Caía a tarde sobre a ponte Guimarães Rosa... O sol ardente queimava o solo, implantava um céu azul, promovia o desfile de sombrinhas. Eram sombrinhas coloridas, floridas, imponentes, arrogantes.
Elas apareciam mais que as pessoas, ocupavam espaços. Por serem sombrinhas, se abriam como um domo e deixavam as cabeças sob, abaixo. Diminuíam as mulheres de batons vermelhos. De repente, elas tinham que ser fechadas. As casinhas de uma porta e duas janelas, de passagem estreita, as casas baixas, de terra batida, casas simples, moradias, quase lares.
Para entrar era preciso fechar. A porta abre solenemente, recebe o pai. Pai pescador, pai plantador de roça, pai que não “enrica”. Pai Juarez, Pai Nonato, Pai Severino. “Como tantos severinos, iguais em tudo na vida”. Entra o pai, sai a mãe. A mãe Jurema, Iara, Dilene, Idália, Maria...
A mãe rachada, espantada, humilhada. Ela sai, não é parte da entrada. É só abrigo do trabalho, é parte da “lida”, extensão da roupa, depositária da comida, orifício de prazer. Os filhos circulam pela rua para “atentar”, para teimar, birrar, gritar...
A sombrinha fechada no canto da sala é testemunha da prosa. Registra os diálogos de poucas palavras.
O sol se foi, a noite chegou, a luz é pouca, a lamparina, a vela... A ausência de afetos, o carinho roubado, o encanto desencantado... Jurema, Julieide, Junemar, Juvência, Juclécia, Julianita, as irmãs da casa se unem aos meninos Valdécio, Valcrécio, Valdemir, Vaumaurice, Vaumarce e Vallum. Estes personagens saídos de um teatro, impregnados de uma alegria pouca, como poucos são os sonhos, poucos são os projetos.
O sono chega, o corpo relaxa onde dá, onde cabe, onde o espaço permite. As Jus e os Vals se unem, se esbarram. Os corpos destes animais humanos descansam, o estômago ronca de fome, o pulmão respira a terra árida, o rim filtra a água escassa, os zumbidos dos pernilongos formam a serenata da madrugada. Os mosquitos invadem, picam, espalham as doenças, socializam a miséria.
A sombrinha dormiu quieta, fiel observadora das reações humanas. Ela é só uma sombrinha. É vermelha, é fantasia, ela precisa de uma dona, precisa de um corpo, precisa de uma mulher... Quieta no amanhecer, a simples sombrinha assiste ao café com pão amanhecido. Ela sai às ruas e fica olhando as saias, anda, corre e contempla o Velho Chico. O imenso Rio São Francisco.
Onde estamos? Por que viemos?
Estamos em CARINHANHA. Estamos no Sertão da Bahia. Estamos no Brasil dos excluídos. Viemos com os voluntários do Sertão. Viemos dar, doar, partilhar, cooperar e aprender. Viemos oferecer nosso tempo, oferecer nossas habilidades. Viemos porque acreditamos na solidariedade.