Com quase 40 anos de dedicação única à Medicina, o imuno-hematologista Júlio César Voltarelli é considerado um dos ícones do meio científico mundial em pesquisa e transplante de células-troco. Natural de São José do Rio Preto, graduou-se pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com residência em Clínica Médica e Hematologia pelo Hospital das Clínicas (HC) da FMRP. Voltarelli especializou-se em Hematologia/Imunologia na FMRP e nos mais conceituados centros de estudos americanos, com a finalidade de alcançar o sonho de curar alguns dos mais de 100 tipos de doenças autoimunes que afetam milhões de pessoas em todo o mundo.
Em março de 2009, o especialista realizou o primeiro transplante alogênico — em que o doador é uma terceira pessoa — de não aparentado, utilizando células de cordão umbilical, no Hospital das Clínicas da FMRP. “A criança, portadora de uma doença fatal, manteve-se muito bem após o procedimento. Depois disso, realizamos outros transplantes com células do cordão umbilical em várias doenças, em geral, com sucesso”, orgulha-se.
Atualmente, Júlio Voltarelli é professor titular do Departamento de Clínica Médica da FMRP-USP, supervisor do Laboratório de Imunogenética (HLA) e da Unidade de Transplante de Medula Óssea do HC do campus ribeirãopretano. Também atua como pesquisador do Centro de Terapia Celular (CTC) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Células-Tronco e Terapia Celular (CNPq), sediado no Centro Regional de Hemoterapia do Hemocentro do HC.
Paralelamente à atividade assistencial, o Hemocentro de Ribeirão Preto, através do CTC, realiza um intenso trabalho de pesquisas relativas às propriedades das células e suas modificações, como sequenciamento de DNA e estudos do genoma, visando à criação de instrumentos de diagnóstico e de tratamento no campo da terapia celular.
Classificada como uma das maiores descobertas e promessas da Medicina moderna, a terapia celular exige cautela, segundo Júlio Voltarelli, pois suas aplicações ainda são bastante limitadas. “Mas, no futuro, suas potencialidades serão concretizadas em muitas doenças”, aposta o pesquisador, que ultimamente vem liderando estudos e realização de transplantes de células-tronco para algumas doenças autoimunes — diabete tipo 1, esclerose múltipla e esclerose sistêmica — e infusão intraocular de células-tronco da medula óssea na retinose pigmentar.
Segundo Voltarelli, para esclerose múltipla e esclerose sistêmica, o Ministério da Saúde prometeu colocar o transplante como uma opção terapêutica ressarcida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) quando outras terapias não funcionarem. “Já o transplante para diabete continua sendo um procedimento experimental, em fase de aperfeiçoamento”, explica o pesquisador. “No caso da esclerose múltipla, temos um novo projeto, que compara o transplante a outras terapias existentes, na fase precoce da doença”, revela. O projeto é realizado em colaboração com a Universidade Northwestern, de Chicago.
Nas pesquisas com diabete tipo 1, a equipe de Voltarelli revelou que o pâncreas com a doença pode voltar a funcionar após transplante de células-tronco do próprio paciente. Os pesquisadores acompanharam 23 voluntários por quase cinco anos e perceberam que o nível do peptídeo-C, indicador da quantidade de insulina produzida pelo corpo, aumentou nos pacientes submetidos à terapia. “Nós tratamos esses pacientes com uma droga usada para diabete do tipo 2 (sitagliptina) e eles melhoraram parcialmente. Agora, estamos aumentado a intensidade da quimioterapia para tentar reduzir o número de recaídas”, acrescenta o pesquisador, que também estuda o tratamento da doença sem o uso de quimioterapia, através de células-tronco mesenquimais — que têm a capacidade de se diferenciar em vários tecidos e, por conta de sua plasticidade, têm sido utilizadas para reparar ou regenerar tecidos danificados, como o ósseo, o cartilaginoso, o hepático, o cardíaco e o neural. “Usamos as células da medula óssea para suprimir o ataque imunológico ao pâncreas e observamos resultados positivos em três de cinco pacientes tratados”, completa. Recentemente, a equipe conseguiu autorização para tratar crianças a partir de cinco anos.
O pesquisador também conduz um estudo, em parceria com oftalmologistas do HC, que poderá recuperar, através do tratamento com células-tronco, a visão de portadores de retinose pigmentar, doença genética que causa degeneração da retina e perda gradual da visão, provocando cegueira irreversível. De acordo com Voltarelli, o estudo inicial foi de segurança, com melhora da função visual de três dos cinco pacientes estudados. “Agora, estamos ampliando o número de pacientes tratados, em fases iniciais da doença, e começaremos um novo projeto com degeneração macular do idoso”, comenta o especialista. A retinose pigmentar é hereditária. A cada cinco mil recém-nascidos, um tem a doença, que aparece até os 20 anos.
Além dos trabalhos com células-tronco, Voltarelli se dedica à literatura. O pesquisador já publicou duas obras, “Imunologia Clínica na Prática Médica” e “Transplante de células-tronco hematopoéticas”, além de artigos científicos e vários capítulos de livros. Em breve, pretende organizar a segunda edição do livro sobre Imunologia Clínica.
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