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CELÉSTIN FREINET: a atualidade de uma obra

Nascido no sul da França, na região de Provence (1866-1966), Céletin Freinet logo se destacou como pedagogo e educador, não apenas por se filiar à corrente da Escola Nova, mas, sobretudo, por entender a escola enquanto instituição passível de questionamentos e transformações. 

Inconformado, Celéstin Freinet contrapunha-se às pedagogias tradicionais, que se pautavam por ensino livresco, conteudístico, avaliativo, marcado por relações assimétricas entre educador e educando, um ensino no qual o estudante não aprendia a incomodar-se, duvidar e inquietar-se com o que lhe era transmitido. 

A Pedagogia Freinet, ao reagir contra os imperativos da escola tradicional, propõe atividades didático-pedagógicas que oferecem aos estudantes e educadores condições favoráveis de produção, para que o processo de ensino-aprendizagem se concretize de modo a instigar a formação de sujeitos sensíveis, críticos e capazes de pensar e interpretar. 

Vejamos algumas dessas propostas: 

1ª) Livro da Vida: trata-se de um caderno no qual os estudantes registram seus pensamentos, emoções e experiências vivenciadas ao longo do dia, da semana e do mês.  Funciona como um diário, que traz desenhos, textos, pinturas, poemas, achados, e particularidades do estudante. Interessante observar que o Livro da Vida poderia chegar às mãos de professores e familiares, se a criança assim o desejasse. Outro aspecto importante diz respeito à releitura dos escritos e registros de maneira ampla. Essa prática, a da releitura, merece destaque de nossa parte, pois a concebemos enquanto ressignificação, o que possibilita ao sujeito retomar o processo de atribuição e formulação de sentidos, em uma construção textual. Essa retomada é fundamental para que as ideias e argumentos sejam organizados e concatenados, condições basilares para o processo de instauração da autoria. 

2ª) Rodas de Conversa: sentadas em círculo, as crianças narram suas experiências familiares, contam histórias, planejam a rotina do dia, organizam os combinados da semana, realizam brincadeiras diversas. Um dos aspectos relevantes dessa atividade diz respeito à ênfase do pedagogo ao qual denominou “escuta atenta e sensível”, ou seja, tanto o educador quanto as crianças deveriam aprender a ouviu uns aos outros. Escutar é parte do processo dialógico e escutar atenta e sensivelmente, buscando compreender para além do que está dito, é essencial para a aprendizagem da leitura. 

3ª) Ateliês ou Cantinhos: espaços temáticos amplos, onde diferentes tipos de materiais para a leitura, escrita, desenho, pintura, escultura, tapeçaria, marcenaria, dentre outros, seriam generosamente disponibilizados para os alunos, que tinham acesso a esses espaços. Além da fartura de materiais conhecidos ou não, esses espaços temáticos eram propostos também pelos estudantes que, assim, responsabilizam-se pela atualização e manutenção. Vale ressaltar que, atualmente, é comum muitas escolas oferecerem o laboratório de informática e de robótica e Freinet, àquela época, já havia pensado nesses ambientes. Vale mencionar  também a preocupação do pedagogo no sentido de escutar as queixas e pedidos das crianças para enriquecerem tais espaços. Outro aspecto importante concerne à abertura desses lugares para os pais e comunidade, de maneira ampla. 

Observador (observa-dor) Freinet deixou-nos um legado valioso, no qual a Escola é pensada e tratada como espaço político, mas, também, poético. Político porque sempre defendeu que a escola não deveria ser para poucos, ou seja, apenas para os privilegiados, incluídos, abastados. Poética, no sentido de ser rica de estímulos e fascinação pelo saber: escola com muitos livros, arte, música, cores, plantas, água. Espaços diferentes para usos diferentes. Os livros e toda a sorte de materiais deveriam estar ao alcance das mãos das crianças, ter diferentes características e ser de diversos níveis, a fim de que elas sozinhas pudessem  conhecê-los e  manipulá-los.

Por fim, salientamos que o educador mostra-nos a importância e as consequências de uma escola capaz de renunciar a dogmatismos, representados pela suposta verdade do que diz o professor e seu livro-texto. Em concordância com Freinet, entendemos que a  pesquisa deve ser um dos pilares de uma escola que, de fato, se proponha a formar sujeitos que possam discordar, debater e buscar alternativas para termos uma sociedade melhor, quem sabe um pouco menos  cruel e desigual.

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Elaine Assolini
Por Elaine Assolini Pedagoga, linguista, pesquisadora, e-mail:[email protected]
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