Filha de nordestinos que mudaram-se para o Estado de São Paulo em busca de um futuro melhor, Adalgiza Balieiro morava entre a cidade e a roça, onde o pai trabalhava como meeiro, enquanto a mãe ficava na cidade com os nove filhos para que pudessem frequentar a escola. Durante seis meses, Adalgiza estudava em um colégio de freiras. Lá, decorava poemas e teorias sob as regras do patronato, sempre rígidas e impositivas. “O sistema carregado de autoritarismo por parte dos professores me causava um certo desconforto já naquela época”, recorda a educadora.
A outra metade do ano era passada no campo, ajudando nos afazeres da casa e também frequentando a escola, multisseriada, onde colaborava com a professora ensinando os alunos do primeiro e do segundo anos.
Aos 9 anos, demonstrava o gosto pela profissão que escolheria, a Pedagogia, e aprendia a primeira lição que comporia sua futura linha de trabalho: quem ensina aprende duas vezes.
Formada em Pedagogia e mestre em Psicologia Educacional, Adalgiza acumula 40 anos de experiência. Idealizadora da Escola Interativa, instituição com um sistema de ensino que a educadora prefere chamar de inédito a diferente, relata em seu livro “História de uma Escola”, editado e distribuído pela Interativa Serviços Educacionais, que não foi fácil defender sua concepção pedagógica. “O período que passei na Universidade foi marcado pelo convencional: longas explicações, encaminhamento de trabalhos, apresentações de seminários e só. Foi essa experiência que acabou tornando claro para mim os motivos para o desconforto que eu sentia desde a infância, aquilo que chamo de ‘três bichos cabeludos’, característicos do sistema educacional praticado: autoritarismo, discriminação e arbitrariedade”, conta. Em paralelo, o trabalho em uma biblioteca a colocou em contato com uma elite cultural, seja pessoalmente ou através dos livros, que contribuiu muito para a sua formação e também para a criação dos filhos, na época três, dos cinco que teve.
A tese de conclusão da Universidade foi a primeira oportunidade da educadora de mostrar sua concepção pedagógica. Foram relatados a experiência na escola rural, o entusiasmo dos alunos e o dela ao contribuir, ainda jovem, para a formação de outros estudantes, suas observações, entre outros aspectos do trabalho.
No entanto, o primeiro escrito foi questionado, já que não havia ali embasamento técnico ou teórico, apenas relatos de experiências vividas. Apesar de não entender a invalidade da tese, tomou outros rumos em consideração ao professor.
No entanto, aos 36 anos, resolveu que não queria mais seguir para o doutorado e decidiu que, dali em diante, trabalharia com crianças. E assim o fez. Criou, junto com uma amiga, seu espaço educacional, mas não demorou muito a seguir sozinha na jornada. Há mais de 30 anos, a Escola Interativa segue um sistema educacional próprio, já avaliado e reconhecido pela Secretaria da Educação, o que não foi tarefa fácil. “O nome da escola era precedido de ‘escola livre’, o que não era interpretado com bons olhos, pois acreditava-se que normas e orientações não seriam respeitadas. Mas essa barreira foi vencida”, argumenta Adalgiza, que comemora a conquista do reconhecimento.
Um jeito próprio de ensinar
Contrariando os fundamentos que justificavam a organização das salas de aula por faixas etárias, a educadora deixou-se conduzir pela vontade das crianças e começou a entender a diferença entre os encontros instituídos e os desejados. “Na escola, sem deixar a disciplina e a organização de lado, as crianças têm liberdade para interagir e conviver, construindo, assim, o conhecimento”, relata. O Ensino Fundamental está organizado em três níveis distintos com metas de aprendizagem de três anos. Por sua vez, esses níveis, comandados por tutores — professores com formação em Letras, especialistas e pesquisadores — são organizados em Unidades de Trabalho, que reúnem diversas disciplinas. As matérias são distribuídas dentro dessas unidades, garantindo a disseminação do conhecimento obrigatório, exigido nos cursos regulares.
A idade não é fator fundamental para a adequação dos alunos nos diferentes níveis, definida prioritariamente pelo tempo de aprendizagem característico de cada estudante. Como facilitadores do conhecimento, os professores propõem temas e fornecem ferramentas para que os alunos desenvolvam o pensamento utilizando-se de sua própria referência. “Na Escola Interativa, os alunos são participantes ativos do aprendizado, não apenas do seu, mas dos colegas também”, relata a educadora. Trocando experiências e praticando a solidariedade, os jovens aprendem e ensinam de forma mais efetiva. Aulas de música, teatro, ciências, entre outras, colaboram para a ampliação das possibilidades de aprendizagem.
Para fundamentar seu trabalho, Adalgiza buscou no biólogo chileno Humberto Maturana as referências que precisava. Autor de “Biologia do Conhecer”, o premiado pesquisador criou, com Francisco Varela, o termo “autopoiese”, que designa a capacidade dos seres vivos de produzirem a si próprios, através da interação com o meio, desenvolvendo formas de adaptar-se a ele.
Nesse cenário, o professor precisa assumir o papel de facilitador do conhecimento e também de aprendiz. “Estamos em constante reformulação do nosso próprio trabalho. Realizamos encontros quinzenais para avaliar os resultados e repensar o que for necessário. Nada tem seguimento se não houver o comum acordo entre os envolvidos no trabalho, incluindo a opinião dos alunos”, relata Adalgiza, que conta com 16 profissionais para os cerca de 60 alunos.
Formação para a vida
A solidariedade com os colegas e a colaboração mútua desde a primeira infância, segundo Adalgiza, refletem positivamente na formação integral dos alunos. “Em um mundo baseado na competitividade, é realmente complicado desenvolver conceitos como respeito, solidariedade, interatividade”, avalia a educadora. Este é o papel da escola dirigida por ela, que realiza palestras e encontros com professores empreendedores. “Somos uma escola pequena e vamos nos manter assim. Mas tenho o sonho de ver multiplicadas pequenas ações, especialmente relacionadas à educação, em outros cantos do país”, revela Adalgiza. A educadora dá palestras sobre o trabalho da escola e orgulha-se ao mostrar a pais e professores interessados seu sistema de trabalho. Para mais informações, acesse www.escolasinterativas.com.br ou ligue para o tel.: (16) 3621.4650.
Jogo rápido
Um livro de cabeceira?
Qualquer um do biólogo chileno Humberto Maturana
Um filme para ser revisto?
Sociedade dos Poetas Mortos
O que não pode faltar a um professor?
Compreensão e afeto
E a um aluno?
Entusiasmo
Um exemplo a ser seguido?
Paulo Freire
Uma lição de vida?
Meu pai, que saiu do Nordeste e transformou sete, de seus nove filhos, em doutores
Uma frase?
“Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo
o entendimento”, Clarice Lispector
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Carolina Alves e arquivo
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