A poesia pode nos salvar,

A poesia pode nos salvar

Sempre gostei muito de poesia. Na minha adolescência, tive uma melhor amiga que sempre me apresentava uma poesia inédita e que vibrava quando conhecia um novo autor.  Assim, através dos olhos dela e daquele entusiasmo e amor pelas palavras foi despertando em mim o mesmo apreço pela poesia. Para esta última publicação impressa do ano, depois de termos produzido até esta 48 edições da Revide semanal (sendo 20 edições no formato impresso e 24 no digital) e mais duas edições especiais para clientes (uma revista para a Nova Benê e outra para o Grupo Conecta Business), achei que poderia falar de poesia.
Dias atrás eu me deparei com a poesia do Carlos Drummond de Andrade de 1940, pouco antes da Segunda Guerra Mundial. O poema “Os ombros suportam o mundo” já tem mais de 80 anos e parece que foi escrito este ano.

Chega um tempo em que
não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos
resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice,
que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão
de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões
dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não
adianta morrer.
Chegou um tempo em que a
vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

O poema fala de desesperança, da falta de amor, da solidão de como nos colocamos no mundo. Essa desumanidade diante da dor alheia perpassa o poema e mesmo parecendo que o poeta fala só de sofrimento e torpor diante daquele momento de guerra, ele é tão atual quando nos convida a uma crítica ao momento vivido e não a uma valorização desse sentimento de desamparo, tão familiar nos dias atuais. Para não ficarmos com esse sentimento de que não há esperança para tempos tão carregados de dor, de tristeza, o melhor mesmo é falar sobre amar. Outra poesia do poeta mineiro que tanto soube falar sobre o amor.

Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que,
na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor,
ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista
em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma
completa ingratidão,
e na concha vazia do amor
a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

É urgente entender e aceitar que somos seres sociais e que é no olhar do outro que nos descobrimos.  É somente na relação com outro que podemos fazer valer a dimensão do amor, que compreendemos que somos capazes de amar e desamar infinitamente. Só assim poderemos começar algo novo, se entendermos que o ir e o vir dos sentimentos amorosos é o que nos torna capazes de entender o mistério dessa vida perecível, cíclica e mutável, por isso sempre possível ter esperança e renovar a fé na vida. 

Compartilhar:




Blog Reflexões do Cotidiano

Isabel de Farias
Por Isabel de Farias Jornalista e empresária, e-mail:[email protected]
Ver todas as postagens de Isabel de Farias