobre este assunto em www.filosofiaclinica.com.br. Pois bem, são aulas mensais com um sujeito fora de série, o professor e filósofo clínico Lucio Packter. Ele pediu que eu levantasse (e escrevesse) a minha historicidade, que nada mais é que um resumão da vida, do qual é possível extrair informações para analisar e discutir o comportamento, estilo, angústia e visão de mundo.
Pois bem, para complementar esta historicidade, acrescentei um texto que elaborei no dia em que completei 41 anos (faz tempo ...): chama-se “Kuarenta Euhm”. O professor Lucio gostou do conteúdo e leu boa parte do mesmo pela rádio via web para centenas, ou melhor, milhares de ouvintes em todo o Brasil. No dia seguinte, até me pediram permissão para publicar o tal texto num jornal.
Assim sendo, sem esconder minha satisfação com o inesperado interesse por “Kuarenta Euhm”, tirei-o dos arquivos empoeirados do computador para compartilhá-lo com vocês, leitores deste blog:
Kuarenta Euhm
Aos quarenta e um, um homem já fez praticamente tudo o que na vida há importância. Enfim, foi herói na infância, sonhador na adolescência, na juventude buscou sua essência e empolgou-se com referências, depois perdeu a inocência e, como adulto, acreditou na ciência, sacudiu sua existência e estabeleceu sua descendência;
Aos quarenta e um, um homem já provou quase todos os sabores do paladar terrestre: viajou para muitos países, fincou raízes, subiu montanhas, fez muita manha, participou de competições, ganhou medalhas e saltou muralhas, se embebedou, perdeu a razão, voltou a ser são, teve muitas mulheres, lambeu colheres de goiabada, de macarronada, saboreou os melhores pratos, deliciou-se com os momentos insensatos, andou descalço na areia, ouviu rock and roll na veia, se divertiu com os amigos, zombou dos inimigos;
Embarcamos para o Sul, véspera de feriado, em família, na busca do acalorado frio que aquece a alma dos viajantes nas latitudes mais meridionais. Na bagagem, roupas mais grossas e casacos quase empoeirados e há muito guardados, e muita vontade de desfrutar do novo e do desconhecido: uma capital à beira de um rio, sua história e monumentos; o alento de uma gastronomia farta e apetitosa; paisagens européias e dos contos de fada; e epopéias em canyons formados por forças míticas e cataclíticas.
Na capital, nos entregamos primeiramente ao pecado da carne em galpão crioulo. Recusamos prudentemente o rodízio completo optando pelo simples e reto, mais apropriado para estômagos quase vegetarianos. De sobremesa, uma apresentação de música e dança típicos da região, adocicada por uma perfomance ninja de artista, que à vista utiliza uma espécie de ioiô para desenvolver incríveis e arriscados movimentos giratórios, entretendo a platéia outrora alheia e agora de barriga cheia, e cobaias chamadas ao palco, atônitas e de salto.
No dia seguinte, uma visita ao antigo gasômetro, transformado em centro cultural, e ao quarteirão da catedral, com médios e atraentes prédios de valor histórico. O passeio no ônibus turístico, aberto em cima nos moldes dos congêneres londrinos, é interrompido pela chuva. Mas não sem antes passar por alguns pontos interessantes, como um parque farroupilha, um monumento que homenageia as famílias açorianas que fundaram a cidade, e a ponte que hoje leva do nada ao lugar nenhum, construída à época do governo de Duque de Caxias, quando a estrutura possuía serventia.
Era hora de mudança de turno na fábrica. Os três chegaram de carro no bairro de Indianópolis, em São Paulo, e rapidamente começaram a distribuir panfletos aos operários que entravam e saiam. Diziam em alto e bom som palavras de ordem incitando a realização de uma greve e a reivindicação disso e daquilo. Foi tudo muito rápido. A polícia chegou de repente, armas em punho, cercando os acessos. Os três ativistas comunistas correram em fuga, mas uma rajada de balas ecoou no ar. O jovem Oduvaldo se jogou ao chão buscando proteção, mas acabou preso. Um de seus companheiros teve menos sorte, sendo alvejado e morrendo a caminho do hospital.
O Brasil vivia sua primeira infância da democracia. Depois de 15 anos da era Vargas, sendo oito deles em regime fechado do Estado Novo, Eurico Gaspar Dutra havia sido eleito presidente em 2 de dezembro de 1945 com cerca de 3,3 milhões de votos. Assumiu o cargo em 31 de janeiro de 1946 em clima de liberdade e esperança, mesmo dia da abertura dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte - a nova Carta seria promulgada oito meses depois. No entanto, o PCB, o quarto maior partido do país, com quase 200 mil militantes e diversos parlamentares eleitos, teve o registro cassado em maio de 1947 e, no início do ano seguinte, entrou de vez na clandestinidade - todos os parlamentares da legenda perderam seus mandatos. A repressão então se acentuou nos sindicatos e nas ruas.
Encarcerado
Não foi fácil encontrar Oduvaldo depois de seu desaparecimento em 1949. Quando os pais finalmente conseguiram visitá-lo na prisão, estava magro e machucado. Tinham batido bastante nele, o rosto apresentava feridas. Queriam nomes, endereços, informações. Consta que resistiu convicto à tortura, aos bofetões e ameaças. Não entregou ninguém, apanhou calado, por vários dias, resoluto e enigmático que era, desde a infância no interior, na cidade de Ibitinga, nos anos 30. Já jovem, em São Paulo, como era muito reservado, a família não percebeu que, quando não estava trabalhando, se aproximara do PCB, sendo cooptado rapidamente pela doutrina. Enxergara no comunismo uma utopia, uma saída digna para combater as injustiças da vida, a pobreza que via ao redor. Abraçou a causa e seus riscos, sem questionamentos.
A família ia visitá-lo uma vez por semana no Presídio Tiradentes, em São Paulo. Sua mãe, ao mesmo tempo orgulhosa e desconfortável com aquela situação, fazia questão de anunciar aos demais visitantes que o filho não era um ladrão ou criminoso comum, mas um preso político. Dividia a cela com outros dois militantes de origem humilde, que nem possuíam familiares a lhes prestar apoio. Por isso, tudo o que Oduvaldo recebia nestas visitas, fazia questão de dividir com os companheiros, desde maçãs a cigarros. Seu espírito de justiça e solidariedade não se curvava diante da dificuldade e do desconforto, ao contrário, o fortalecia. Sua jovem irmã, então com 15 anos, também acompanhava ansiosa e saudosa estas visitas, mas temia que as colegas de escola soubessem, ou comentassem na aula, que ela possuía um irmão presidiário.
Paixão
Os esforços da família e de organizações e comitês de esquerda que se mobilizavam para defender seus militantes surtiram efeito. Depois de um ano, deixou a prisão, desta vez embaixo dos olhos mais atentos dos pais para que não se envolvesse novamente em confusões. Mas neste período Oduvaldo conheceu uma espanhola. Ele, aos vinte e poucos anos, traços bonito, olhos claros, olhar penetrante, uma boa alma; ela, quase o dobro de sua idade, provavelmente fugida da guerra civil que levara Franco ao poder, e envolvida no movimento que o ajudara a sair do presídio. Apaixonaram-se e viveram um grande romance.
Oduvaldo, apesar de sua crença na igualdade, era machista. Mas encontrou na espanhola um contraponto, uma mulher experiente, vivida, um jeito espalhafatoso de se vestir e de se pentear, com muito a lhe ensinar. O caso de amor não agradou a família, e o pai de Oduvaldo, aproveitando o afastamento temporário da espanhola de São Paulo, começou a controlar as cartas que chegavam pelo correio. Oduvaldo escrevia, mas não recebia notícias da companheira, interceptadas. Cansada da falta de informações e respostas regulares do namorado, a espanhola logo se entregou a um novo amor. Quando Oduvaldo finalmente viajou para visitá-la, encontrou-a nos braços de outro. Foi um choque para o jovem idealista que, nos últimos tempos, ferira a alma e o corpo em função de suas convicções, e agora experimentava as dores de um coração partido.
Nesta época, alguns sinais de esquizofrenia já começavam a se manifestar, acentuando sua solidão e submersão em um mundo próprio, recheado com as angústias existenciais. Uma mudança de ares lhe faria bem. Com o apoio da família, foi para o Mato Grosso, onde viveu e trabalhou por muitos anos. Sua bondade e dignidade suplantavam o isolamento e manias, por isso sempre foi querido por onde passou. Morou numa pensão em Campo Grande, a vida seguia um curso que se pode chamar de normal, longe da agitação política que tomava o país e que redundou no golpe de 64 e nos anos de chumbo. Conheceu uma moça, começaram a namorar, a cultivar um novo amor, parecia que ia dar em casamento, formariam uma família.
Doença
Mas certo dia, na pensão, alguns viajantes desavisados e de caráter duvidoso começaram a bolinar a jovem que servia o café. Era uma moça muito simpática e correta, a quem Oduvaldo devotava respeito em função do trabalho honesto, da origem humilde, da simpatia no atendimento diário no estabelecimento. Ao ver um dos homens passar acintosamente a mão embaixo da saia da perturbada e insegura jovem, Oduvaldo explodiu. Subiu a seu quarto, engatilhou o revólver e desceu para fazer Justiça com as próprias mãos. Na confusão deflagrada, os viajantes abusados felizmente conseguiram escapar, mas a energia gerada naquele momento de fúria desencadeou uma terrível crise emocional.
Ele foi então internado, um irmão veio de longe, de Niteroi, em avião fretado, para auxiliá-lo. O pai da namorada, ao saber do ocorrido, resolveu afastar a filha do que antecipou ser um casamento com um homem atormentado por problemas psicológicos. O mundo mais uma vez se mostrava a Oduvaldo como um local hostil, no qual a felicidade também era uma utopia e o tempo uma sucessão de eventos traumáticos. Restava-lhe, mais uma vez, o convívio com ele mesmo, aquele arrastar diário de dúvidas, angústias e dissabores, a espera, e não a esperança, de um futuro incerto. Aposentou-se, prematuramente, por invalidez.
Nos anos 70, a ditadura militar dizimou comunistas e terroristas e levou o Brasil ao milagre econômico. Alheio a tudo isso, passou a viver em Belo Horizonte, junto com a mãe, viúva, e próximo à irmã, aquela que o visitava no Presídio Tiradentes. Fumava dois maços de Continental por dia, um derrame deixou-o com um dos braços permanentemente dobrado, a mão no peito. Tomava muitos remédios, vivia seu mundo, sem muito diálogo, quase um monólogo com seu interior perturbado e silencioso, um esquizofrênico que alcançava algum prazer ou alívio nas baforadas do cigarro.
Cuecão
Ganhou o apelido de “cuecão” na vizinhança mais maliciosa, já que, fazendo frio ou calor, só andava de bermudão, diariamente, no calçada que o levava do apartamento à padaria ou à farmácia. Mas tinha seus momentos de humor. Com a prisão de ventre a incomodá-lo, não titubeou em comprar supositórios na farmácia dizendo que eram para sua mãe. Ela, sempre orgulhosa, ao saber da notícia, corou e nunca mais colocou os pés na farmácia. Aos domingos, ia almoçar na casa da irmã e da numerosa família desta, casada e com seis filhos. Na verdade, comia antes dos outros, pois não tinha paciência de esperar a refeição e preferia logo sair para pitar seu Continental ou acender alguma luz no fim do túnel.
Às vezes, inesperadamente, soltava alguns comentários. Dizia que, se Luis Carlos Prestes fosse o presidente do Brasil, tudo seria melhor. Parado um pouco no tempo, com a cabeça e as idéias consolidadas em sua curta militância ao final dos anos 40, possivelmente ainda suspeitasse que os crimes atribuídos a Stalin fossem invenção do capitalismo. Numa rara concessão ao lazer ordinário, aceitou em 1981 ir ao Cine Paladium, então o principal da capital mineira, para assistir ao filme “Reds – os 10 dias que abalaram o mundo”, estrelado por Warren Bealty, descrevendo o que podemos chamar de momentos gloriosos da revolução bolchevique de 1917. O filme, longo, não transpareceu lhe trazer muito alento, ao menos não tanto quanto os cinco cigarros que o fizeram levantar cinco vezes da poltrona para serem fumados no saguão de entrada do cinema ao longo da projeção.
Em 1984, a irmã mudou-se para Ribeirão Preto e, com o objetivo não deixar Oduvaldo e a mãe sozinhos em Belo Horizonte, trouxe-os para viver numa antiga casa alugada em frente à praça central da vizinha cidade de Cravinhos. Lá ele viveu mais alguns meses, antes de morrer e se livrar definitivamente de uma existência, em geral, conturbada, e de uma trajetória, ao final, sem sentido, presa a um corpo cada vez mais debilitado. O seu exemplo é mais um daqueles que mostram que à vida não viemos a passeio. Mas Oduvaldo, um brasileiro, obscurecido pela sua infeliz condição, exalava, de alguma forma, dignidade, um legado de respeito deixado para aqueles que o conheceram.
Caros, hoje vou escrever pouco (ufa!). Acaba de sair do forno a edição do vídeo da expedição ao Ojos del Salado, em janeiro, no Chile. É o oitavo DVD de minha coleção, uma verdadeira box de viagens e aventuras documentadas pelo Brasil, América do Sul, Europa e África, sozinho, com amigos ou em família.
O vídeo abaixo segue o velho esquema “montanha, depoimento e rock´n´roll”, mas está bacana e mostra o dia a dia de nossa expedição. Se puder, confira!

Fui assistir ao filme do Heleno de Freitas, o primeiro grande representante da tribo do jogador-problema. Rodrigo Santoro interpreta com empenho e razoável categoria o artilheiro brigão e playboy baladero do glorioso Rio de Janeiro dos anos 40, autor de mais de 200 gols pelo Botafogo e destaque da seleção brasileira na conquista do sul-americano de 45 no Chile. Achei exagerada a versão cinematográfica do centroavante, muito mais focada nas suas jogadas noturnas e erráticas - a tabelinha com o whisky, os sem-pulos com o cigarro, as cabeceadas com o éter, os carrinhos por trás nos companheiros e as arrancadas junto ao público feminino – do que nas bolas que balançaram as redes adversárias.
Isto porque, como atleta amador e eventual bebedor de cerveja ou whisky, sei que é bastanteimprovável que alguém que seque uma garrafa de destilado e fume três maços de cigarro diariamente, por anos seguidos, intercalados com freqüentes fungadas de lança-perfume, consiga ter um desempenho minimamente convincente como jogador, quanto mais ser um dos principais goleadores brasileiros por quase uma década. O personagem no filme mais parece uma mistura de Chiquinho Scarpa com Charles Bukowski ... Um junky de sucesso nos campos seria algo tão factível quanto um analfabeto que escrevesse um best-seller.
Meu pai me acompanhou ao cinema, sempre garantia de boas recordações. Contou que lá pelos idos de 1947, ainda garoto de calças curtas em sua cidade natal, Poços de Caldas, foi ver um amistoso-treino da Caldense, o time local, contra o São Paulo. Heleno, que provavelmente fazia estação de águas na cidade – segundo o filme, provavelmente, estaria bebendo, fumando e fornicando no Hotel Palace – atuou nesta partida, por diversão, pelo escrete mineiro. Também participou pela Caldense deste embate, vencido pelo São Paulo, o Mauro, então com 15 ou 16 anos, futuro capitão da seleção campeã da Copa de 62, no Chile. Ele era colega de classe do meu pai e foi zombado no dia seguinte na escola, em tom de admiração, por ter levado um drible entre as pernas do Diamante Negro Leônidas.
Curioso é que três anos depois, no tristonho 16 de julho do “Maracanazo”, quando o Brasil perdeu a final da Copa por 2 a 1 para o Uruguai, meu pai também estava lá – já posso dizer que meu velho entrou na condição de testemunha ocular da História. Quem não estava em campo era o Heleno, excluído da seleção canarinho por desentendimentos com o técnico e pela decadência física e psicológica causada pelo coquetel álcool, éter, nicotina e sífilis. E seu grande sonho era exatamente este: brilhar pela seleção brasileira, para 200 mil torcedores, naquela Copa e em pleno Maracanã, estádio na qual jogaria apenas uma vez vestindo a camisa do América. A frustração abalou de vez o craque.
Em 1948, Heleno passara uma temporada no Boca Juniors, mas já não brilhara tanto. Quando consultei arquivos e links da Internet depois do filme, descobri que as más (ou boas) línguas comentam que o nosso galante atacante teria tido um caso com Evita Perón enquanto esteve em Buenos Aires. Ou seja, na próxima vez que o Maradona disser qualquer bobagem sobre o Pelé ou Neymar, retrucaremos que a adorada diva dos hermanos, antes de cantar para que a Argentina não chorasse por ela, gostava mesmo era de um ataque-defesa pelos flancos, entre as quatro linhas da cama, com um legítimo artilheiro brasileiro.
Heleno teve um abreviado e triste fim, mas sem dúvida é uma grande história que merece ser vista e pesquisada, bem mais charmosa e elegante do que a vida e as caneladas fora de campo, nos últimos anos, de jogadores como o animal Edmundo e o roliço Adriano.
Não nos víamos há uns 10 anos. Nas últimas 20 primaveras, houve apenas duas ou três trombadas fortuitas. Mas descubro que ele tinha voltado de Londres e mora a menos de 100 quilômetros de casa. Acho o telefone na Internet, ligo, ele atende, reconhece a voz na hora. Lembramos fatos engraçados, comentamos sobre as rotinas da vida. Agendamos um reencontro para dali a duas semanas, uma subida noturna ao morro do Camelo. Entre 7 bilhões, somos pessoas únicas, já chegamos aos 45, dobramos o Cabo da Boa Esperança, merecemos rituais distintos, à altura de nossas expectativas.
Quinta-feira, nove da noite, depois de uma breve viagem, chego em sua casa para apanhá-lo. Não sem antes confabular por alguns momentos, em inglês e português, com seus pais: falamos de montanhas, de jornalismo, da Amazônia. Ele prepara o estofo, um delicioso suco de açaí e uma legítima tapioca trazida recentemente do Norte. Sua irmã chega quando já estamos de saída, na rua. Eu a tinha visto em 1986, em viagem ao litoral, de muletas, pinos na perna. Havia tomado um fenomenal tombo no destemido e gigantesco Illimani, sentinela de La Paz, na Bolívia, perto dos 6 mil metros de altitude. Sobrevivera em função dos desígnios do acaso, agora está ali, firme e forte.
Eu e meu amigo partimos lá pelas 10 horas, atravessamos a cidade, entramos na rodovia. Logo depois viramos na estrada de terra por onde seguimos alguns quilômetros. Como teria dito Proust em “Em busca do tempo perdido”, a melhor viagem é aquela que fazemos na memória. Recordamos dos tempos na faculdade, das repúblicas, dos amigos, das festas, da atração entre os sexos opostos, dos vídeos. Ele, músico, cantava nos anos 80 o refrão “Estive mal, estive em coma, estou legal”. Eu ouvia e me divertia, e também apreciava as histórias que ele inventava do Bandido dos Três Tiros, num fictício programa de rádio chamado “Atualidades Policiais”, no qual, ao final, o facínora sempre liquidava suas vítimas com três disparos fatais quando as mesmas, inadvertidamente, pronunciavam o numeral proibido.
Londres
Ele vai para Londres em 1990 para um longo e não planejado exílio voluntário. Na mesma época, o Iraque de Saddam Hussein invade o Kwait e Margareth Thatcher deixa o poder. No início do ano seguinte, três dias depois do início da Operação “Tempestade no Deserto”, a primeira guerra do Iraque, desembarco em Londres
para meu exílio voluntário e planejado de 12 meses. Lá, nos encontramos em várias e memoráveis ocasiões. Numa delas, na companhia de um filho de um famoso político brasileiro, “quebramos tudo” na noite entre pubs enfumaçados, estações de metrô envelhecidas, ruas vazias, festas animadas e muita risada.
Ele trabalha na construção civil, acrescentando diferentes ferramentas a seu cinto à medida que galga posições na hierarquia, de instalador de telhados a colocador de painéis. Como profissional de comunicação, se diverte com o linguajar próprio daquela tribo, um inglês rude, gírias próprias e um sotaque quase incompreensível. Um novo mundo no velho continente, homens toscos e sarcásticos, pequenas piadas, grandes ensinamentos.
Chegamos à base do Camelo em meio à escuridão. Lá em cima, um céu majestoso, cravejado de estrelas. Estaciono o carro, acendemos as lanternas, imediatamente cercadas por insetos, cruzamos a cerca, localizamos a trilha e começamos a subida. É um trajeto curto e não tão íngreme. Nem sinal de frio, tempo quase abafado, o esforço nos faz até mesmo suar um pouco. Em poucos minutos vencemos o breu e atingimos o topo, procuramos por uma clareira que nos dê uma ampla visão 360 graus, mas a vegetação de arbustos e pequenas árvores encobre parte da paisagem ao redor. Desligamos as lanternas, o brilho das estrelas se sobressai, aquela imensidão é só nossa.
O céu é o limite
Ficamos em silêncio um longo período, em estado de observação profunda, os pensamentos passando pela cabeça como estrelas cadentes. De repente, as ideias ganham voz. Ele comenta sobre um livro que aborda a evolução dos sapatos na Idade Média. Pisando em terreno fértil, saltamos para as navegações dos polinésios e como este povo conseguia se guiar através da estrelas e sentidos apurados conquistando ilhas cada vez mais longínquas. E daí passamos para a discussão sobre o impacto das inovações tecnológicas na evolução do ser humano.
A pedra lascada, o domínio do fogo, a agricultura, as navegações. Tudo o que o homem inventava e que, como um vírus, se espalhava entre os povos, fazendo a humanidade avançar em diferentes pontos do planeta. Discutimos a cultura ocidental, como ela ficou para trás em comparação a outras, como a oriental, em campos como o conhecimento espiritual e transcendental. Apontamos para o infinito e ele me ajuda a identificar as estrelas e constelações, o Cruzeiro do Sul e Escorpião. Não localizamos as Pleiâdes e nem as Três Marias, provavelmente escondidas no horizonte, mas acreditamos ver Marte e outros corpos celestes cujos estranhos nomes não me recordo mais.
Ele deixou de beber há tempos embora fosse, no passado, um excelente companheiro de copo. Assim, nossos espíritos não estão ali lubrificados pelo agradável efeito do álcool no organismo, mas se encontram alegremente bêbados com a situação: dois amigos que não se veem há uma década filosofando besteiras no topo de um morro remoto numa madrugada tão agradável quanto ordinária. Recordamos filmes marcantes, ele fala que andou assistindo a Akira Kurosawa, cito que havia visto recentemente “O sétimo selo”, sobre um jogo de xadrez com a morte, e que a primeira vez que havia ouvido falar deste clássico de Bergman fora através de um comentário dele, 25 anos atrás, na faculdade.
Vida e morte
Pergunto-lhe quantos por cento de chance haveria de, após passarmos desta para melhor, termos algum tipo de consciência. Ele não responde. Ofereço então o melhor de Millor sobre o assunto: “Sobre a imortalidade da alma, está para ressuscitar quem me fará acreditar nela”. Ele então diz quem vem meditando e que planeja ficar sete dias somente nesta função. E que encontrou no ciclismo uma atividade incomparável na busca de novos patamares de plenitude existencial. Já pedalou no Himalaia, nas praias da Normandia e agora quer percorrer o Brasil de Norte a Sul, do Oiapoque ao Chuí, e viajar de Londres a Istambul em sua bike.
A hora avança, o amanhã já é hoje, sexta-feira, dia de trabalho, obrigações diversas. Resolvemos descer, a trilha desaparece no escuro, nos embrenhamos no mato denso. Procura dali e daqui, encontramos o caminho naquele vazio. Comentamos sobre o grau de incertezas a respeito de qualquer iniciativa, o que nos espera no futuro, logo adiante. Um touro muge ameaçadoramente no meio do nada, nos assusta. O foco da lanterna mostra que o pouco amistoso bovino está bem no caminho para ultrapassarmos a cerca e chegarmos ao carro. Titubeamos. Seguimos ou desviamos? Resolvemos aumentar as incertezas e vamos direto ao touro. O animal se afasta lentamente, impondo respeito, causando medo.
Regressamos por uma estrada diferente. No caminho, ele ainda conta que, depois da fase na construção civil, virou músico, cover dos Smiths - aumento o volume da música no carro, toca Blue Monday, do New Order, obrigatório nas festas dos anos 80. O dinheiro dele foi acabando e resolveu apostar na informática e virar programador. Escrevera recentemente um livro sobre o ambiente nas nuvens. E voltara ao Brasil para trabalhar num projeto de medição de gases do efeito estufa na região das grandes hidrelétricas. Um ofício prazeroso enquanto planeja o segundo livro e as novas jornadas ciclísticas.
Conto que fiz um curso de apnéia e ele se interessa pela técnica. Chegamos de volta a sua casa e, na calçada, mostro-lhe como respirar aumentando a capacidade de inundar os pulmões com mais oxigênio e assim ficar mais de três minutos debaixo d´água. Ele fica de testar na piscina. Nos despedimos, planejando algum encontro que aconteça em menos de 10 anos, nesta vida, quem sabe em alguma montanha, mas certamente uma escalada de boas lembranças ou dilemas de almas suavemente atormentadas.
Acabo de ler o excelente “A lebre com olhos de âmbar”, de Edmund de Waal, livro que conta a saga da família judia do autor, os bem-sucedidos e milionários Ephrussi. O cenário de fundo da narrativa tem nada menos do que a gloriosa Paris do final do século XIX, a imponente e depois decadente Viena da primeira metade do século XX e ainda o Japão pós-guerra. Em comum a todos estes lugares e tempos diversos, uma coleção de 264 miniaturas japonesas – os netsuquês, uma relíquia de família hoje nas mãos do autor da obra.
Para quem gosta de história, arte e relatos familiares, trata-se de uma leitura instigante e prazerosa. Como tenho feito ultimamente com livros, o notebook tornou-se companheiro obrigatório. A cada capítulo, são inúmeras paradas para consultar o Google, Wikipedia e Youtube com o objetivo de aprender uma informação, aprofundar um conhecimento, tirar uma dúvida ou simplesmente saciar a curiosidade.
E foi assim que descobri fatos interessantes. Quando de Wall cita e detalha o quadro “O almoço dos remadores”, de 1881, de Renoir, coloquei a obra na telinha. É um quadro famoso e conhecido, que estampa a parede da sala de jantar da casa de minha mãe. Assim, tão logo fui visitá-la, não resisti à tentação de chamá-la e apontar um a um todos os integrantes da tela. E um deles é Charles Ephrussi, o bisavô-tio do autor.
Um Charles e tanto
Charles, por si só, já valeria um livro pela sua trajetória no mundo das artes naquela famosa Paris do fim do século XIX e por suas amizades. Uma delas, Marcel Proust, usou-o como inspiração para conceber Charles Swann, personagem principal do clássico “Em busca do tempo perdido”, uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Charles, o Ephrussi, viveu intensamente, notabilizou-se como crítico e colecionador de artes, bem como mecenas. Foi ele quem comprou a coleção de netsuquês que se transformou no fio condutor da trama.
Esta última se desloca para Viena quando Charles presenteia o primo Victor Ephrussi, que morava na capital do império Austro-Húngaro, com suas miniaturas japonesas por ocasião das bodas do segundo. O livro então narra toda a atmosfera daqueles tempos trazendo citações a figuras como Theophilo Hansen, arquiteto das grandes obras da cidade e também do Palais Ephrussi; de Karl Kraus, o pensador e aforista; e de um dos ideólogos do nazismo, Alfred Rosenberg. Em Viena nascem a avó de Edmund, Elisabeth, e seu tio-avô Igg. Este último muda-se para o Japão ao final da guerra levando de volta a coleção de netsuquês, um dos poucos bens que a família outrora bilionária conseguiu reaver após a pilhagem nazista.
Tanto em Paris quanto em Viena ficam evidentes a força do antissemitismo naqueles tempos. Realmente, os judeus não eram lá muito queridos, como o livro mostra por ocasião do caso Dreyfus na França e na ascensão do nazismo nos anos 20 e 30 na Áustria. Bem, acho que do livro já contei o bastante para aguçar a curiosidade de quem gosta de uma narrativa empolgante. Vamos então às reflexões que essa história me trouxe ligadas à questão judaica.
Opinião em formação
Por que tanto ódio secular, senão milenar, contra o povo do Rei Davi? Por que 15 milhões de habitantes, em meio a uma população mundial de 7 bilhões de pessoas, continuam a gerar tantos conflitos? Bem, tenho cá minhas opiniões. O tal povo que se considera o escolhido de Deus desenvolveu ao longo dos séculos habilidades que exigiam o uso de fosfato. Tornaram-se então diferenciados nas artes, na ciência e no ofício de ganhar dinheiro e emprestá-lo a juros . Como funcionavam como um clubinho, ajudando-se uns aos outros, e não tinham pátria, ou seja, chegavam num lugar e logo faziam sucesso, produziam também inveja. Da inveja à intolerância e ao ódio foram dois pulinhos, dependendo de quem estivesse no poder e na crise de ocasião, sempre amenizada pela escolha de um bode expiatório.
Nos anos 70, quando minhas convicções foram se formando na passagem da infância para a adolescência, alguns fatos contribuíram para uma visão, digamos, pró-Israel. Apaixonado por esportes e pela glória olímpica, eu não conseguia entender como uma organização terrorista poderia assassinar 11 atletas e treinadores israelenses em plenas Olimpíadas de Munique, em 1972. O templo do esporte havia sido profanado pelo Setembro Negro e aquilo para mim era imperdoável.
O troco veio quatro anos depois, em junho de 1976, quando terroristas desviaram um vôo comercial para Uganda, mais precisamente para o aeroporto de Entebbe, nas cercanias da capital Kampala, apoiados pelo patético e carniceiro ditador Idi Amin Dada, uma das “divertidas” referências da minha infância e retratado recentemente por Forest Whitaker no filme “O último rei da Escócia”. Ao contrário da desastrada atuação das forças policiais alemãs em Munique quatro anos antes, os comandos anti-terror de Israel deram um show de resgate, dizimando todos os terroristas, liquidando guardas ugandenses, humilhando Idi Amin Dada e salvando quase todos os reféns.
Os detalhes desta operação, considerada uma das mais ousadas e brilhantes de todos os tempos, impressionam. Desde a preparação à execução, com a ajuda da sorte, tudo deu certo. Em 2005, fui à Tanzânia escalar o Kilimanjaro. Na volta ao Brasil via Joanesburgo, na África do Sul, o vôo teve uma escala inesperada e inesquecível em Entebbe após sobrevoar o imponente lago Vitória. Para mim, aqueles minutos parados em solo foram fantasiosos: fiquei “assistindo” na mente aos Hércules C-130 israelenses aterrissando na calada da noite, o primeiro no vácuo de um cargueiro inglês, para se “esconder” em seu barulho, e dele saindo tropas de elite com um sósia do ditador à frente, iludindo e pegando de surpresa os atônitos guardas e terroristas no terminal onde estavam os reféns.
Influência materna e televisiva
Naquela década, lembro-me de minha mãe, uma leitora contumaz e que sempre fez questão de dividir o conteúdo de seus livros com os filhos por meio de longas explanações – durante as refeições, nas viagens de carro ou aos finais de semana -, contando sobre a biografia de Golda Meir. Ou seja, a formação do Estado de Israel e as guerras vencidas contra os países vizinhos faziam a cabeça de um garoto talvez um pouco precocemente interessado em política internacional, mas ávido por grandes estórias na aventura da História.
Outro marco nesta temática se deu com a veiculação da série “Holocausto”, apresentada em 1979 na TV brasileira em nove capítulos, se não me falha a memória. Obtive a permissão materna para dormir mais tarde naqueles dias e assim poder acompanhar ansioso a exibição de cada episódio da lenta destruição da família judia Weiss na Alemanha nazista. A jovem Meryl Streep dava início a sua carreira, casada com o personagem Karl Weiss, interpretado por James Woods. Há poucos anos vi um filme em que este ator faz o papel de um implacável caçador de vampiros, mas em Holocausto ele é apenas um frágil artista perseguido, de boa índole como seu pai, o médico Joseph.
Eu sonhava então com a resistência no gueto de Varsóvia, me via lutando entre escombros até heroicamente chegar a Himmler ou a Eichmann , os carrascos nazistas, aplicando-lhes uma lenta e raivosa solução final. O jovem Rudi Weiss, o único sobrevivente da família ao final da série, é abordado por alguém que o convida a imigrar para a Palestina e ajudar a fundar um novo país dos judeus. E 15 anos depois, os “Rudies” seqüestram Eichmann na Argentina e o levam para ser julgado e condenado à morte em Israel, fazendo uma simbólica justiça e desferindo uma merecida vingança pela morte dos “Josephs” e “Karls”.
Convicção abalada
Minha visão pró-Israel recebeu abalos nos últimos anos, após as intifadas, a nova invasão do Líbano e a falta de iniciativas concretas para resolver a questão palestina, deixando milhares de pessoas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia vivendo em condições quase tão deploráveis quanto às que os judeus passaram em guetos. Fico torcendo para que a democracia israelense mude de prumo, que caminhe da direita para o centro e que consiga começar uma nova negociação com os palestinos que propicie, lá na frente, a criação de um Estado para estes últimos e uma convivência pacífica entre os dois povos.
Mas não tenho dúvidas que a segurança do Estado de Israel, um princípio considerado legítimo pelos judeus após 4 mil anos de múltiplas perseguições, encabeçará suas ações e decisões futuras. Inclusive a de bombardear preventivamente instalações militares do Irã se considerar que as ameaças de Armadinejad de “varrer Israel do mapa” não são apenas bazófias para encantar os ouvidos de antissemitas de todo o planeta.
Pensamentos e elucubrações finais
* penso em Charles Ephrussi num agradável almoço à beira do Rio Siena em 1880 retratado por Renoir;
* imagino seu avô fazendo negócio com trigo e fundando o império dos Ephrussi na Odessa do início do século XIX;
* vejo este império ruindo como um castelo de areia em Viena com a anexação da Áustria em março de 1938;
* digito o caso Dreyfus no Google e mergulho numa França dividida entre os contra e os a favor;
* recordo-me de imagens do julgamento de Eichmann, em 1961, numa gaiola a prova de balas, em Jerusalém;
* sinto-me como um piloto aterrissando um avião num aeroporto escuro em Uganda em julho de 1976 para resgatar uma centena de reféns;
* solidarizo-me com palestinos vivendo na miséria na Faixa de Gaza nos dias de hoje;
* pergunto-me se Israel irá atacar o Irã ainda este ano antes das eleições nos Estados Unidos;
* desejo conversar com Edmund de Waal e perguntar como interagiu com seus antepassados;
* tento recompor a trajetória de minha família desde o século XIX mas temo não encontrar “Charles Junqueiras” vivendo em Paris ...
* planejo comprar uma miniatura japonesa e ficar massageando o netsuquê com as mãos no bolso;
* concluo que a Lebre com olhos de âmbar e o antissemitismo realmente dão muito o que pensar ...