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ENSINO HÍBRIDO: CONSIDERANDO A SUBJETIVIDADE PARA A CONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA DO SUJEITO ALUNO

ENSINO HÍBRIDO: CONSIDERANDO A SUBJETIVIDADE PARA A CONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA DO SUJEITO ALUNO

 

Existe um consenso de que o ensino tradicional - baseado na relação hierárquica do professor que ensina, sobre o aluno que aprende, fundamentado na objetividade e no pressuposto de que uma aula pode ser preparada e aplicada para um grande número de alunos – não mais atende às necessidades de uma sociedade, que ultrapassou a era industrial, onde este modelo de ensino atendia perfeitamente ao que se propunha e vive a era do conhecimento.

Então, se a maioria concorda que o ensino tradicional não mais corresponde às necessidades da sociedade contemporânea, como devemos pensar a educação escolar? Qual é a nova forma de fazer educação?

Muitos têm se debruçado sobre o assunto e uma proposta de abordagem pedagógica que vem tomando força e se consolidando é a apresentada pela equipe de pesquisadores norte-americanos do Clayton Christensen Institute, chamada de Blended Learning ou Ensino Híbrido.

O que é Blended Learning? O termo é recente, Blended vem da língua inglesa e significa misturado, combinado, mesclado. Geralmente é utilizado para designar um ensino que combina encontros presenciais com atividades à distância. O termo evoluiu, passando a constituir uma metodologia ativa de aprendizagem, onde mescla-se aulas virtuais e presenciais, combinando momentos de trabalho individual, com trabalhos em grupo; atividades com uso consistente de TIC’s (Tecnologia da Informação e Comunicação) e momentos sem o uso das mesmas.

Segundo o Prof. Valente, da Unicamp, em BACICH (2015), o Ensino Híbrido é uma abordagem pedagógica que veio para ficar e não deve ser encarada como modismo. Valente, faz uma comparação entre o sistema educacional e o sistema bancário, que na década de 1980 o cliente era totalmente dependente do espaço físico de uma agência bancária que tinha todas as suas informações, hoje o cliente é reconhecido em qualquer outra agência porque carrega consigo suas informações em um cartão magnético, o que tornou o cliente independente e responsável por gerenciar suas atividades bancárias. Isso não significou o fim da agência bancária, apenas mudou sua função.

Ele acrescenta que, um dos poucos, senão o único serviço que ainda não passou por essas inovações, é a educação. O foco ainda está no professor, que detém a informação e “serve” seu aluno. A aprendizagem do aluno ainda está centrada na sala de aula e a responsabilidade pela sua aprendizagem ainda é do professor.

Segundo este pensamento, o Ensino Híbrido é a tentativa de implantar na educação o que foi realizado com outros serviços e processos de produção. Nele, a responsabilidade da aprendizagem é do estudante, que assume postura mais participativa sobre sua aprendizagem.

Porém, utilizar tecnologia na educação não significa, necessariamente, incorporar os princípios do Ensino Híbrido, que pressupõe mudanças de paradigmas educacionais. Pensar no Ensino Híbrido é refletir sobre a reconstrução do papel do professor, da reorganização do espaço escolar, da forma de avaliar, da utilização efetiva das tecnologias digitais, do envolvimento da gestão em todo processo, é rever a cultura escolar, com o objetivo maior de promover a autonomia do sujeito aluno, por meio da personalização da aprendizagem aliada ao uso de recursos tecnológicos.

MORAN (2015) afirma que “Tudo pode ser misturado, combinado e podemos, com os mesmos ingredientes, preparar diversos ‘pratos’, com sabores muito diferentes”.

Mas para que esses pratos tenham sabores agradáveis precisamos considerar o que vale a pena aprender? Para que aprender? Como aprender? Em uma sociedade multicultural, mutante, contraditória, imperfeita e tão híbrida.

Embora o termo “híbrido” seja novo, o ensino sempre foi misturado, uma vez que cada sujeito envolvido: aluno, professor, gestor entre outros, carrega consigo sua subjetividade, sua história, sua formação, seus valores e, portanto, não existe “padrão dentro do padrão” proposto, está e sempre esteve tudo misturado, híbrido.

Mas afinal, como pôr em prática o Ensino Híbrido? É possível implementar esta prática pedagógica trabalhando com modelos educacionais ativos não disciplinares e modelos que continuam utilizando a separação por disciplinas. Independente de cada opção, as duas linhas trabalham com resolução de problemas e desenvolvimento de projetos relevantes, por meio de atividades práticas, jogos, debates, que envolvam tomadas de decisões com uso de criatividade e autonomia; misturando o uso de tecnologia, aulas presenciais e à distância, atividades em grupo e individuais, combinando colaboração e personalização.

Para desenvolver este “formato” de ensino MORAN (2105) afirma que “O professor precisa ser competente dos pontos de vista intelectual, afetivo e gerencial”.

A organização dos modelos de ensino híbrido, proposta pela equipe de pesquisadores do Clayton Christensen Institute, apresentam-se de diferentes maneiras: modelo de Rotação (rotação por estações, laboratório rotacional, sala de aula invertida ou rotação individual); modelo flex; modelo à la carte e modelo virtual enriquecido)

Alguns desses modelos não requerem mudanças radicais, apenas uma forma diferente de pensar na estrutura de organização de trabalho do professor e de ajustes no espaço escolar, como é o caso dos modelos de rotação por estações, laboratório rotacional e sala de aula invertida.

Na sala de aula invertida, por exemplo, a teoria é estudada pelo aluno em casa, utilizando-se de ferramentas digitais, antes da discussão do tema em sala de aula e da proposta de atividades. O que era feito em classe (explicação do conteúdo), agora é feito em casa, por meio de pesquisa em site, assistindo a vídeos entre outros recursos. O que era feito em casa (atividades), agora é feito em sala de aula, por meio de debates, questionamentos, resoluções de problemas.

Este é um dos modelos mais simples, mas com o qual podemos iniciar uma mudança do como pensar a educação.

Lembramos, porém, que toda mudança não depende da tecnologia, depende de pessoas. As pessoas envolvidas neste processo são nativas e imigrantes digitais, que segundo Marc Prensky (2010, apud BACICH, 2015) “os primeiros são aqueles que já nasceram inseridos em uma cultura digital e cujas relações com essas tecnologias foram aprendidas intuitivamente [...] A maioria dos professores, imigrantes digitais que se inseriram no mundo da tecnologia, têm uma forma de ensinar que nem sempre está em sintonia com o modo como os nativos aprendem melhor”.

Hoje, nativos digitais e imigrantes digitais compartilham o espaço escolar e de alguma forma o diálogo entre eles deve funcionar para que o objetivo da educação escolar seja atingido.

Acreditamos que, as propostas de Ensino Híbrido, incorporando o uso de tecnologias digitais na escola, são possíveis, mas não há necessidade de abandonar o que sabemos e o que colocamos em prática. Interessante é aproveitar o que já temos e acrescentarmos as tecnologias de forma gradual, mas significativa, considerando a personalização do ensino, considerando o projeto de vida do aluno, sua subjetividade, sua história, proporcionando situações em que o sujeito aluno possa construir sua identidade e alcançar sua autonomia, alicerçada em valores fundamentais que garantam o seu desenvolvimento individual (o personalizar) e o convívio social (o compartilhar), síntese do Ensino Híbrido.

Toda mudança precisa ser pensada de forma responsável, reorganizar currículos, metodologias, espaços escolares, não são tarefas simples e nem existe uma receita a ser seguida.

Cada professor, cada gestor, cada escola, precisa pensar e personalizar sua escolha, dando um passo por vez.

Importante considerar que, o uso de tecnologia vem somar ao que é mais caro na educação escolar: a relação entre professor e aluno, que em si faz tudo acontecer ou não.

No momento que vivemos um mundo de intolerância, de divergências, precisamos acreditar que o espaço escolar é um lugar de importantes possibilidades, principalmente, o de colocar em prática a humanidade. Não podemos é ficar parados, “precisamos mudar a educação para podermos mudar o mundo, começando por nós mesmos” MORAN (2015).

 

Cláudia Baldo

Elaine Assolini

Referências:

BACICH, L.; TANZI NETO, A.; TREVISANI, F. M. (Org.). Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação. Porto Alegre: Penso, 2015.

EDUCOPÉDIA, Blog. Ensino Híbrido: por uma educação onde o aluno passa a ser dono de seu aprendizado. Disponível em: https://www.rioeduca.net/blogViews.php?bid=15&id=4811 . Acesso em 03 nov.15

MORAN, J. Educação Híbrida: um conceito-chave para a educação, hoje. In: BACICH, L.; TANZI NETO, A.; TREVISANI, F. M. (Org.). Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação. Porto Alegre: Penso, 2015.

REIS, Fábio José Garcia dos.  Blended Learning / Ensino Híbrido. Disponível em:

https://www.fabiogarciareis.com.br/index.php/artigos/item/56-blended-learning-ensino-hibrido . Acesso em 03 nov. 15

RIBEIRO, Paula e ZENTI, Luciana. Entenda o que é o ensino híbrido e como colocá-lo em prática. Disponível em: https://revistaeducacao.uol.com.br/textos/211/ensino-hibrido-dois-em-um-330335-1.asp . Acesso em 21out.15

SASSAKI, Claudio. Ensino híbrido: conheça o conceito e entenda na prática. Disponível em:

https://revistaescola.abril.com.br/blogs/tecnologia-educacao/2015/10/27/ensino-hibrido/ . Acesso em 29 out.15

 

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Elaine Assolini
Por Elaine Assolini Pedagoga, linguista, pesquisadora, e-mail:[email protected]
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