Essa tal da resiliência

Essa tal da resiliência


Parece fácil, mas tenho chegado à conclusão de que aprumar-se depois de enfrentar uma crise é uma capacidade de poucos. E ela é tão desejada que levou a resiliência, palavra originada na física, a diversas áreas do conhecimento. Hoje, ela está presente na Administração, no Meio Ambiente e até na Psicologia. Nessa área, remete à capacidade de lidar com a pressão, item intensamente presente no dia a dia das pessoas — pelo menos daquelas expostas, entre outras situações de pressão, a um mercado de trabalho cada dia mais exigente e ágil.

Apesar isso, a impressão que fica é que, ao invés do bambu, por exemplo, que enverga até determinado ponto sem quebrar e recobra sua forma original, nós, seres humanos, nos assemelhamos cada vez mais a tecidos, que se esgarçam com extrema facilidade. Não é fácil encontrar pessoas dispostas a resistir às dificuldades, especialmente mantendo o otimismo e o bom humor, acreditando que tudo vai dar certo. De fato, não dá para achar divertido encarar tempos difíceis. Isso é da condição humana e não poderia ser diferente. Mas quando o mau humor pessoal e o pessimismo extrapolam aquilo que remete ao indivíduo para se tornar coletivo, é hora de começar a se preocupar.

Por experiência própria, posso dizer que nada como a vivência para nos tornar cada dia mais preparados para os momentos de dificuldades. Como empresária há quase 30 anos, vivi vários deles, juntamente com o país inteiro. Foram tantas as quedas e as voltas por cima que esta coluna não seria suficiente para rememorar cada uma delas. Para se ter uma ideia, basta tentar recordar (se você tem mais de 35 anos) quais são os planos econômicos propostos na história recente do país. De uma forma ou de outra, cada um deles representou uma nova postura da população em geral e, em especial, do empresariado.

De qualquer maneira, posso dizer que, diante de cada um desses momentos de crise, apresentam-se duas opções antagônicas: desistir e mudar o rumo da vida ou enfrentar e superá-la — particularmente, para mim, apenas a segunda tem validade. Guiada pela teimosia, encarei cada queda como oportunidade e aproveitei para me transformar, sempre recobrando a forma original. Olhando ao redor, devo dizer, no entanto, que faço parte de um grupo minoritário.

Digo isso porque 2014 não está sendo um ano fácil. Inicialmente, atribuía-se a dificuldade à Copa do Mundo; o campeonato de futebol acabou e a culpa toda recaiu sobre as eleições; o segundo turno está prestes a terminar e ainda não se consegue vislumbrar uma dose de otimismo. Esperamos que ela chegue com o clima de final de ano, que se aproxima cada dia mais rápido.

O que acontece com o país apenas serve para ilustrar o que quero dizer: estamos sempre em busca de explicar o pessimismo, ressaltar o mau humor, justificar o erro. A mesma energia colocada nessas missões inglórias poderia ser utilizada no sentido oposto: argumentar em favor da solução, frisar o bom humor, acreditar na virada de jogo.

A meu ver, é preciso vencer uma contradição: se os brasileiros atribuem a si mesmos a capacidade de não desistirem nunca, por que não fazer isso com otimismo? Deixar o discurso de lado e partir para a ação é a única maneira de atingir esse objetivo.

Isabel de Farias
Secretária de Infraestrutura e Coordenadora da Limpeza Urbana de Ribeirão Preto

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