A Letra no Inconsciente
Evelyn Albuquerque
É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que digo.
Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem.
A constituição da teoria psicanalítica, desde a publicação de Freud e Breuer nos Estudos sobre a Histeria (1884), inicia-se com a palavra, sua forma-ação de talking cure que mediam os processos para o tratamento anímico. O falar livre na presença do médico que possibilita a eliminação dos sintomas patológicos. Este aspecto, visto por Freud no início dos tratamentos para histeria e neuroses, com o uso da hipnose, é fundamento para elaboração de nortes da prática analítica. Ainda que percebida a não necessidade do recurso hipnótico para fazer os pacientes falarem, esta acepção do dizer como meio de transformar sintomas direciona o que se precisa dos analisantes para seu tratamento, evidenciado como premissa basilar da prática por parte do analisando, o associar livremente. Este giro teórico dá ramificação para o crescimento dos estudos sobre o que nos habita.
Não há como desvencilhar o sujeito psicanalítico, seu instrumento de cura e sua transmissão teórica para longe da magia do falar. “E como não haveria até mesmo um psicanalista de hoje de sentir que chegou a isso, a tocar na fala, quando sua experiência recebe dela seu instrumento, seu enquadre, seu material e até o ruído de fundo de suas incertezas?” (Lacan, 2008, p. 497) O tratamento analítico consistirá nesse afetar transformador da palavra, por meio dela e por ela. É comum, em meios leigos, o espantamento inicial com uma proposta deste patamar, a de dar poder às palavras. Espantosamente, na realidade contemporânea, é visto o naufrágio dos sentidos transformadores que antes recebiam a palavra, este lugar perdido, o escamoteio de suas possibilidades de amparar o advir de um algo outro. “As palavras eram originalmente encantamentos e ainda hoje conservam muito de seu poder antigo” (Freud, 1901, p. 22), para aqueles que se sensibilizam, despidos frente à sua própria palavra crua.
E, por tanto espaço que ocupa, e se posso colocar e transmitir isso, é por meio dela, da palavra. O ser aqui do ser humano só é possibilitado pelo advento da linguagem e por sua intrínseca marca em corpo vivo. Mas, antes de ensaiar o detalhe moroso sobre o corpo da língua na psicanálise, cabe antes delimitar a que sentido de sujeito este texto se norteia. O sujeito, do latim subjectum diz de um ser assujeitado e submetido (Houaiss, 2001), que, por sua vez, traduz o termo hupokeinenon, visto em Aristóteles e dado como um algo que jaz ao fundo (Kupfer, 2010). Este termo apresenta um campo do subjacente, submergido, que está em quase-repouso, necessitando da evocação da palavra para mostrar-se. Kupfer (2010) melhor explicita, pois não é a quaisquer provocações que se manifesta; precisa da palavra na reciprocidade, no intervalo do dois, entre, da troca, movimento para o falar existir. O Eu instaurado por Freud habita uma exploração do sujeito psicanalítico, que não é mestre de sua própria casa, um sujeito que decai pela paulatina apreensão da realidade inconsciente, dividido, recalcado.
Sujeito este que, no desdobrar das influências estruturalistas, da releitura freudiana e da necessidade de torção aos caminhos do naturalismo epistemológico em vigência na década de 50, é visto como sujeito-efeito do discurso e linguagem estruturadas, sujeito que articula os determinantes socioculturais e pulsionais (Kupfer, 2010), afirmação esta que implica no retorno ao assujeitamento hupokneinon aristotélico, decentrado e pulsional freudiano, que dão base ao sujeito causado pelo discurso, inscrito em linguagem pelo grande Outro, sujeito lacaniano que se mostra na lacuna de um significante e outro, dependente da palavra para dizer-se, para capturar simbolicamente sua existência.
O sujeito do inconsciente foi formulado por Lacan como um lugar, uma por esse Eu que suporta essa subjetividade. Não designa, portanto, nenhuma função que, ao se revelar à revelia do Eu, denuncia um desejo desconhecido, personalidade ou um ser. O sujeito do inconsciente resulta do funcionamento e da incidência de discursos sociais e históricos sobre a carne do ser. O conjunto de discursos sociais e históricos, tornados não anônimos porque sustentados pelos outros parentais, e organizados por referências pautadas pelo desejo, ganha na teoria lacaniana o nome de Outro. Esse Outro é propriamente a estrutura da qual a criança pequena deverá extrair a argamassa e os tijolos com os quais construirá a sua subjetividade. (Kupfer, 2010, p. 270)
A tese de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, do ponto de vista epistemológico, é posta como um novo modelo de materialidade para o inconsciente enquanto objeto da psicanálise, possibilitando um formato à trama que faz esse sujeito emergir. Então é colocado o inconsciente como a causalidade da vontade e física ligada à linguagem, trabalho dado ao tecer sentidos atrelados no discurso entre um significante e outro, na lacuna deles, nestes registros interiorizados do ser falado por outro. O inconsciente (Das Unbewusste - não sabido) freudiano é lido por Lacan pela concepção de falta, ordem do ato (ato-falho, sonho, chiste), que se mostra e produz: “Para além dessa fala, é toda a estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente.” (Lacan, 2008, p. 498).
Após nosso percurso pela inscrição da linguagem estrutural no sujeito do inconsciente, é cabível nos deter no sentido dessa letra marcada nele. Lacan (2008) designa por letra o suporte material que este discurso irá tomar da linguagem para concretizar-se, de modo a garantir que a linguagem não seja confundida com outras diversas funções presentes no aparelho psíquico que a desservem. Ele bordeia, em seu texto A Instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud, este sujeito que se aparenta como um servo da linguagem, cujo lugar está inscrito ali desde seu nascimento, sendo desejado por outro, que o nomeia. Como já percorrido acima, a passagem de constituição de um sujeito encontra-se nos entrames da linguagem, em sua abertura a ela. Abre-se a fenda que insere em si essas estruturas elementares da cultura, dando material a este ser para se constituir. Os eixos ordenadores para sua possibilidade de troca entre seus pares, de aparato para suas concepções, uma forma para o dizer que contorna em si seus objetos. É visível a palavra do outro que ecoa em mim. Lacan, neste mesmo texto, denota o algoritmo representativo ao significante sobre significado, com a barra que os separa, assim redigido o atravessamento da palavra no sujeito e sua rede de significantes. “Presentificam validamente aquilo que chamamos de letra, ou seja, a estrutura essencialmente localizada do significante.” (p. 505), papel de vivificar o espírito, de propiciar deslizamento, transposição sempre em ação inconsciente.
Se há letra, há historicidade constitutiva e um Outro que me fala antes mesmo do aparelho da linguagem em mim funcionar, e, nesta dança de troca dos pares e posições, se fabrica o fio para lógica lacunar, do um-a-um, cria-se todo um universo anelado, um enodamento estrutural que prediz o sujeito, até que se produza giro, (trans)forma(ção), e dentro desse texto, do tecer o destecer do saber, é tocado no possível de surgir, como disse Freud: Wo Es war, soll Ich werden, lá onde isso foi, ali devo advir.
Sua presença só pode ser compreendida num grau secundário da alteridade, que já o situa, a ele mesmo, numa posição de mediação em relação ao meu próprio desdobramento de mim comigo mesmo, como também com o semelhante. Se eu disse que o inconsciente é o discurso do Outro com maiúscula, foi para apontar o para-além em que se ata o reconhecimento do desejo ao desejo de reconhecimento (Lacan, 2008, p. 529).
Em suma, o esforço de que, por este caminho conduzido a muitas mãos e letras, haja vislumbre para as fronteiras demarcadas pela letra deste inconsciente e das produções deslizantes, do sintoma, da falta constituinte que vira mirante para observar a possibilidade do algo outro, que também nos encontre ali. Da palavra, letra, discurso, fala, da marca presente, deslize a cantos remotos da teoria, prática e clínica, que nos afetam nessa extensa trajetória do que não se inscreve, que é contornado. Falta-do-ser a passagem do Vir-a-Ser.
REFERÊNCIAS
BARROSO, A. F. Sobre a concepção de sujeito em Freud e Lacan. Barbaroi, Santa Cruz do Sul, n.36, p.149-159, jun. 2012. Disponível em:
<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010465782012000100009&ln g=pt&nrm=iso>. Acessado em 15 jun. 2025.
KUPFER, M. C. O sujeito na Psicanálise e na Educação: bases para educação terapêutica.
Educação e Realidade, v.35 (1), p. 265-281, abr. 2010.
LACAN, J. Escritos: A instância da letra no inconsciente ou a razão desde de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
STARNINO, A. O inconsciente estruturado como uma linguagem. 2025. Disponível em: https://app.institutoespe.com.br/curso/4701/o-inconsciente-estruturado-como-uma- linguagem140171825/8d7206a0-8d94-4554-ba6c-6592b5c47fce. Acessado em: 26 de jun. 2025.