Muitos nordestinos têm que abandonar a terra natal em busca de um futuro melhor. Infelizmente, quando se caminha em direção às regiões Norte e Nordeste do país, em sentido contrário ao dos grandes centros, maiores são as lacunas na qualidade de vida da população. Uma boa parte dos nordestinos sai ciente que nunca mais voltará: em busca de um futuro melhor, deixam a pobreza e a penúria para trás. Outros levam suas vidas em outras regiões e auxiliam na subsistência dos que lá ficaram. Um número menor, ainda, guarda as carências de seu povo nítidas na memória e sonham em fazer um caminho inverso e amenizar o sofrimento dos conterrâneos sem perspectivas, reféns da própria miséria. Essa foi a escolha de Doreedson Ribeiro Pereira — o Dorinho — hoje empresário agrorural, que todos os anos retorna à Bahia para levar dignidade a pessoas sem assistência.
Dorinho saiu do Povoado Alegre, zona rural do município baiano de Condeúba, tendo muito viva as lembranças de sua terra natal. Em Ribeirão Preto, estudou, cresceu profissionalmente e no ano 2000 percebeu que poderia iniciar um antigo projeto: começou a juntar dinheiro para levar brinquedos às crianças de seu Estado. No segundo ano, acrescentou cestas básicas, até que no quinto ano achou que poderia fazer mais. “Eu mandava uma, duas carretas com doações e percebi que isso não bastava. Decidi, então, mudar a ação para a área da saúde, ajudar aquelas pessoas que não podiam buscar recursos. Convidei o oftalmologista Fábio Vieira e começamos a ir à Bahia, realizar exames, fazer óculos e encaminhar à população. Na terceira visita, já tínhamos pessoal treinado”, ele conta.
Em 2006, 500 pessoas foram atendidas pelo projeto; em 2007, com a mobilização de médicos de outras áreas, o total de atendimentos saltou para 11 mil. Nesse mesmo ano, o empresário sentiu a necessidade de profissionalizar a ação social e foi assim que surgiu a ONG Voluntários do Sertão, que na última visita, entre os dias 4 e 10 de setembro de 2011, reuniu 300 profissionais voluntários para realizar 26.146 atendimentos gratuitos de saúde e de cidadania às populações de Carinhanha e Malhada, cidades às margens do São Francisco, e para comunidades ribeirinha e quilombola de Angico e da Barra do Parateca. Os nordestinos receberam atendimento em 17 especialidades, além de palestras de orientação, kits de higiene pessoal, óculos de grau e todos os medicamentos prescritos nas consultas. Uma equipe de educadores capacitou tecnicamente 500 profissionais da Educação, criando, no local, os multiplicadores da ação.
A ONG conta com 20 voluntários fixos, mas a cada ano atrai mais profissionais dispostos a vestir a camisa e a colaborar com a causa de Dorinho. Nesta última edição do projeto, 1.380 voluntários se inscreveram. A realidade encontrada pelos voluntários no interior baiano é bem diferente da de Ribeirão Preto. “Nessas cidades não têm nada, só o clínico geral, que não dá conta da demanda. Tem hospital, mas não tem equipamento adequado. Muitos casos de cirurgias básicas são encaminhados para outras cidades. A rede de esgoto, importante para a saúde, começou a ser implantada agora. Atendemos em escolas, dividimos as salas de aula em 20 consultórios”, conta o empresário.
No período da visita dos voluntários do Sertão, as cidades vivem exclusivamente em função do projeto, assim como os municípios vizinhos, cuja população se beneficia dos atendimentos. “Levamos 300 voluntários, mas mais de 700 pessoas colaboraram diretamente no projeto. A cidade parou, foram envolvidas todas as escolas, funcionários municipais de lá e de cidades vizinhas. Eles definem a nossa chegada como um sonho, como se alguém passasse e limpasse tudo”, relata Dorinho.
Mas essa experiência não mexe somente com a população desses municípios carentes, mas também com os voluntários que contribuem para mudar o cenário social dessas localidades. “Quem participa do projeto conta que foram suas melhores férias, seu melhor aniversário, a melhor coisa que já fizeram”, comenta Dorinho. No sertão baiano, esses voluntários fizeram história: na praça mais bonita, há uma singela homenagem com o descerramento de uma placa com o nome de cada pessoa que participou da causa e que ajudou a amenizar o sofrimento dos sertanejos. “Foi emocionante. Não poderiam ter feito uma homenagem mais bonita”, conclui, Dorinho.
Atendimento cidadão
Com a iniciativa de 300 profissionais, mais de 26 mil atendimentos foram realizados em Carinhanha e Malhada, às margens do Rio São Francisco, no interior da Bahia, entre dos dias 4 e 10 de setembro, através da caravana da ONG Voluntários do Sertão. Confira os atendimentos realizados:
Dos 26.146 atendimentos realizados pela equipe de saúde, 22.191 foram para a população atendida em Carinhanha, 1792 para a população atendida em Malhada e 2.163 atendimentos foram para a população atendida na Zona Rural em Angico e na Barra do Parateca, comunidades ribeirinha e quilombola.
Foram realizados atendimentos nas áreas de Clínica Médica, Cardiologia, Pediatria, Ginecologia, Dermatologia, Urologia, Psiquiatria, Oftalmologia, Ultrassonografia, Gastroenterologia, Odontologia, Psicologia, Cirurgia Plástica, Cirurgia Geral, Anesteseologia, Enfermagem e Farmácia. Também foram distribuídos kits de higiene pessoal e bucal, óculos de grau e todo o medicamento prescrito para os pacientes atendidos.
Uma equipe de educadores, coordenada pela Professora Heliana da Silva Palocci, fez a capacitação técnica de 500 profissionais da Educação, entre diretores, vice-diretores, professores, coordenadores pedagógicos e técnicos.
A ação conta com o apoio de empresas e do governo. A equipe de voluntários é composta por médicos, dentistas, enfermeiros, psicólogos, pilotos, cozinheiros, motoristas, auxiliares administrativos e populares que foram liderados por especialistas das respectivas áreas. A caravana é composta por caminhões, aviões e vans. A ação só foi possível, este ano, devido à parceria com a Força Aérea Brasileira (FAB), com a Marinha do Brasil e com as empresas Passaredo, GNATUS, ESSILOR, Gota Dourada, Medley, Unimed Ribeirão Preto, Grupo São Lucas Ribeirânia e Coca-Cola.
A ação em números
30 toneladas de produtos transportados.
(equipamentos, suprimentos, bagagens e itens para doações).
Frota terrestre: 14 veículos
5 caminhões
2 carretas
2 ônibus
2 sprinter
2 furgões
1 ambulância
Frota aérea: 12 voos
6 da FAB
1 da Passaredo
5 aeronaves de pequeno porte
300 profissionais:
95 médicos de 13 especialidades
70 profissionais de enfermagem
40 dentistas
14 auxiliares de odontologia
25 psicólogos
15 farmacêuticos
4 capacitadores, especialistas em Educação
25 membros da equipe administrativa e de apoio
12 profissionais da imprensa
Atendimentos em Carinhanha
Clínica Geral 2301
Pediatria 1390
Ginecologia 525
Ultrassom 333
Psiquiatria 159
Psicologia 353
Urologia 373
Gastroenterologia 126
Cardiologia 167
Odontologia 1190
Oftalmologia 3164
Cataratas 664
Dermatologia 277
Neurologia 213
Farmácia 3237
Geriatria 34
Pequenas Cirurgias 93
Endoscopia 37
Enfermagem 7555
Atendimentos em Malhada
Clínica Geral 212
Pediatria 164
Ginecologia 118
Psicologia 147
Odontologia 263
Farmácia 468
Atendimentos na Zona Rural, em Angico e Barra do Parateca
Clínica Geral 311
Pediatria 222
Ginecologia 67
Psicologia 161
Odontologia 136
Farmácia 666
Enfermagem 600
Procedimentos odontológico: 7296
Capacitação e Palestras: 2500
Distribuição de medicamentos 50 mil
Kit Multimistura 1500
Kits shampoo 4500
Kits Odontológicos 3 mil
Óculos 2200
Brinquedos 4 mil
Sapatos 1500
Total da distribuição: 66700
*Veja as fotos do projeto AQUI
Texto: Carla Mimessi
Fotos de Arquivo
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