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A IMPORTÂNCIA DE ONGS NA VIDA DE CRIANÇAS CARENTES

Yasmin Ribeiro

              Elaine Assolini

 

Nós, seres humanos, somos sociáveis, pois participamos de uma coletividade. Na sociedade capitalista em que vivemos, precisamos trabalhar para conseguir sobreviver, porém, com a globalização, automatização de processos e concorrência no mercado de trabalho, torna-se cada vez mais imprescindível estarmos sempre atualizados profissionalmente, realizando cursos, especializações e conseguindo experiências profissionais, a fim de conquistar um bom emprego.

Não é difícil perceber que, com a desigualdade social que vivemos no Brasil, muitas pessoas não possuem oportunidades de melhorar o seu currículo. A situação agrava-se quando são analisados outros pontos de disparidade em nosso cotidiano, como lazer, cultura, educação e necessidades básicas. Na revista O Globo, de 13 de dezembro de 2021 (ano XCVII, nº 32.270), é mencionado um estudo publicado pelo World Inequality Lab, feito pelo economista Thomas Piketty. Nele, é dito que entre as vinte maiores economias do mundo, com maior desigualdade de renda, o Brasil encontra-se em segundo lugar (em primeiro está a África do Sul). Já na posição mundial, nosso país encontra-se no décimo primeiro lugar.

Entretanto, há esperança. Por meio de Organizações Não Governamentais (ONGs), são realizados trabalhos voluntários que, muitas vezes, trazem transformações significativas nas vidas de várias crianças e adolescentes por todo o país. Sem fins lucrativos e sem estarem ligadas ao governo, as ONGs são entidades que oferecem serviços sociais voltados para várias causas, como educação, saúde, direitos dos animais, meio ambiente, direitos humanos, economia e muitos outros. O trabalho é realizado de forma voluntária, enquadrando-se juridicamente no terceiro setor, por ser uma entidade da sociedade civil que presta serviços de ordem pública, como afirma o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). O nome foi utilizado pela primeira vez em 1950, pela Organização das Nações Unidas (ONU). Desde então, diversas entidades ajudam a sociedade com ações solidárias, buscando apoio financeiro de pessoas físicas, empresas e fundações.

É possível notar que, em famílias com mais privilégios e oportunidades, geralmente de classe alta ou média, a rotina dos filhos possui atividades de caráter extracurricular, como aulas de idiomas, dança, teatro, esportes, instrumentos musicais, reforço escolar, entre outros. Esse tipo de dinâmica é benéfico para o aprendizado, desenvolvimento de crianças e adolescentes, pois integra a cultura, o conhecimento, a socialização, além de favorecer a descoberta de novos talentos, habilidades, despertar a curiosidade, a criatividade, estimular a responsabilidade, organização e disciplina.

Quando analisamos famílias menos favorecidas, geralmente de classe média baixa e que vivem em bairros periféricos, notamos outras possíveis rotinas na vida dos filhos. Ao chegar da escola, muitas crianças e adolescentes dessas famílias ajudam a cuidar dos irmãos, a limpar a casa, fazer comida, vão até lojas, mercados comprar produtos, alimentos, entre outras atividades que não são voltadas para os mesmos objetivos mencionados anteriormente. O momento de lazer, muitas vezes, dá-se apenas ao assistir televisão, jogar em aplicativos de celular e brincar com irmãos ou vizinhos na rua. Quando ficam mais velhos, a partir dos quatorze anos, muitos adolescentes precisam começar a trabalhar para ajudar a sustentar a família, diminuindo o tempo que teriam para atividades voltadas para a educação ou para o lazer.  

Essas diferenças de criação geram consequências consideráveis, quando se olha para o jovem adulto. Em entrevistas de emprego, geralmente se destacam aqueles que possuem bons soft e hard skills, possuem uma boa trajetória acadêmica, um bom currículo e conseguem comunicar-se com excelência. Nos vestibulares, é necessário um ótimo rendimento escolar, domínio das teorias e das questões das provas para conseguir ser aprovado. Quando o curso escolhido é na área das artes cênicas ou da música, deve ter uma boa aptidão técnica e artística. Todas essas habilidades mencionadas não são fáceis de conseguir, por isso, quanto antes treinadas e aprimoradas, melhor. 

Reconhecendo a lacuna originada pela desigualdade social, diversas ONGs por todo o Brasil empenham-se em oferecer projetos, oficinas, doações, cursos e rede de apoio, a fim de transformar a vida dos menos favorecidos. No artigo “A inserção de adolescentes no mercado de trabalho através de uma ONG”, escrito por Rosemeire Maria Guimarães e Geraldo Romanelli, em 2002, foi examinado a inclusão de adolescentes, de famílias de classes populares, no mercado de trabalho, pela ONG, Associação de Assistência e Proteção ao Trabalhador (ADOT), na cidade de Sertãozinho, no estado de São Paulo. Dez adolescentes, que cursaram o ensino médio em escolas públicas, participaram da pesquisa que continha questões sobre suas relações com a escola, o trabalho e a família. 

A ADOT oferece formação técnico-profissional, orientação educacional, cultural e esportiva, como diz o artigo. Por meio do Programa de Formação para a Cidadania, Qualificação, Proteção e Inserção do Adolescente no Mercado de Trabalho, em parceria com a Escola Técnica Federal de São Paulo (ETFSP), são ofertados cursos de treinamento e qualificação técnica, para auxiliar os adolescentes a ingressarem no mercado de trabalho. Já no programa Brasil Criança Cidadã, com apoio do Governo Federal, crianças de 7 a 12 anos, que possuem dificuldade de acompanhamento ou que estão fora da escola, recebem reforço escolar, além de atividades artísticas, como artes plásticas, jogos, teatro e música.

Como resultado da pesquisa, constatou-se que a inserção no mercado de trabalho deu-se por motivos como: ter mais independência, conseguir comprar coisas de interesse pessoal e ajudar a família. Alguns adolescentes reclamaram que seu trabalho era monótono, repetitivo, outros gostaram muito de sua função e tinham esperança de serem efetivados após o contrato. Em geral, todos agradeceram pela oportunidade oferecida pela ADOT, inclusive a consideravam como uma segunda casa. Além disso, por serem “vigiados” pela ONG, os adolescentes tinham mais segurança de terem seus direitos, assegurados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

De acordo com a pesquisa “As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil”, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possuía aproximadamente 237 mil ONGs em 2016. Dentre elas, 32.268 (13,6% do total) eram classificadas como Cultura e Recreação, outras 15.828 (6,7% do total) eram classificadas como Educação e Pesquisa. Uma dessas ONGs é a Nave Sal da Terra, localizada em um bairro carente de São Carlos, no interior de São Paulo. Ela tem o objetivo de combater a desigualdade social por meio de atividades. Para isso, há no local salas de aulas, artes, dança, além de quadra de esportes, campo de futebol, vestiário, playground, refeitório e cozinha, como é mencionado no site da entidade. 

Lá, crianças e adolescentes, de um a 15 anos que moram no bairro Jardim Zavaglia, recebem refeições, aulas de violão, canto, balé, karatê, informática, reforço escolar, entre outras. Com essas oportunidades, elas conseguem colocar em prática o que aprenderam e, até mesmo, apresentar-se em eventos e comemorações da ONG, performando. Além disso, por atuar em contraturno escolar ou até mesmo em período integral, as crianças e os adolescentes ocupam seu tempo com atividades voltadas para seu próprio desenvolvimento e lazer, ficando cada vez mais afastados de situações violentas que poderiam encontrar em seu cotidiano. 

Ao chegarem na última etapa do ensino regular, isto é, o terceiro ano do ensino médio, os adolescentes enfrentam um novo desafio: a entrada em um curso superior. Embora seja relativamente fácil começar a estudar em uma escola pública, a situação é diferente quando se trata de instituições superiores da mesma categoria. Por ter uma grande valorização e prestígio, há muita concorrência, portanto, não são todos que conseguem uma vaga. Entretanto, os jovens carentes também não possuem condições de pagar para estudar em uma faculdade particular, ficando com poucas oportunidades para começar uma formação acadêmica de nível superior. 

Visando superar esses desafios, a ONG, Cursinho Professor Chico Poço oferta dois processos seletivos ao ano para que alunos de escolas públicas (ou escolas particulares com bolsa integral), possam ingressar no cursinho popular de preparação para os vestibulares. Situada em Jundiaí, no estado de São Paulo, a ONG existe desde 2007, desde então tem a missão de lutar por igualdade e justiça social. A consequência desse esforço é conseguir que mais de 50% dos alunos, do cursinho, consigam uma vaga em uma universidade pública, ou em faculdades particulares, com bolsas integrais pelo Prouni (Programa Universidade Para Todos) ou Fies (Fundo de Financiamento Estudantil). A ONG também possui o Projeto “Adote um Aluno”, criado em 2012 para que sejam arrecadados fundos por meio de doações de pessoas físicas ou jurídicas. Como os alunos possuem condições sociais e familiares precárias, muitos acabam não conseguindo pagar a contribuição mensal de R$35,00. Com as arrecadações mensais dos padrinhos da ONG, os alunos conseguem dedicar-se aos estudos, sem ter essa preocupação financeira.

Todas as ações mencionadas foram exemplos de trabalhos de ONGs, voltados para a construção de uma trajetória positiva na vida de crianças e adolescentes. Transformando no presente, mas que, com certeza, trarão fortes influências no futuro. Importante ressaltar que o trabalho voluntário, geralmente, pode ser realizado por qualquer pessoa. Ou seja, todos nós podemos contribuir para a melhoria da nossa sociedade e, principalmente, ajudar aqueles que mais precisam.

Em geral, a desigualdade na sociedade brasileira impacta, desde antes do nascimento até o fim de uma vida, principalmente as classes mais pobres. Para suprir esta carência de oportunidades igualitárias, muitas ações devem partir do governo federal e seus agentes públicos, o que muitas vezes não acontece. Notamos, portanto, o reconhecimento e a importância da atuação das ONGs para modificar positivamente a vida de milhares de pessoas por todo o país. O trabalho voluntário auxilia muita gente a tomar consciência de direitos que nem sabiam que tinham, a buscar esperança que não existia há muito tempo e a provar que pequenas ações podem tornar-se grandes mudanças.

Referências bibliográficas

Editorial. Desigualdade social se mantém em alta, e combatê-la deve ser prioridade. O Globo, Rio de Janeiro, ano XCVII, nº 32.270, p. 2, dezembro 2021. Disponível em: https://blogs.oglobo.globo.com/opiniao/post/desigualdade-social-se-mantem-alta-e-combate-la-deve-ser-prioridade.html

10 vantagens das atividades extracurriculares para os alunos. Eleva Plataforma, 2020. Disponível em: https://blog.elevaplataforma.com.br/6-vantagens-das-atividades-extracurriculares-para-os-alunos/

BLUME, Bruno André; MARMENTINI, Gabriel. ONGs: o que são e por que são importantes? Politize, 2017. Disponível em: https://www.politize.com.br/ong-o-que-e/

Tudo sobre Organizações Não Governamentais (ONGs). SEBRAE, 2020. Disponível em: https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/o-que-e-uma-organizacao-nao-governamental-ong,ba5f4e64c093d510VgnVCM1000004c00210aRCRD

GUIMARÃES, Rosemeire Maria; ROMANELLI, Geraldo. A inserção de adolescentes no mercado de trabalho através de uma ONG. Psicologia em Estudo. 2002, v. 7, n. 2, pp. 117-126. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1413-73722002000200014.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil. Estudos & Pesquisas. Rio de Janeiro, RJ, 2019. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101647.pdf

 

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Elaine Assolini
Por Elaine Assolini Pedagoga, linguista, pesquisadora, e-mail:[email protected]
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