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Jornalista, formada pela Unesp e pós-graduada em Gestão da Comunicação/USP

Escola e família, um diálogo possível

Postado em 07 de Outubro de 2011 às 15:10 na categoria Arquivo Y

Muitas vezes permeada pelo desinteresse, pela apatia ou pela ‘falta de tempo’, a relação de pais com a escola - e vice versa -, exige mais atenção, reflexão e, acima de tudo, ação, pois está diretamente relacionada a formação de indivíduos e vem sendo negligenciada, de ambos os lados, pela falta de diálogo


São bastante comuns na atualidade, em qualquer discussão que se trave à despeito de qualquer tema, as justificativas. O “modus operandi” humano parece estar preso à necessidade de encontrar razões para as falhas, ao invés de aceitá-las e corrigi-las. Assim, quando se fala em participar de forma mais ativa, dinâmica e incisiva na formação escolar dos filhos, é bastante comum encontrar pais que se apoiam na ‘falta de tempo’ para isso. Da mesma forma como se tornou comum às escolas se apoiarem na ausência familiar para explicar posturas autoritárias ou falta de iniciativas.

O problema desse jogo de empurra-empurra de responsabilidades é que bem no centro dele estão as crianças e jovens que, um dia, comandarão as empresas, as próprias escolas e o país. E isso, sem ter recebido a merecida e necessária atenção para a sua formação como seres humanos.

Assumir com responsabilidade e compromisso a educação dos filhos talvez seja a tarefa mais complexa na vida dos pais, diante de todas as demandas diárias, mas precisa ser uma prioridade. E uma maior participação na formação escolar passa, necessariamente, pela iniciativa. (continua)

“Eu estou sempre cansada, sempre com a vida muito corrida, mas foi minha escolha ter um filho e, por isso, preciso engolir o cansaço e dar toda a atenção e carinho que ele precisa”, diz a pesquisadora Tatiane C. I. Toledo.

Presente e atuante na vida escolar da filha de quatro anos, apesar da jornada de trabalho, Tatiane é o tipo de mãe que escreve diariamente na agenda escolar, conversa com alunos, professores, direção e funcionários da escola e até tomou a iniciativa de pedir o contato dos pais dos colegas da filha para convidá-los para aniversários fora do ambiente escolar e tentar estabelecer um relacionamento social amigável.

“A Luna passa mais tempo na escola do que comigo, então eu preciso conhecer quem são essas pessoas com quem ela conversa. Muitas vezes ela me pede para ir na casa de alguma coleguinha ou para uma delas vir em nossa casa, por isso, resolvi pegar e-mail e telefone de todos e me apresentar. Existem os pais neutros, os que acham legal os filhos estreitarem os laços de amizade, mas não tem iniciativa, e os que não querem relação alguma. A vida é corrida para todos, mas eu sou do tipo que toma iniciativa”, afirma Tatiana.

Bastante abrangente, a questão do comprometimento na educação é um ponto delicado da discussão entre pais e escola. De um lado, os pais querem uma escola comprometida não apenas com o fornecimento de um bom currículo pedagógico, que inclua bons professores, novas tecnologias, aulas práticas, atividades extracurriculares e outros conteúdos, mas também que cumpra a finalidade de educar, já que os filhos passam a  maior parte do tempo ali. De outro, a escola quer pais mais conscientes de seu papel na formação dos filhos, mais atuantes na questão da disciplina, mais parceiros na divisão das responsabilidades, mas sem, no entanto, para isso, abrir mão de sua autonomia. O resultado dessa divergência é o distanciamento.

Na opinião do professor e presidente do Conselho Municipal de Educação (CME), Arnaldo M. de Bacco Junior, antes de mais nada, é preciso romper com estruturas culturais viciadas e quebrar paradigmas. Não dá para ser saudosista e ignorar o novo modelo familiar onde as mães trabalham.

“A escola também não pode mais olhar para o pai que cobra respostas como o “pai chato”, que quer dar opinião naquilo que não entende, precisa vê-lo como um parceiro com quem tem a obrigação de dialogar. E os pais precisam entender que a escola tem um papel importante na formação ética e moral, mas que ela não forma o caráter da criança, ela só lapida, portanto, a educação básica é fundamentalmente dos cuidadores. A criança quando vai para a escola já deve ter adquirido os valores do respeito em todas as dimensões possíveis dessa palavra, do contrário, a escola acaba por perder muito de seu tempo em questões disciplinares ao invés de cumprir suas verdadeiras funções de fomento ao pensamento”, avalia Arnaldo.

De acordo com a pedagoga Silvia Letícia D. Malaspina, não são poucos os casos de pais que cobram um compromisso da escola com a educação formal dos filhos, mas que não a colocam, eles mesmos, como uma prioridade.

“Desde o berçário instituímos uma rotina gradativa na escola de ‘trabalhinhos de casa’ (aos três anos uma vez por semana, aos quatro anos, duas vezes e, aos cinco anos, três vezes por semana), isso para que pais e filhos possam ir se habituando a essa rotina de “tarefa”, comum a partir do Ensino Fundamental. Mas, muitas vezes, os pais perguntam se não podem entregar em outro dia ou o professor pergunta porque o aluno não fez  e ele responde: “porque saímos para jantar” ou algo do gênero”,  ressalta.

Essa dicotomia tem sido a responsável por um quadro cada vez mais comum de crianças sozinhas, angustiadas e ansiosas. Um estudo realizado pela Fundação Itaú Social (2008) constatou que o contexto familiar responde pela expressiva parcela de 70% do desempenho do estudante, restando 30% para o ambiente escolar propriamente dito. Com tudo isso, como deveria ser a relaçao dos pais com a escola e da escola para com os pais?

Na opinião de Arnaldo Junior: de parceria. “As portas das escolas devem estar abertas aos pais o tempo todo. Os pais tem direito a todo tipo de informação pertinente a vida escolar de seus filhos. As reuniões escolares, por exemplo, devem acontecer no horário que for melhor para a família e não para a escola, que deve fazer algum tipo de arranjo para compensar o professor para estar disponível em um horário fora de sua jornada de trabalho para atender aos pais”, enfatiza.

Outro ponto de extrema importância defendido pelo professor está na participação dos pais nos Conselhos de Escola. “Se existe uma fórmula mágica para fazer com que a educação avance, é nos Conselhos que ela se manifesta, sem dúvida. O Conselho de Escola é a instancia maior na qual a participação dos pais implica nas decisões das mais variadas ordens, inclusive das necessidades pedagógicas. É espaço para discussões, questionamentos e busca de soluções. O que ocorre, na maioria das vezes, é que a direção da escola nomeia um conselho pró forma, apenas para cumprir a exigência da lei, e esse conselho escolhido a revelia se junta, vez ou outra, apenas para referendar as decisões mais extremas da escola em relação aos alunos indisciplinados”, alerta Arnaldo.

Muitas vezes, os pais participam das reuniões do condomínio, da igreja, do clube esportivo, mas não se lembram de ir à escola do filho no dias festivos, nas reuniões de pais e professores e, principalmente, nas assembleias do Conselho de Escola. “Penso que é preciso construir uma sólida ponte dialógica entre a escola e as famílias, humanizar mais as relações entre pais, filhos e escola. Não é ainda a solução, mas sem dúvida já é um bom começo”, finaliza o presidente do CME.

Encurtando distâncias
As críticas são duras, a ambos os lados, mas há formas de se contornar a rotina de trabalho dos pais para estabelecer um relacionamento mais próximo entre eles, a escola e os filhos, basta um pouco de criatividade e vontade de cada parte. Em muitos casos isso já acontece, mas esse precisa ser um processo contínuo.

No Centro Municipal de Educação Infantil (CEI) Deolinda Gasparini, por exemplo, professores e pais dialogam sobre os melhores horários para realizar atividades juntos. Com isso, conseguiram levar pais para pintar quadros com seus filhos, e o resultado virou o presente do Dia dos Pais. Em outra iniciativa, criaram um projeto de leitura integrado com a família onde, toda sexta-feira, as crianças levam para casa uma bolsa com um livro emprestado da escola, para os pais lerem para ela no final de semana. O resultado dessa relação de parceria e amizade fica nítido na emoção da mãe, Tatiane A. M. de Abreu, que chora ao lembrar todo carinho que a filha, Anna Beatriz, recebe na escola. “É muito bom poder ir trabalhar sabendo que ela está recebendo toda essa atenção e cuidado”, comenta.

No Colégio Sol e Vida, Silvia Malaspina optou pela praticidade da internet para integrar os pais com a rotina escolar das crianças. Mantendo um blog e uma página no Facebook cheios de fotos e informações das atividades realizadas, a escola não só criou um canal de comunicação direto com os pais, ao longo do dia, e de onde quer que estejam, como abriu também uma possibilidade de os pais se conhecerem e compartilharem ideias e comentários.

No Colégio Metodista, uma opção que aproxima os pais é o almoço oferecido na escola. “Acho muito interessante essa possibilidade, que muitas vezes não se tem em casa, de almoçar com o filho. Você precisa comer de qualquer maneira, não custa tirar meia hora que seja para fazer isso com ele na escola e, nesse meio tempo, conversar sobre seu dia”, comenta o empresário Fabiano Gontarzik.

Para a diretora, Babete C. Nassif, há muitas práticas e técnicas que agregam valor a interação - pai e escola -, mas nenhuma delas supre a necessidade de se acompanhar a vida escolar do filho e conversar sempre que possível. “O elo entre família e escola é, antes de tudo, de confiança. A escola está ajudando o pai a criar o filho, essa é a realidade que o crescimento dos períodos integrais demonstra. Por isso, é preciso estabelecer hábitos saudáveis, tanto de um lado quanto de outro, afinal, ambos querem que as crianças sejam felizes, inteligentes e éticas. E respeitando as possibilidades e as diferenças é possível estabelecer esse diálogo”, afirma a diretora.

A Escola
Escola é...
O lugar onde se faz amigos
Não se trata só de prédios, salas, quadros,
Programas, horários, conceitos...
Escola é, sobretudo, gente,
Gente que trabalha, que estuda,
Que se alegra, se conhece, se estima.
O diretor é gente,
O coordenador é gente, o professor é gente,
O aluno é gente.
Cada funcionário é gente.
A a escola será cada vez melhor
Na medida em que cada um
Se comporte como colega, amigo, irmão.
Nada de “ilha cercada de gente por todos os lados”.
Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir
Que não tem amizade a ninguém
Nada de ser como o tijolo que forma a parede,
Indiferente, frio, só.
Importante na escola não é só estudar, não é só
Trabalhar,
É também criar laços de amizade,
É criar ambiente de camaradagem,
É conviver, é se “amarrar nela”!
Ora, é lógico...
Numa escola assim vai ser fácil
Estudar, trabalhar, crescer,
Fazer amigos, educar-se,
Ser feliz.

Paulo Freire

* Matéria publicada na Ediçao Especial Revide Educação - 2011

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