O VALOR DE ESCUTAR NA ESCOLA

O VALOR DE ESCUTAR NA ESCOLA

Eduardo de Oliveira Mantovani

Filomena Elaine Paiva Assolini

 

A obra "Operários", de Tarsila do Amaral, apresenta uma multidão de rostos comprimidos, cada qual carregando sua própria história, mas todos submetidos a uma força que os uniformiza. (São Paulo, 2026) Essa imagem, embora criada em outro contexto, dialoga profundamente com a realidade da educação contemporânea.

Assim como na pintura, a escola reúne pessoas diversas, mas muitas vezes as transforma em uma massa silenciosa, onde indivíduos são percebidos mais pela função que desempenham do que pela singularidade que carregam.

No cotidiano escolar, os professores vivem essa tensão de maneira intensa. Estão presentes, atuantes, fundamentais, mas nem sempre vistos em sua totalidade. A rotina marcada por pressões, urgências, metas e demandas emocionais faz com que suas vozes sejam frequentemente abafadas. A pessoa se esconde atrás da função, e aquilo que é humano (fragilidades, dúvidas, desejos, limites) perde espaço para o que é imediato e operacional. Como nos rostos de operários, o professor aparece, mas não é plenamente reconhecido.

Esse cenário se agrava quando observamos que a escola contemporânea opera sob múltiplas camadas de exigências: políticas públicas que pressionam por resultados mensuráveis, avaliações externas que reduzem o processo educativo a números, currículos rígidos que pouco dialogam com a realidade dos sujeitos e uma crescente responsabilização do professor por problemas sociais que extrapolam os muros da escola.

A literatura educacional aponta que, quando o docente não encontra espaços de escuta e participação, sua autonomia se fragiliza, sua motivação diminui e seu bem-estar emocional é comprometido. (MACHADO; CARDOSO; GUILHERME, 2024) A invisibilidade, portanto, não é apenas simbólica; ela produz efeitos concretos sobre a qualidade da educação.

É nesse contexto que a escuta ativa se torna uma prática essencial. Mais do que uma técnica de mediação de conflitos, ela representa um gesto de reconhecimento e uma estratégia pedagógica alinhada às perspectivas humanizadoras da educação. Escutar ativamente significa acolher a fala do outro com atenção genuína, sem julgamento, permitindo que sua experiência seja legitimada.

Quando um professor encontra espaço para expressar suas preocupações, emoções e vivências, ele recupera o direito de existir como sujeito, não apenas como executor de tarefas. A escuta ativa devolve humanidade às relações e fortalece quem sustenta a escola com seu trabalho diário.

Essa necessidade de ser ouvido também atravessa alunos e famílias. Pesquisas em educação mostram que estudantes que se sentem escutados desenvolvem maior engajamento, autonomia e confiança. Suas dificuldades deixam de ser interpretadas apenas como indisciplina ou desinteresse e passam a ser compreendidas como manifestações de necessidades emocionais, cognitivas ou sociais. As famílias, por sua vez, quando encontram abertura para dialogar, tornam-se parceiras mais efetivas do processo educativo, contribuindo para uma relação escola-comunidade mais sólida e colaborativa.

Valorizar a escuta ativa é valorizar pessoas. É reconhecer que, por trás de cada rosto, existe alguém que deseja ser visto e compreendido em sua singularidade. Quando a escola incorpora essa prática como parte de sua cultura, e não apenas como ação pontual, ela transforma relações. Professores se fortalecem porque se sentem reconhecidos. Alunos se desenvolvem porque encontram acolhimento. Famílias estabelecem vínculos mais sólidos porque percebem que suas vozes têm lugar. A comunidade escolar deixa de ser uma massa homogênea e passa a ser um espaço de reconhecimento mútuo.

No fim, a obra de Tarsila nos lembra que estar juntos não significa ser iguais. Cada rosto é único, cada história é singular, e a educação só floresce quando cria condições para que essas vozes existam plenamente. A escuta ativa, nesse sentido, é mais do que uma ferramenta: é um compromisso ético com a humanidade que habita a escola.

É o que permite que esse espaço, tantas vezes marcado pela pressa e pela pressão, se torne um território de encontro, cuidado e transformação, que é exatamente o que a educação precisa para cumprir sua função social de formar sujeitos inteiros, críticos e sensíveis.

 

Referências:

 

BOZANO-RIVADENEIRA, Esteban et al. Exaustão emocional e desempenho no ensino: uma abordagem para a síndrome do esgotamento em professores universitários. Revista Cátedra, Quito, v. 9, n. 1, p. 54-72, Jun 2026. Disponível em <http://scielo.senescyt.gob.ec/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2631-28752026000100054&lng=es&nrm=iso>. acessado em 14 de julho. 2026. https://doi.org/10.29166/catedra.v9i1.7496.

 

SÃO PAULO. Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo. Disponível em: <https://www.acervo.sp.gov.br/ObrasAudioteca/TarsilaAmaral>. Acesso em: 13 jul. 2026.  

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