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Mercado de animação A arte do movimento - como é chamada a animação - agoniza ou começa a conquistar espaço em RP?

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Numa camiseta velha, com a estampa quase imperceptível, uma frase pode ainda ser lida. “Desista dessa ideia maluquinha de virar adulto logo. Eles não têm tempo de ver desenho”. A frase é do personagem “o Menino Maluquinho”, criado por Ziraldo.  Os diretores do estúdio de animação, design e vídeo Usinanimada, Rogério Shareid e Jon Russo, e o cartunista Thomate acreditam que a atribuição do desenho animado como voltado para crianças seja apenas uma questão cultural. 

“A cultura de que o público dos desenhos animados é majoritariamente e fundamentalmente infantil não é verdade. Tanto que trabalhamos, produzimos e também assistimos. Somos espectadores de vários tipos de trabalhos e de vários tipos de artistas que fazem animação para adultos e tem uma linguagem super densa e complexa. Então, essa frase do Ziraldo tem a ver com a cultura infantil. As pessoas acabam achando que o desenho animado é pra criança, mas não é”, argumenta Jon Russo.

Ainda se tratando da frase do Ziraldo, Rogério Shareid crê que o pensamento de que desenhos animados sejam somente para crianças, chega a ser um problema cultural brasileiro. Ele diz que tudo depende da educação. “Fomos educados a ver desenhos internacionais. Então, nos importamos com a parte comercial dessas séries animadas de TV. E o público para essas produções é realmente infantil”, afirma. No entanto, para o diretor, a industria da animação está conquistando mais espaço entre o público adulto. “Hoje em dia nós já conseguimos conversar com pessoas que não ficam espantadas ao ver que os desenhos não são só para o público infantil”, completa.

David Dominowski, um dos sócios da escola de Audio Visual OZI acredita que os adultos estão vendo mais desenhos em função da evolução narrativa da técnica.  “A narrativa ficou mais interessante. E nos identificamos cada vez mais com as metáforas de vida presentes nos desenhos”, diz.  Tanto o desenho vem conquistando o público adulto, que isso acabou se tornando o trabalho de diversos profissionais espalhados pelo mundo, assim como Jon, Thomate, Rogério e David. O diretor do Usinanimada, Jon Russo, diz que há vários artistas que eles gostam de assistir. Ele, por exemplo, é fã das produções realizadas no leste europeu. “A animação tcheca e a animação russa são muito diferentes do que a gente vê comercialmente na televisão. Acho muito lindo”, comenta. 

Entre os desenhos considerados “não-comerciais”, Thomate cita “O fantástico Sr Raposo”, do cineasta norte-americano Wes Anderson. “O interessante é que o filme foi dirigido por um cara que não é da animação. E é isso o que acho legal”, comenta o cartunista. Entre os estilos citados, é pela escola francesa que Rogério Shareid, que ele sente mais admiração. “Nesse caso eu citaria o desenho `bicicletas de bereville`, de Sylvain Chomet”, afirma.

Participando da produção do curta-metragem de animação “Sambatown”, do paulistano Cadu Macedo, como Diretor de personagens, Shareid viu o trabalho ser comtemplado com indicação ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e concorre ao prêmio de curta-metragem de animação ao lado de mais oito produções. “A indicação de ‘Sambatown’  foi uma surpresa enorme, porque esse prêmio é diferente de festival, onde você se inscreve e cria uma expectativa”, conta.

Os aclamados festivais!
Os festivais são peças importantes na vida dos profissionais do ramo da animação, pois através deles - e também da internet - um número maior de pessoas pode conhecer as produções. “Os festivais estão cada vez mais inclusivos, e não só isso. Essa mecânica de editais e de apoio econômico vindo do fundo setorial do audiovisual abrem muitas portas para todo mundo. Então o cara não precisa ter experiência prévia. Basta apresentar um bom conceito, um bom roteiro”, explica David Dominowski, da OZI. Jon Russo, do Usinanimada, sente a falta de ribeirãopretanos em festivais de animação e conta que acha engraçado o espanto dos outros participantes dos festivais. “As pessoas sempre dizem: `Pô! O que tem lá em Ribeirão? É um núcleo? Pois vocês estão em todos [os festivais]'”, brinca.

Mas a realidade não é essa, e por conta do número escasso de profissionais do ramo na cidade, Jon diz sentir-se ilhado. “Não existe uma cena do tipo ‘a animação em Ribeirão Preto’. É só a gente. Trabalhando muito e em parceria com outros estúdios”, afirma.

Para Rogério Shareid falta na cidade investimento nessa área. “Trazer uma escola de cinema na USP, por exemplo, aprimoraria e aperfeiçoaria as pessoas que gostam desse ramo. Isso atrairia mais gente de fora pra cá”, sugere.

Já com relação ao público a história muda, com os reflexos do DIA (Dia Internacional da Animação) e da “Semana Animada”, organizada pela ABCA (Associação Brasileira de Cinema). Segundo Thomate o público tem comparecido cada vez mais. “É um evento realizado anualmente e que tem a seguinte proposta: tornar a animação mais visível ao público, que está cada vez maior. E aqui em Ribeirão o evento prosperou. Até conseguimos parcerias legais com o SESC”, conta Thomate. E Jon completa, “o legal é que a ‘Semana Animada’ está virando tradição. Tem muita criança que já freqüenta”.

O Usinanimada está trabalhando agora no projeto “Laurinha”, uma série animada para TV. 

Os meios
É fato que a internet revolucionou a maneira como os profissionais trabalham e se relacionam. Com essa ferramenta veio uma democratização onde todos podem postar os seus trabalhos assim que finalizados. Rogério acha que, dos trabalhos postados na internet, a ideia e a narrativa são boas, embora as técnicas não sejam tão boas assim. “Mas eu acho que a internet, como meio de difusão desses trabalhos, é muito válida”, opina.

Jon acredita na internet em uma forma diferente. Para o diretor, a importância da rede de computadores pode ir além da divulgação dos trabalhos. “Eu acho que a internet tem outro lado positivo. Não é só o lado do publico, mas de quem produz... A internet salva o nosso trabalho diariamente”, afirma. E Thomate completa, “estamos concluindo um projeto de trabalho todo pela internet. Trabalhamos com equipes em São Carlos e em São Paulo, e se não fosse a internet eu não sei como iríamos resolver isso. Tem esse outro lado da internet. Que eu acho que é um facilitador de produção”, conclui.

Com a internet, houve a evolução das máquinas e a facilidade em adquiri-las. No ponto de vista de David Dominowski, em relação a criação em animação 3D, o que aconteceu foi que as máquinas ficaram cada vez mais poderosas e mais acessíveis. Na opinião dele, antes disso, havia um abismo entre o profissionais que produziam animações caseiras e os profissionais de produtora. “O avanço tecnológico e, na verdade a democratização digital, têm aproximado muita gente para esse mercado. O pessoal tem se reunido em pequenas produtoras. Tem saído muita coisa legal e, melhor do que isso, o Brasil tem desenvolvido uma própria identidade visual nessa área”, destaca.

Em contrapartida, com essa evolução tecnológica na produção dos desenhos, veio também o super-realismo desses filmes. “Nos casos de hoje, o que acontece, é uma obsessão pela tecnologia. O que eles estão buscando é mostrar que a animação pode fazer parecer que tudo aquilo é de verdade. Que o espectador seja enganado, digamos assim. Isso pra mim não é animação, pois está capturando movimentos reais e não tem mais uma criação expressiva de movimentos”, diz Rogério Shaired.

Dificuldades da profissão
“A maior dificuldade na nossa área é conseguir um volume constante de trabalho”, diz Rogério. Em toda profissão há as dificuldades mas, na opinião do diretor, “é preciso ter paciência para acreditar num projeto por tanto tempo”.

O Usinanimada está há dez anos produzindo animação para festivais e em parcerias com outros profissionais. “Em produção de animação existe uma gama enorme de possibilidades e nichos de mercado. Mas acreditamos no trabalho autoral. Se, de repente, estivéssemos fazendo propaganda teríamos esse volume de trabalho constante que o Rogério citou, mas especificamente, o que acreditamos, é criar e produzir coisas nossas. E isso também está melhorando. Embora o caminho que escolhemos seja o mais difícil de se conseguir as coisas”, diz Jon. E ele dá a dica pra quem deseja seguir a carreira do cinema de animação. “Você tem que gostar muito de trabalhar. Todo mundo acha bonitinho quando assiste pela televisão. Mas tem de ter muita dedicação. Acho que é isso”, define.

David Dominowski sente uma carência de profissionais na area de pós–produção em animação. Que é a edição do filme, de efeitos visuais, trilha sonora etc. “Esse setor está surgindo agora. Então, as produtoras brasileiras têm uma carência desses profissionais. O que seria necessário, no caso do Brasil, seria uma capacitação em massa nesse setor, usando tecnologias abertas, gratuitas. Como é o caso do programa Blender”, diz.  

O blender é um programa gratuito de modelagem 3D, que faz animação, renderização de filmes e jogos. “E já existem grandes filmes feitos através do Blender. O último que eles fizeram se chama Sintel”, explica.

Basta começar
As grandes ideias no cinema de animação surgem do nada e algumas se tornam grandes produções. A Triologia de A Era do Gelo, que tem o brasileiro Carlos Saldanha como co-diretor, é um exemplo disso. O filme foi concebido a partir de um pequeno filme do esquilo Scrat. “As ideias vão surgindo, basta começar! Veja o enredo que saiu a partir de um personagem. Essa ‘engenharia reversa’ existe e ela é muito real. Que é quando você cria um personagem e, saindo desse personagem você começa a criar toda uma narrativa, e aquilo acaba virando um piloto pra uma série”, conta Dominowski.

David diz que o que vem acontecendo em diversos festivais é o patrocínio de curta-metragens. E que a idéia é investir em algo que tenha um gancho pra se tornar uma série.  “Na verdade essas pequenas produções se tornam incríveis portas de entrada. Por que não adianta pensar num longa-metragem, dominar esse tipo de narrativa, antes de conseguir contar uma história em poucas frases. Entao, esse passo é natural pra conseguir montar um personagem, criar um curta-metragem e depois um piloto pra uma série mais longa”, finaliza.

O mercado
- Como você vê o cinema de animação em Ribeirão Preto?

Thomate: “Eu acho que está crescendo. Tem mais gente de Ribeirão trabalhando na área. Mas, a meu ver, a maior dificuldade é manter esses profissionais na cidade, pois muitos vão embora”.

Rogério Shaired: “Eu vou ser um pouco mais pessimista. Estamos há dez anos aqui, e eu gostaria de estar vendo outros loucos como nós. Pelo menos uns três estúdios também trabalhando na cidade, mas não tem. Em dez anos como profissional eu não vi nenhum crescimento nessa área em Ribeirão Preto”.

David Dominowski: “Em Ribeirão Preto tem essa galera do Usinanimada, da Baiacu Pictures, o Thomate, que já é pioneira no ramo. E a coisa está acontecendo”.

Revide On-line
Texto: Bruno Silva
Fotos: Carolina Alves

* Publicado em 27/01/2012

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