A CONSTITUIÇÃO DE UM PESQUISADOR: breve relato de uma trajetória (im)possível,Pesquisador, constituição, narrativa

A CONSTITUIÇÃO DE UM PESQUISADOR: breve relato de uma trajetória (im)possível

Profa. Ma. Josiane Bartholomeu

 

A obra em destaque fez-me refletir sobre a constituição do indivíduo como sujeito, tragou-me, fazendo retroceder pelo túnel de minha história de vida, sobre a minha “gestação” como pesquisadora, posição que nunca pensei ocupar, era sonho, utopia. Então, peço licença para falar de mim, sem disfarçar-me, assumindo-me.

A pesquisa era um sonho que se pensava impalpável, inatingível por mim como sujeito que vivia/vive às margens da sociedade, lugar no qual podia apenas me imaginar fazendo, imaginar comprando, imaginar possuindo. Era costurada a esse sonho a impossibilidade de alcançá-lo – materializado em discursos outros e dos outros – por isso, sonhava, devaneava com o impossível. Sorte que podíamos e podemos sonhar. Trago uma reflexão de Assolini (2017), que ilustra esse sentimento de busca, de algo que poderia – ilusoriamente –proporcionar-me a completude: O que parece ser a busca de um objeto é a nossa busca pelo preenchimento de uma falta; marchamos prospectivamente ao infinito do desejo. Não há satisfação que não abra, inexoravelmente, o campo de uma insatisfação. O prazer nunca é definitivo, já que reabre o circuito imediatamente: o aspecto metonímico do desejo está sempre presente.

Sonho buscado, desejado mesmo debaixo de sol forte ou de chuva que era sempre bem-vinda, sonhado na exaustão e apoiado no cabo da enxada, ou na ponta da agulha que levava a linha dando forma e sentido à peça a ser confeccionada. Retalhos importantes da minha vida, pois me levaram a compreender que as dores e suores do corpo alimentaram e alimentam os meus devaneios, fazendo com que se tornassem possibilidades, que viessem a ser uma materialidade. Com isso, tomo por transformar uma frase já dita e conhecida, que gira em torno de verdade e mentira, tramando outra que se revestiu de norte: “um sonho sonhado mil vezes, torna-se realidade”.

Nessa linha que se costura dando visibilidade aos pontos e falhas da vida, temos a sorte de encontrarmos sujeitos cujas mãos, movidas pelo coração, transfazem pedaços de retalhos, juntam-nos, transformando-os em colchas fortes e resistentes e, a cada ponto dado nesse bordado, reverbera doação, atenção, cuidado.

Vejo-me como a colcha representada na obra acima, sujeito constituído de vários retalhos, costurados por várias mãos, que nunca será finalizado, pois somos seres em processo. Cada retalho representa uma fase da vida, difícil ou fácil, doce ou amarga, feliz ou triste que deve ser costurado, caseado um ao outro, pois é por meio deles que nos constituímos, que se dá nossa singularidade, dá essência ao que somos. Mas, o que torna as fronteiras entre um retalho e outro resistentes são as pessoas que nos ajudam a combinar os matizes e a costurar cada fase-retalho, mostrando-nos e ensinando-nos que a nossa maior riqueza está na forma como somos constituídos: por acontecimentos e pessoas.

Nós, assim como a escrita e a costura, temos o privilégio do retrocesso, podemos nos refazer, tornarmo-nos melhores (ou piores), voltar ao que éramos, mas ressignificados no que fomos, ou buscar o é. Essa característica camaleônica é devida a várias(os) costureiras(os) que participaram de nossa confecção, aos Outros que nos constituem, como diz Lacan, e aos Outros que constituem os Outros que nos atravessam. Dessa forma, somos uma colcha de retalhos – inacabada – na qual cada sujeito que passou, que passa e que passará em nossa vida, deixou e deixará marcas, profundas ou rasas, dolorosas ou vitoriosas, tornando-se aquelas cicatrizes que têm como função lembrar-nos do que somos constituídos.

Meus retalhos – como boia fria na cana, como empregada doméstica, como costureira industrial, como estudante universitária, como professora, como coordenadora pedagógica, como estudante de pós-graduação –fazem-me ser como aquele que se lança na vida sem medo do fracasso, na qual os erros não aferem competência, pelo contrário, ajudam a encará-los e buscar alternativas para melhorar. Ajudam-me a transformar um não em revisão de prioridades até se chegar ao sim. Aprendi com meus retalhos que é melhor sermos mutantes do que aquele que espera, estático, as (trans)formações da vida, transformações que não chegarão se não houver deslocamentos. Devemos ser costura e escrita, que mesmo cheios de retrocessos, seguimos nos (re)construindo, nos (re)fazendo, nos metamorfoseando.

A partir desse sonho realizado, já almejo outro, pois temos a felicidade de sermos sujeitos da falta, sempre desejantes em busca por uma completude ilusória. Nessa minha busca, sempre acreditei que pudesse preencher o vazio que sentia, tanto no aspecto pessoal, quanto profissional. Descobri que nunca preencherei essa falta, pois, como afirma Lacan, “Somos sujeitos faltantes”. E foi essa busca, a vontade de completar o impossível que me levou ao encontro da pesquisa: do mestrado e, agora, doutorado.

Não devemos parar de sonhar, não devemos elencar as pedras no caminho, mas, fazê-las pertencentes da trajetória. O que fui deu corpo e materialidade ao que sou, uma pesquisadora, coordenadora pedagógica, professora universitária, mãe, esposa e filha. Um sujeito que acredita que tudo vale a pena, que somos sempre aprendentes e que concorda severamente com Cora Coralina: O tempo é o mestre da vida!

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Elaine Assolini
Por Elaine Assolini Pedagoga, linguista, pesquisadora, e-mail:[email protected]
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