A criança marcada pelo desejo do Outro
Evelyn Albuquerque
Para o historiador Philippe Ariès (1973), a compreensão da criança enquanto ser em desenvolvimento, necessitado de cuidados, proteção e investimento, nem sempre foi algo vigente, sendo uma descoberta da modernidade. O autor elucida que, na antiga sociedade, o termo criança era revestido de outros significados sociais, ocupando outra posição no funcionamento familiar. Ele apresenta a nomeação: criança, enquanto um produto das transformações sociais e culturais, que atravessa a lente histórica para abarcar em si seu significado. E é a partir deste olhar não-natural da terminologia que é possível visualizar as marcas históricas carregadas pelo termo.
Retomando o pacto social da época medieval e a posição de crianças dentro desse modo de organização e cultura, vemos a criança em uma posição objetal, sendo endereçada e encaminhada conforme os desejos destes adultos, com uma infância não demarcada ou existente. Ariès (1973, p. 10), fala sobre não haver essa concepção de infância como parte de um processo de constituição e maturação, e que, por essa ausência de nomeação e entendimento, a infância se resumia a um período inicial, onde o infant se mostrava mais frágil e não conseguia bastar-se, mas que, tão logo adquiria algum desembaraço físico, era posta no meio do mundo dos adultos, misturada a eles, partilhando dos mesmos trabalhos e jogos. O historiador demarca que, com a substituição da aprendizagem nas trocas de casa e vivência em outros núcleos familiares, para um ensino formal escolar, o apego e afeto familiar também sofrem modificações significativas para a construção da compreensão que temos hoje. Por este marco, ele diz que a “aprendizagem pela escola exprime também uma aproximação da família e das crianças, do sentimento da família e do sentimento da infância, outrora separados. A família concentrou-se em torno da criança” (Ariès, 1973, p. 232), retirando assim as crianças desse lugar de anonimato e substituição.
Na nossa configuração social, o lugar da criança há muito foi discutido em espaços acadêmicos, midiáticos, educacionais e legislativos, questionando qual seria o papel das crianças na sociedade, e o dos adultos perante sua existência. Com este debate em vigência, é criado, em 1990, um Estatuto da Criança e do Adolescente, que estabelece os direitos e garantias destes, agora reconhecidos como, sujeitos de direitos. No art. 4°, é proposto como dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público – várias instâncias que deveriam atuar como protetoras, assegurar, com prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, alimentação, saúde, dignidade, respeito, lazer, etc. destas crianças. E, por tal concepção e importância, como este estatuto voga um novo posicionamento, inclusive com demarcação etária, sobre a infância e adolescência enquanto fases do desenvolvimento que precisam ser garantidas por todos os sujeitos de uma sociedade.
Na psicanálise essa concepção da criança se diverge do infantil, algo que em outros contextos pode ser visto para além de uma similaridade, mas com codependência. O infantil designa-se psicanaliticamente como: aquilo que não se desenvolveu, restou assim como é. Isso demarca a presença do infantil como uma marca transcendental a tempo específico na vida do sujeito, restos de uma fixação estruturada na infância que percorre com seus sentidos por outros momentos da vida do sujeito. E, portanto, o que a psicanálise nomeia enquanto criança seria essa posição subjetiva em constituição, implicada nas formações de seu inconsciente e atravessada pelo desejo do Outro, como escreve Lacan (1995), a criança fica concatenada a uma posição objetal, causa de desejo nesse seio familiar: “A criança aparece como aquilo que vem ocupar o lugar do que falta no desejo do Outro.” (p. 209). E, rememorando Àries, uma família que se forma e circula em torno desta criança. No entremeio de tantos conceitos e designações, há uma hiância entre o saber teorizado e o empírico, a forma cultural que abastece os atos e jeitos de lidar e posicionar essa criança em um mundo do qual ainda não está, por si só, inserida.
Recentemente, há um incisivo e massivo aumento da medicalização das crianças. Movimento esse, que pode ser lido e compreendido de muitas maneiras, mas que repete o caráter de silenciamento de um período constitutivo, semelhante em seu desdobramento, ao que foi visto na sociedade medieval. A medicalização é vista enquanto um movimento de tratar problemas de maior complexidade, que envolvem outras questões para além do corpo, como algo apenas biológico, visto apenas como uma resposta química (Voltolini, 2024). Discussão essa que se expande para além dos consultórios médicos, redes sociais e rodas de pais, mas que se mostra conectada a um aumento da psicologização da educação, com rastreios desses sinais e sintomas descritos em manuais médicos, como um bingo a ser preenchido dentro destas escolas, cujo presente seria um medicamento para apaziguar os anseios, amortizar a palavra e destituir as pulsões de uma vazão.
Outro movimento em alta, que exemplifica os ferimentos dos direitos das crianças e adolescentes, seria o da adultização em plataformas sociais on-line. Problemática que explode na internet, a partir de denúncias, e que formula uma pauta de discussão sobre a criação desses conteúdos, os responsáveis por isso, os desdobramentos dessa vivência e exposição no psiquismo, bem como de que maneiras aplicar medidas de proteção a essas crianças e punição aos consumidores desse tipo de conteúdo. O que levanta questões técnicas de como seria realizado o rastreio, as nuances de detecção, bem como a punição apropriada pelo olhar social e legislativo. Estes dois recortes exemplificam como a criança permanece posicionada, socialmente, enquanto objeto, enquanto coisa a ser maquiada, maquinada e consumida. E, é claro, que poderíamos adentrar em uma minuciosa análise sociológica e discursiva sobre a propagação destes sentidos, bem como suas formações discursivas neoliberais. Mas, o que cabe a essa crítica, seria posicionar o papel da análise com crianças e adolescentes enquanto possibilidade de proteção destes sujeitos.
Tendo em vista que: “A psicanálise de crianças implica uma operação simbólica: trata-se de restituir à criança a possibilidade de ser sujeito, e não objeto do saber do Outro.” (Flesler, 2012, p. 18), há um importante trabalho a ser realizado para escuta e nomeação desses diversos sentidos que atravessam a constituição psíquica desses sujeitos. Voltolini (2024) fala sobre a operação de nomear ser encadeada pela simbolização, que faz referência discursivamente a diversos sentidos, esses outros, produzidos e reproduzidos. Por isso, o nomear traz bagagem. A psicanálise e o tratamento com a criança ocupariam esse lugar de abertura para circulação desses sentidos colocados pelo Outro, lhes propiciando novas palavras para dizer sobre a dor. Há uma ressignificação acerca daquilo, uma suplência, contorno, mas principalmente, um olhar e escuta atentos ao que aquele sujeito, em todo seu funcionamento e produções, quer dizer e por vezes é silenciado, Patti (2025).
REFERÊNCIAS
ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1973.
BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente: Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 16 jul. 1990.
FLESLER, Alba. A psicanálise de crianças e o lugar dos pais. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 4: A relação de objeto (1956-1957). Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
VOLTOLINI, Rinaldo. Psicanálise e a Medicalização na Infância. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/live/SAir7aa5l5k?si=_qK2t-pNP9V9GQrW. Acessado em: 10 de out. 2025.
PATTI, Elci Ribeiro. A criança no Discurso Social. Portal ESPE, 2025. Disponível em: https://app.institutoespe.com.br/curso/4701/aula-1-a-crianca-no-discurso-social-2504/36f48a19-f5f9-4d16-99d0-8a8c8a4c9d97. Acesso em: 25 de abr. 2025.