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A crise nossa de cada dia

Em um momento em que muito se debate sobre a crise externa, diante de um cenário político-econômico em crescente ebulição, o que se observa é uma sobreposição e um distanciamento em relação às crises nossas de todos os dias, estas que, a despeito de nos incomodar e desacomodar, ficam ao largo, embaçadas nos movimentos diários de se ir tocando a vida.

As crises internas - ao mesmo tempo tão familiares e tão estranhas a nós mesmos -, referem-se àqueles momentos de ruptura na vida cotidiana, que uns sentem mais, outros menos, mas que, apesar da singularidade da vivência de cada um, são comuns a todos nós e que se configuram como verdadeiras turbulências que reverberam em todos os aspectos da nossa vida.

Quando a vida “aperta e daí afrouxa, sossega e desinquieta” no movimento próprio do “correr da vida”, como descreve Guimarães Rosa, em seus múltiplos modos de desacomodar alguém, seja por uma situação que possa ser identificada, por exemplo, como a vivência de uma separação ou desilusão amorosa, o sentimento de não conseguir se adaptar, seja nas relações pessoais ou ainda no contexto profissional; ou mesmo quando não se atribui a algo externo as emoções angustiantes vividas intimamente, é que o nosso psiquismo mostra seu funcionamento.

Quem, ao vivenciar situação e/ou emoções desagregadoras, de mudanças e rupturas, nunca sentiu aquele aperto – não se sabe onde, nem se sabe o porquê? Aquela angústia que, diferente de uma doença física, não se localiza em lugar algum? Ou aquele nó na garganta, aquele embargo na voz e no peito, aquele soluço entrecortado... Aquele estado desesperador em que se sente que não há o que se possa fazer? Ou aquela sensação de que, por mais que se tente explicar, não sente que o outro possa compreender e nem sente validadas sua angústia e sua dor?

É nessa situação de crise, de ruptura e mudança, que podem ocorrer movimentos – também internos – em um se encontrar e se desencontrar. Sabe-se que crise pode ter uma conotação negativa, um primeiro passo para desagregação, mas também pode significar um momento crucial que antecede transformações em direção de um crescimento/desenvolvimento.

Talvez o que possa ajudar, nesses momentos de crise, é poder transitar por estados diferentes da mente, às vezes mais áridos, paralisantes, sem saída, desérticos e solitários; outras vezes mais vívidos e criativos. É na vivência dessa crise interna que se pode ter a possibilidade de transformá-la – e também a si mesmo -, e por mais que a vivência pode ser a de se estar sozinho, sua travessia não precisa ser solitária. Aliás, pedir ajuda ao procurar um profissional habilitado não é sinal de fraqueza ou incompetência das próprias habilidades pessoais. A dor/sofrimento emocional/mental sentida(o) e vivida(o) em determinados momentos da vida pode ser mais suportável quando se permite um encontro com o outro, possibilitando que não estejamos sozinhos na própria história vivida, e cuja companhia pode promover uma ressignificação, uma construção de novos significados e sustentação às vivências - muitas vezes desestruturantes - sentidas.

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Ana Flávia de Oliveira
Por Ana Flávia de Oliveira Psicóloga, especializada em Psicologia Clínica e mestre em Psicologia, e-mail: anafolisan@yahoo.com.br
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