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EDUCAÇÃO BILÍNGUE E A PROFICIÊNCIA NA LÍNGUA INGLESA

 

Natalia Celestina de Assis

Julia Garcia Chrispolim

Elaine Assolini

 

Conhecida como a língua internacional das viagens, dos negócios, dos estudos e da comunicação, a língua inglesa tem uma importância notória, pois está presente em várias linguagens, como na programação e em toda a internet. Em uma era em que a economia praticamente gira em torno das tecnologias e o fato de estarmos tão imersos nela, a compreensão mínima do inglês não é mais apenas um diferencial, mas se tornou um fator de exclusão. 

Muitas são as vantagens de se aprender uma segunda língua, que vão além dos benefícios sociais. Um estudo da Cambridge University Press, publicado em 2015 e intitulado “Bilingualism delays clinical manifestation of Alzheimer‘s disease”, demonstrou que a característica bilingue de um cérebro atrasa a manifestação clínica do Alzheimer.

Assim, neste artigo, serão analisados temas como o programa de Educação Bilíngue presente em escolas, a dupla alfabetização, a proficiência da língua na Universidade e seus fatores de exclusão.   

Aprendizado da língua nos anos iniciais - dupla alfabetização

 

O que, afinal, envolve uma educação bilíngue?

Por exemplo, para Molyneux, educação bilíngue é uma educação que dê suporte à habilidade do aluno de realizar funções comunicativas e acadêmicas, envolvendo a leitura, escrita, produção oral e compreensão oral nas duas línguas [...]. (BOLSAN, 2014, p. 3).

 

Contudo, ainda é se questiona se aprender dois idiomas, ao mesmo tempo, não seria maléfico para o processo pedagógico e o desenvolvimento infantil, como apontado no texto de Teodoro e Araújo (2019), pois estudos da década de 60 diziam que o segundo idioma poderia impactar negativamente a aquisição da língua materna, além de exigir demais do cérebro e influir sobre o quociente intelectual (QI).

A partir dos estudos de Peal e Lambert, publicados em 1962, a discussão em torno desse tópico começou a mudar. Sua pesquisa envolveu dez crianças de Montreal, que no contexto escolar passaram por testes de avaliação de inteligência verbal e não verbal. As que falavam francês e inglês tiveram melhores resultados, em comparação às que apenas sabiam a língua francófona.

Foi-se descobrindo, então, ao longo dos anos, o que a aquisição de uma língua estrangeira traria para o desenvolvimento humano (sobretudo infantil). Além de atuar sobre o cognitivo, a expressão pessoal e habilidades sociais acompanham a criança nesse processo. Podemos elencar, por exemplo, o “[...] relacionamento   com   pais,   família   e   amigos;    comunicação   com   pessoas   de   outras nacionalidades  e  etnias;  sensibilidade  para  línguas  e  comunicação;  maior  conhecimento cultural e com isso maior visão de mundo, entre outros.” (NOBRE; HODGES, 2010, p. 182).

Além do que já foi citado no presente texto, não se poderia esquecer do aumento do repertório cultural que o indivíduo agrega. Principalmente pelo método de imersão, o aluno vivencia outros hábitos, costumes e tradições, incorporando-os às suas origens, fazendo-lhe pertencente a mais de um lugar. Já temos, inclusive, algumas práticas estrangeiras cristalizadas na cultura brasileira, como o Halloween; em contrapartida, outras festividades começam a ganhar maior notoriedade, como é o caso do Thanksgiving (Dia de Ação de Graças), e o 4th of July (Dia da Independência Americana).

 A popularidade da implementação de programas de ensino bilíngue tem crescido, nos últimos anos, em diversas escolas particulares. No entanto, apenas a oferta de uma carga horária estendida de outro idioma não se caracteriza como Educação Bilíngue. Para regulamentar quais instituições de fato oferecem esse tipo de ensino, foram aprovados projetos com diretrizes a serem contempladas no currículo em âmbito nacional. Em uma publicação online do jornal O Globo, de 2020, a repórter Priscilla Aguiar Litwak escreve:

 

De acordo com a deliberação, a escola bilíngue deve ofertar o ensino equilibrado da língua portuguesa e da língua adicional no cotidiano escolar (...) é necessário um percentual mínimo de tempo de instrução na língua adicional, que varia entre 20% e 50% das atividades curriculares (...). Na educação infantil e fundamental, o tempo de instrução na língua adicional deve abranger, no mínimo, 30% e, no máximo, 50% das atividades curriculares. No ensino médio, o mínimo exigido cai para 20% (LITWAK, 2020, n.p).

 

As Escolas Bilíngues diferem das Internacionais que seguem o calendário do país falante da Língua Inglesa: o currículo dividido entre português e inglês pode variar de acordo com a escola, porém ele continuará seguindo obrigatoriamente a Base Nacional Comum Curricular brasileira. A escolha de quais disciplinas serão ofertadas em cada idioma depende da escola, de forma que:   

A própria expressão educação bilíngue tem sido usada de maneira abrangente para caracterizar diferentes formas de ensino nas quais os alunos recebem instrução (ou parte da instrução) numa língua diferente daquela que normalmente eles usam em casa. Vários são os modelos e tipos de educação bilíngue. Eles, porém, diferem quanto aos objetivos, às características dos alunos participantes, à distribuição do tempo de instrução nas línguas envolvidas, às abordagens e práticas pedagógicas, entre outros aspectos do uso das línguas e do contexto em que estão inseridos. (MELLO, 2010, p. 120)

 

Assim, a dupla alfabetização nos anos iniciais pode acontecer de forma natural, pois essa é uma fase no desenvolvimento da criança em que ela adquire a linguagem, tornando o aprendizado de duas línguas, simultaneamente, possível. Portanto, quanto mais precocemente uma criança é exposta à outra língua, mais fácil será seu aprendizado e mais tempo ela terá para desenvolvê-la.

Este processo de aquisição de linguagem é tão natural que não é necessário nenhum processo de input, (...) O processo de aquisição da linguagem de uma criança se dá por meio da língua que lhe é falada, sendo assim, a criança se torna compreensiva daquilo que ouve, estruturando mentalmente tudo aquilo que foi dito. A criança possui a mesma capacidade de aprender mais de uma língua em seu processo de aquisição, de uma forma que seja tão natural que para ela, duas línguas sejam uma só, com o mesmo nível de compreensão, entendimento e significado, não sendo uma criança monolíngue, mas uma criança bilíngue. (TEODORO; ARAÚJO, 2019, p. 18 )

 

Explorando isso, as escolas bilíngues, de maior prestígio, cobram valores altíssimos em suas mensalidades, que variam de R$4 mil a R$10 mil. Segundo a publicação do site da Revista Forbes, de novembro de 2020, escrita por Beatriz Calais, Juliana Andrade e Sofia Aguiar, o colégio bilíngue multicultural Aubrick, em São Paulo, reajustou a mensalidade em 2021 para R$4.850 para o Ensino Fundamental. A Escola Concept de São Paulo, que também oferece currículo bilíngue integral, tem uma mensalidade de Ensino Fundamental (1º ao 8º ano) de R$9.323, incluindo alimentação e outros serviços. Esses valores são semelhantes a outras instituições de mesmo nome, espalhadas pelo país, que atendem a uma elite financeira.

A proficiência da língua na Universidade e possíveis fatores de exclusão

 

Conforme posto em uma publicação online do jornal El País, edição Brasil, escrita por Juan Miguel Hernández Bonilla em julho de 2021, “do total de artigos publicados em revistas científicas em 2020, 95% foram escritos em inglês, somente 1% em espanhol e português.” (BONILLA, 2021, n.p). Esse número é muito expressivo, uma vez que para se ter acesso à ciência e a novos estudos são necessários não somente a leitura, mas também compreensão profunda do que está apresentado na outra língua.

Além disso, para um pesquisador conseguir publicar seus estudos nas melhores revistas, reconhecidas internacionalmente, os artigos também deverão obrigatoriamente estar escritos em inglês. Existem trabalhos de tradução excelentes, mas ainda assim, se o estudante pretende alcançar níveis acadêmicos avançados, obrigatoriamente se faz necessário ter o domínio da língua. A própria pós-graduação exige que se saiba uma língua estrangeira para ingressar. O candidato tem três opções: inglês, espanhol e francês; no entanto, a predominância do inglês no dia a dia, dentro do próprio contexto acadêmico, acaba por torná-lo destaque.

Os programas de intercâmbio, as oportunidades de mestrado, doutorado, pós-doutorado, entre outros, oferecidos fora do país, exigem o exame de proficiência na língua inglesa, preferencialmente o TOEFL IBT, que tem um custo de US$215. Com a cotação do dólar a aproximadamente R$5,70, essa é uma prova que provavelmente exigirá um investimento de cerca de R$1.200.

As bolsas de intercâmbio de seis meses para a Europa, oferecidas nas universidades públicas, também podem ter como pré-requisito outro idioma, como o espanhol ou o francês. Isso ajuda a evidenciar a distância social entre os alunos inseridos no mesmo contexto, uma vez que só o inglês não é suficiente. De um lado estão aqueles que dominam duas línguas ou mais, potencializando seu Capital Cultural; em contrapartida, existem os estudantes desprivilegiados que dificilmente estão qualificados para competir nos programas de bolsas “As mudanças no mundo atual têm apresentado novos incentivos para o aprendizado de uma segunda língua, já que as línguas podem ser vistas como uma forma de capital cultural ou simbólico”. (BOLZAN, 2014, p. 1).

Atualmente, a média cobrada de uma hora de aula particular de inglês gira em torno de R$50. Algumas iniciativas de grupos ou instituições públicas oferecem aulas gratuitas de alguns idiomas ou mensalidades mais acessíveis; porém, apenas uma minoria continua sendo atendida. A fluência em outro idioma é um processo que pode levar anos, então muitos desistem no caminho.

Em escolas públicas e particulares as disciplinas de inglês são obrigatórias, mas dificilmente apresentam resultados, conforme escreve Ana Letícia Souza Garcia: 

 

(...) na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (...) somente a partir do 6º ano do Ensino Fundamental é que as unidades temáticas e objetos de conhecimento para a o ensino de inglês são descritos. Apesar de começar relativamente cedo, poucos resultados são percebidos (por fatores como falta de incentivo da família, falta de recursos didáticos, números elevados de crianças por sala, entre outros) e, geralmente, os/as alunos/as no ensino público e privado não conseguem atingir proficiência na língua inglesa. Portanto, para garantir que seus/suas filhos/as aprendam inglês, os pais de classe média e alta os/as matriculam em cursos de idiomas ou em escolas de educação bilíngue de elite. (GARCIA, 2020, p. 20)

 

CONCLUSÃO

Inúmeros são os estudos que revelam os benefícios de falar um segundo idioma, que vão para além do social ou de seus privilégios intrínsecos. As vantagens para o cérebro são objeto de pesquisas no mundo todo. Além do já citado estudo de Cambridge, podemos apontar mais um, realizado por Ellen Bialystok, psicolinguista da Universidade de York. Ela estudou indivíduos propensos ao Alzheimer e observou um retardamento dos sintomas naqueles que eram bilíngues. Essa e outras modificações cerebrais têm ligação com o aumento de massa cinzenta.

A divulgação de tantos estudos nas áreas de neurociência, linguística, psicologia, desenvolvimento cognitivo, entre outras, tem ajudado a aumentar a procura pela educação bilíngue, uma vez que evidencia, cientificamente, a maior facilidade que a criança tem para ser alfabetizada em duas línguas. Neurologicamente falando, o hemisfério esquerdo de nosso cérebro é onde acontecem os processos lógicos, ao passo que o direito atua mais nos processos sociais e emocionais. Já o cérebro infantil possui uma plasticidade que ativa os dois hemisférios durante o processo de aquisição da linguagem.

Diante de tantos pontos positivos em poder falar, escrever, entender, ler e interpretar um idioma que não seja o materno, logo se pensa na evolução que as sociedades teriam, se o acesso a esse Capital Cultural fosse de todos. Infelizmente, fica restrito a uma pequena parcela da população a oportunidade de estudar em um contexto bilíngue ou procurar por escolas de idiomas ou aulas particulares. Infelizmente, ela é mais um fator de exclusão dentro da Educação Brasileira.

No Ensino Superior, o segundo idioma (o terceiro, o quarto...) são usados como recursos de diferenciação da classe dominante. Com a democratização do acesso às universidades públicas e o surgimento exponencial de instituições privadas nesse segmento, o diploma não é mais privilégio de um grupo minoritário (PADINHA, 2019). Desse modo, é necessário buscar outras formas de manter o status quo e posições dominantes.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOLZAN, D. B. Os desafios da Educação Bilíngue de escolha em contexto brasileiro: da construção do currículo à formação de professores. Web Revista Linguagem, Educação e Memória, [S. l.], v. 7, n. 7, 2014.

BONILLA, J.M.H. Em 95% dos artigos científicos, inglês cria ‘ditadura da língua’. Apenas 1% está em português e espanhol. El País, São Paulo, 28 jul. 2021. Disponível em: https://brasil.elpais.com/ciencia/2021-07-28/em-95-os-artigos-cientificos-ingles-cria-ditadura-da-lingua-apenas-1-esta-em-portugues-e-espanhol.html. Acesso em: 15 dez. 2021.

CALAIS, B.; ANDRADE, J.; AGUIAR, S. Quanto custa estudar em 28 das escolas mais caras do Brasil em 2021. Forbes, São Paulo, 30 nov. 2020. Disponível em: https://forbes.com.br/listas/2020/11/quanto-custa-estudar-em-28-das-escolas-mais-caras-do-brasil-em-2021/. Acesso em: 15 dez. 2021.

DAVID, R. S. Professor, quanto mais cedo é melhor? O papel diferencial da Educação Bilíngue. Revista Tabuleiro de Letras, PPGEL, Salvador, v. 10, nº. 02, p. 65-77, dez. 2016. Disponível em: https://www.revistas.uneb.br/index.php/tabuleirodeletras/article/view/3183. Acesso em: 15 dez. 2021.

GARCIA, A. L. S. Vivências de formação crítica docente em um contexto de educação bilíngue de elite. 2020. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) - Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2020.

LITWAK, P.A. Escolas bilíngues têm nova regulamentação; saiba o que muda. O Globo, Rio de Janeiro, 29 out. 2020. Disponível em: https://oglobo.globo.com/rio/bairros/escolas-bilingues-tem-nova-regulamentacao-saiba-que-muda-24711454. Acesso em: 15 dez. 2021.

MELLO, H. A. B. de. Educação bilíngue: uma breve discussão. Horizontes de Lingüística Aplicada, v. 9, n.1, p. 118-140, 2010.

NOBRE, A. P. M. C.; HODGES, L. V. DOS S. D. A relação bilinguismo–cognição no processo de alfabetização e letramento. Ciências & Cognição, v. 15, n. 3, p. 180-191, 13 dez. 2010.

PADINHA, T. A. Bilinguismo no ensino infantil privado: tendências e impactos na dinâmica das escolas e no perfil dos professores. 2019. Dissertação (Mestrado em Gestão Empresarial) - Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2019.

TEODORO, I. A. V.; ARAÚJO, V. S. de. O bilinguismo no processo de aquisição da linguagem nos anos iniciais e seus benefícios. Revista Anhanguera, Goiânia, v. 20, n. 1, p. 13-27, jan./dez. 2019. Disponível em: https://anhanguera.edu.br/wp-content/uploads/02obilinguismonoprocessodeaquisio20201327.pdf. Acesso em: 15 dez. 2021.

WOUMANS, E. et al. Bilingualism delays clinical manifestation of Alzheimer‘s disease. Bilingualism: Language and Cognition, [s. l.], v. 18, n. 3, p. 568-574, jul. 2015. Disponível em:https://www.cambridge.org/core/journals/bilingualism-language-and-cognition/article/abs/bilingualism-delays-clinical-manifestation-of-alzheimers-disease/5AC0792978DDAA80CB63EC763C22C2FB#article. Acesso em: 15 dez. 2021.

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Elaine Assolini
Por Elaine Assolini Pedagoga, linguista, pesquisadora, e-mail:[email protected]
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