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O retrato da superação Depois de receberem o diagnóstico do câncer de mama e lutarem contra a doença, Adriana Coselli, Carla Queiroz e Christiane Carolo vivenciam a alegria da vitória

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Há alguns anos, a palavra câncer mal era pronunciada. As pessoas acreditavam que até falar sobre a doença trazia má sorte. Hoje, mesmo com a evolução da Medicina e a facilidade de acesso à informações sobre cada caso, ainda existe um certo receio ao trazer o assunto à tona. Para as mulheres, em especial, o câncer de mama é um dos que mais assusta. Isto porque a doença mexe com a feminilidade e com a autoestima, desequilibrando o emocional da paciente.

O problema é sério e merece atenção. A realidade não é simples e o tratamento exige força e dedicação, tanto física, quanto psicológica. Os enjoos, as dores no corpo e a falta de disposição causada pelos medicamentos são acompanhados pelas alterações na aparência, como perda do cabelo e opacidade da pele. Porém, com o diagnóstico precoce, as chances de cura são imensas. A fase mais complicada passa e o alívio da vitória tem um sabor inesquecível.

É isso o que dizem essas mulheres. Adriana Coselli, Carla Queiroz e Christiane Carolo passaram por várias dificuldades, cada uma do seu jeito, e agora celebram a superação. Nesta entrevista, de coração aberto e sem restrições, elas contam sobre as etapas da doença, revelam as impressões do período do tratamento e contam como venceram os obstáculos através do apoio da família e dos amigos, além de terem descoberto uma imensa  vontade de viver.

Determinação e perseverança

A administradora de empresas e empresária do ramo de eventos Adriana Coselli Marcondes, hoje com 45 anos, recebeu o diagnóstico do câncer de mama aos 37. Assim como acontece com a maioria das mulheres, a desconfiança de que havia algo errado surgiu quando notou um nódulo no seio. Com o alerta, Adriana marcou uma consulta com o ginecologista que, de pronto, indicou a realização de mamografia e ultrassom. “Um erro de interpretação dos exames definiu o nódulo como fibroadenoma aspecto benigno. Portanto, não foi solicitada a extração. O indicado foi um acompanhamento com ultrassom a cada três meses. Durante um ano fiz o exame em quatro oportunidades, até que o médico que conduzia o procedimento percebeu pontos heterogêneos no nódulo. Tive que me submeter a uma biópsia”, explica a empresária. O resultado foi positivo.

Os dias que se seguiram foram difíceis. Com o diagnóstico em mãos, Adriana se sentia enganada pelos profissionais que deveriam zelar por sua saúde. “Nunca fui negligente em relação a isso. Sempre cumpri as orientações, mantendo as visitas e os exames de rotina em dia. Uma análise mal feita da mamografia fez com que todos confiassem que o nódulo era benigno. Neste momento, decidi fazer meu tratamento com um mastologista em São Paulo”, conta Adriana. O câncer, a princípio, era um fardo grande a ser carregado e causou uma tristeza profunda. “Talvez aqueles tenham sido os piores dias da minha vida. Não conseguia aceitar que estava doente e que poderia ter o câncer esparramado pelo meu corpo. Repetia que aquela não era a minha história. Não queria que esse fosse o último capítulo da minha vida”, recorda. Depois de uma revista minuciosa, ficou constatado que a doença não havia se espalhado. A notícia trouxe um alívio e uma dose de ânimo que foi decisiva para vencer essa batalha.

A cirurgia de remoção foi marcada para a semana seguinte. A reconstrução da mama foi imediata. “À época,  diante daquela situação, fui extremamente imediatista. Queria que a cirurgia fosse feita o quanto antes e nem pensava na reconstrução como algo tão importante. Só depois vi que era fundamental”, declara.  A recuperação também não foi fácil. O médico indicou quimioterapia preventiva. O tumor tinha sido completamente retirado, mas era preciso garantir que nenhuma outra microcélula contaminada permanecesse no organismo da empresária. Segundo Adriana, para passar por essa fase, foi preciso muita determinação. Estabeleceu que a quimioterapia era uma meta a ser cumprida pacientemente. “Coloquei na minha cabeça que aquilo era temporário. Quando fiz a primeira, repeti para mim: agora faltam apenas sete, depois seis e assim por diante. No início, fiquei bem enjoada, mas me recusava perder a disposição. Fazia caminhadas diárias, continuava trabalhando e me ocupando. O paciente não pode deixar o desânimo tomar conta”, indica a empresária.

O tratamento causou mudanças na aparência de Adriana. Os cabelos caíram e a pele adquiriu um aspecto debilitado. Para combater esses inconvenientes, investiu em recursos simples, como peruca e muita maquiagem. “Lidei com a doença com a maior naturalidade possível. Algumas pessoas pareciam constrangidas ao me verem. Mas isso não me abalava. Sabia que era questão de tempo. Tinha muito o que viver pela frente”, ressaltou.

Três meses depois do final da quimioterapia, Adriana promoveu uma superfesta de aniversário para a família e os amigos.  “Foi emocionante. Era um ano que precisava ser comemorado. Com peruca e tudo!”, recorda. A família e os amigos, inclusive, juntamente com a fé inabalável em Deus, foram o porto seguro da empresária durante essa jornada. A vitória, celebrada diariamente, trouxe muitos ensinamentos. Adriana afirma que não é a mesma pessoa. Hoje, é ainda mais positiva e alegre. Aprendeu a achar beleza nos momentos mais simples do cotidiano. Tornou-se mais humana e tolerante, além de apreciar e aproveitar mais a natureza. Resumindo, Adriana afirma que tem mais alegria em viver.

Apoio familiar e fé

Para Carla Gordo de Queiroz, a notícia de que estava com câncer de mama foi um grande susto. Como se cuidava de forma exemplar e não tinha histórico da doença na família, acreditava que isso jamais aconteceria. A última mamografia tinha sido executada há seis meses e nada havia sido constatado. Durante o autoexame, a bancária, então com 42 anos, detectou um nódulo na mama direita. Imediatamente acionou o médico, que pediu um ultrassom para confirmar a suspeita. Uma semana depois, o material foi retirado e encaminhado para biópsia. “Quando recebi o diagnóstico, chorei como nunca. Só pensava em como eu iria cuidar dos meus três filhos. Nem conseguia imaginar o que eu teria que enfrentar. Até hoje me emociono ao lembrar tudo aquilo que passei”, diz Carla.

Por sorte, a doença foi descoberta em seu estágio inicial e, com isso, as chances de cura eram muito grandes. O tratamento durou aproximadamente um ano. No total, foram oito sessões de quimioterapia, nove com o Herceptin, um medicamento novo específico para o caso dela, e 30 de radioterapia. Os enjoos eram constantes, assim como a dor de cabeça e a indisposição geral. “Depois da primeira sessão do tratamento, pensei em desistir. Achei que não conseguiria chegar ao final. Meu estado físico e o emocional ocilavam muito. Havia dias em que me sentia muito bem e outros que não tinha forças para nada”, comenta a bancária.  Tirar licença do trabalho também foi difícil, mas ela teve que parar tudo para se cuidar.

Mesmo com todas as informações fornecidas pelo médico e sabendo que era para melhorar a saúde, foi doloroso encarar as consequências da medicação. Cerca de 20 dias depois do início do tratamento, o cabelo começou a cair e em cinco dias já tinha perdido quase tudo. Por isso, optou por raspar a cabeça. A alteração hormonal também fez com que Carla ganhasse peso. “A vaidade vai por água abaixo. Não reconhecia meu rosto. Fiquei sem cabelo, sem sobrancelhas, sem os cílios. Eu me sentia horrível e não tinha coragem de me olhar no espelho”, lembra a bancária. Pouco a pouco, um dia de cada vez, ela foi se acostumando com a nova realidade, superando os obstáculos e vendo a vida por uma nova perspectiva. Voltou a ter confiança e passou a sair. Para incrementar o visual, colocava um lenço e se maquiava. A bancária até aprendeu a desenhar as sobrancelhas para que o rosto tivesse mais expressão. Assim, a vida foi voltando ao normal.

Além do oncologista, Carla contou com outras formas de ajuda. Ela procurou um psicólogo e um centro espírita para se cuidar de maneira completa: do corpo, da mente e do espírito. “Precisava voltar a me apegar na fé em Deus para conseguir forças. O apoio que tive da família e dos amigos foi fundamental para assegurar que eu não estava sozinha. Conhecer mulheres, saber de suas histórias, que elas passaram pela mesma doença e que estavam bem, foi um estímulo para continuar. Queria muito viver e não ia abandonar o barco”, destaca.  Hoje, aos 47 anos, está prestes a completar cinco anos para declarar a cura da doença após a finalização do tratamento. “Estou quase lá. Tomo apenas medicamento via oral, faço acompanhamento semestral com meu oncologista e está indo tudo muito bem. Levo a vida como antes, sem restrições”, alegra-se.

Assim como Adriana, Carla sente uma mudança profunda em seu comportamento e na sua forma de pensar. Foi um aprendizado lento, porém significativo. A bancária sabe que tirou o melhor dessa lição. “Conheci mais de mim e dos que me cercam. A gente percebe que não tem tempo a perder e que precisamos aproveitar tudo o que a vida nos oferece de coração aberto. Cada acontecimento, mesmo que singelo, tem um toque especial para mim. Eu só quero estar com a saúde em dia e ser muito feliz”, revela. As dificuldades também fizeram com que Carla se preocupasse mais com os outros. Atualmente, é voluntária em um asilo. “Percebi o quanto pequenas ações podem fazer toda a diferença. Vi que a ajuda pode vir de várias maneiras. Uma palavra amiga, um gesto gentil traz um conforto indescritível. Como contei com esse auxílio quando precisei, quero fazer o mesmo para outras pessoas. Estou ao lado delas, à disposição, mesmo que seja apenas para ouvi-las e, dessa forma, tentar amenizar a dor”, finaliza.

Otimismo e autoestima

Hoje, quem vê a publicitária Christiane Carolo, mais conhecida como Chris, em seu trabalho na chefia da Divisão de Eventos da Secretaria da Cultura de Ribeirão Preto nem imagina as dificuldades que ela enfrentou em sua vida pessoal. As lembranças daquela época surgem perfeitamente nítidas. Aos 36 anos, durante a realização do autoexame, sentiu um nódulo na mama. Buscou auxílio médico e o resultado foi uma displasia mamária. Mesmo assim, a remoção para biópsia foi indicada. “Cerca de 15 dias depois recebi uma ligação do consultório da minha médica pedindo que eu fosse até lá com urgência.

Na hora, tive uma sensação ruim, mas não pensei que tivesse a ver com o nódulo. Quanto entrei na sala encontrei uma prima minha, também profissional da saúde e amiga da minha médica. Foi aí que entendi que a coisa era séria. Ouvi tudo com calma: o diagnóstico do câncer e como seria o tratamento. Na saída, na rua mesmo, tive uma crise de choro”, recorda. 

A preocupação inicial foi substituída pela racionalidade e pela vontade de superar o problema. O tratamento começou com uma quadrantectomia, procedimento que não altera muito a estrutura do seio. O maior pavor de Chris era ficar careca, o que, com as seis sessões de quimioterapia, acabou acontecendo. “Exatamente 15 dias depois da primeira sessão, meu cabelo começou a cair. Então, fui ao salão e pedi para rasparem. Não conseguia acordar e ver aquele monte de cabelo no travesseiro”, explica Chris. Os lenços passaram a ser seus companheiros fiéis. Eram mais de 40, de todos os tipos e cores. Chapéus e perucas também eram bem-vindos. Segundo Chris, muitas pessoas não sabiam o que estava acontecendo e acreditavam que ela usava esses acessórios por puro estilo.

A recuperação parecia estar indo bem até que a publicitária descobriu, um ano e meio depois do primeiro diagnóstico, que a doença tinha voltado. “Pela indicação do tratamento eu deveria ter me submetido a 25 sessões de radioterapia que, por opção, não fiz. Minha mãe teve uma amiga que morreu por causa de radioterapia, por queimadura no pulmão. A decisão cobrou seu preço e o câncer voltou no mesmo lugar”, comenta Chris. Dessa vez, foi preciso fazer a mastectomia radical, uma técnica agressiva, com a retirada da mama. “Estava preparada. Pensava assim: ‘é isso que precisa ser feito? Então vamos lá, sem drama’. Não me vi sem o seio. A cirurgia de reconstrução foi feita na hora. A mama retirada ficou um pouco menor, sem aréola e sem bico. Só consegui arrumar depois de seis anos quando fiz plástica nos dois seios. Não ficou perfeito, até porque não tem como, mas ficou muito bom”, declara. 

Durante os três anos de tratamento, a publicitária destaca o papel fundamental que algumas pessoas tiveram. O médico, segundo ela, é o primeiro pilar. Ele deve falar tudo para a paciente, da forma mais humana. Essa relação passa segurança, o que ajuda a eliminar o medo e aumenta a confiança de que a vitória não só é possível, como está próxima. Ter a família e os amigos ao lado contribui bastante. “Mas confesso que algumas pessoas me olhavam como se eu estivesse condenada à morte e isso me deixava extremamente irritada. Sempre soube que ia sair dessa”, enfatiza. Para Chris, o comportamento do marido ou do namorado é outro pilar para o sucesso do tratamento. O câncer de mama é uma doença que abala o emocional da mulher, sua feminilidade em especial. Por isso, por experiência própria, ela afirma que o apoio, a compreensão e a aceitação do companheiro são essenciais para quem está passando por essa situação. 

Depois de cinco anos, Chris recebeu alta e a notícia da cura foi celebrada. Ainda por algum um tempo, ficou receosa e qualquer dor que sentia gerava uma grande expectativa. De tudo o que passou, ficaram algumas lições, como a importância de ficar atenta à saúde, já que, para ela, o diagnóstico precoce e a postura eficaz dos médicos salvaram sua vida. Além disso, Chris aprendeu a se respeitar mais e a ser ainda mais otimista, mais prática e menos emotiva. “Uma doença assim pode acabar com a autoestima e com a esperança, deixando a pessoa amarga, infeliz e vitimizada. Tive sérios problemas com relação a isso, mas superei cada um deles. Vejo a vida como algo sensacional, com olhos de esperança de que tudo vai dar certo. Sou uma pessoa feliz”, conclui a publicitária.

A receita para descobrir e vencer o câncer

O oncologista Fábio Zola destaca que é possível superar o câncer de mama. Para isso, é importante manter os exames de rotina em dia e observar os sintomas do corpo.

Não há forma de se prevenir efetivamente contra o câncer de mama, mas algumas atitudes podem ser tomadas para melhorar a qualidade de vida, como o combate à obesidade, através de uma alimentação saudável, rica em vitaminas e sais minerais, e ao tabagismo. “Não é comprovado que esses fatores interferem, mas, segundo pesquisas recentes, as mulheres obesas e fumantes parecem mais suscetíveis”, aponta. É preciso, também, manter os exames em dia. Geralmente, a mamografia é indicada a partir dos 40 anos. O método pode mostrar alterações até dois anos antes do nódulo ser perceptível ao toque. Portanto, o autoexame, de acordo com a literatura médica atual, não é o mais indicado.

Quanto à questão genética, Fábio comenta que de 5% a 10% dos casos são hereditários. “A doença existe, é preciso ter cuidado, mas é possível superá-la. As pacientes precisam entender a doença, deixar isso no passado e continuar a vida normalmente”, finaliza.

Alerta contínuo
Depois de detectado o câncer de mama, o profissional vai analisar o tipo do tumor, o estágio, os receptores químicos e as condições da paciente para montar uma estratégia em busca da cura pensando nas menores sequelas possíveis, tanto imediatas, relacionadas à estética, quanto tardias, como alterações cardiológicas e neurológicas. “Não se pode acreditar em tudo o que se vê na internet ou no que os outros falam. O tratamento é cada dia mais individualizado e cada caso tem seu andamento. Por isso, nada de apelar para receitas milagrosas de vizinhos ou conhecidos. É preciso procurar um especialista”, alerta o médico, que defende o diálogo aberto com a paciente. “É imprescindível falar sobre tudo para que não haja surpresas no decorrer do caminho. O diagnóstico já é um susto e tanto. Não precisa de mais”, esclarece Fábio. Com o tratamento encerrado, começa a segunda fase: a vigilância. As consultas devem ser periódicas durante cinco anos.

Alguns dados que merecem destaque

• O câncer de mama é o segundo tipo mais comum da doença entre as mulheres, respondendo por 22% dos casos a cada ano

• Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), estima-se o registro de 52.680 pacientes com câncer de mama em 2012

• A elevação da incidência do câncer de mama pode ser atribuída ao crescimento da expectativa de vida, já que a doença é mais comum acima dos 50 anos

• A exposição a hormônios e os hábitos de vida modernos também contribuem para o aumento dos casos da doença

Texto: Paula Zuliani
Fotos: Julio Sian

* Publicado em 02/02/2012

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