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LIÇÃO DE CASA: PRÓS e CONTRAS 2

Pensar a respeito de um dos principais pilares da cultura escolar, a lição de casa,  é preciso considerar diferentes argumentos, contrários e a favor dessa prática.  Analisar os prós e os contras da lição de casa pode contribuir com os educadores, no sentido de ponderar sobre a necessidade da lição e, ao mesmo tempo, explicar a inadequação do excesso de tarefas que pode acontecer em alguns casos.

Comecemos pelos argumentos contrários à lição de casa.

1º) A lição de casa não contribui significativamente para a aprendizagem e para o desempenho escolar dos alunos. Vale lembrar uma lei francesa de 1956, ainda vigente, que proíbe os deveres de casa para crianças entre 6 e 11 anos.  A citada lei nasce a partir da consideração de pesquisas científicas que mostraram e continuam mostrando que, pelo menos para as crianças francesas, nessa faixa etária, os deveres de casa pouco acrescentam ao seu aprendizado!

2º) A lição de casa intensifica as desigualdades porque, principalmente entre as classes trabalhadoras, não se pode contar com a presença dos pais ou outros mediadores em casa que poderiam, acompanhar sistematicamente a elaboração das tarefas.

3º) A expectativa de contribuição dos pais afeta a dinâmica familiar, impondo novos papéis e responsabilidades que nem sempre podem ser assumidos pelos pais, ainda mais se tivermos em mente a sociedade contemporânea, que exige que nós, pais e mães, trabalhemos, em algumas situações até 12 horas por dia, como assinalam recentes pesquisas. As exigências escolares podem gerar situações embaraçosas, conflitos e até mesmo discussões entre pais e filhos. Como consequência, algumas crianças passam a sentir aversão a toda sorte de tarefas a serem realizadas em casa.

4º) A obrigatoriedade de passar a lição de casa toma considerável tempo do professor, assim como a necessidade de corrigi-la, subtraindo tempo da aula e, ainda, fazendo com que o professor leve mais trabalho para sua casa, trabalho esse que se soma a tantos outros por ele realizados como, por exemplo, o preparo de aulas, propriamente dito.

5º) A escola deveria cumprir seus objetivos e garantir a aprendizagem no tempo previsto, assegurando condições gerais e individuais para a realização das tarefas, no tempo das aulas.

A mais dura crítica feita à lição de casa diz respeito à intensificação das desigualdades sociais, posto que nem todas as famílias têm iguais condições de acompanhar e ajudar seus filhos nas tarefas. Lembremos que, no Brasil, ainda existem 15 milhões de analfabetos e muitas dessas crianças são filhos desses homens e mulheres que não tiveram oportunidades de aprender a ler e a escrever. Em alguns milhares de casos, temos a agravante de que esses homens e mulheres não alcançaram níveis razoáveis de letramento. As diferenças dos níveis de alfabetização e de letramento dos pais interferem no reconhecimento e valorização desse tipo de atividade, bem como nas (im)possibilidades de contribuir com explicações e esclarecimentos necessários à realização das atividades.

Podemos pensar também que, mesmo que disponham de tempo e de condições para contribuir com os seus filhos na realização de tarefas, pais e mães, ou aqueles que exercem esses papéis, podem não se sentirem à vontade na tarefa de ensinar, visto que nessas condições de produção, inevitavelmente assumem a posição “professor”.  O desconforto sentido nessa posição pode aumentar e gerar frustrações e situações de tensão, ou, ainda, o que é mais comum, a culpabilização do professor ou do aluno. Esse por precisar de apoio na realização das tarefas, aquele por ter solicitado tarefas e deveres fora das aulas.

Considerando a escola e seu papel, questiona-se sua capacidade de gerenciar o ensino e a aprendizagem no espaço previsto e no espaço institucional próprios. Se a escola delega aos pais a função de ensinar, pode-se dizer que cumpre sua principal missão?  Não raro, podemos observar consequências muito negativas, dentre elas o “jogo de empurra-empurra” no caso o empurra-empurra de tarefas, atividades e da ação de ensinar. Conflitos e distanciamentos entre famílias e escola, estudantes e professores.

Pensemos agora nos argumentos favoráveis à lição de casa.

1º) As tarefas feitas em casa podem contribuir, de modo importante, para a formação de estudantes, ajudando na aprendizagem e no desempenho escolar dos alunos. Desenvolvimento da autonomia, do senso de responsabilidade, da disciplina são outras consequências positivas da lição de casa.

2º) Aprender a organizar informações, sistematizá-las e revê-las são alguns dos motivos pelos quais os professores solicitam lição de casa.

3º) Fortalecer o vínculo com o saber e ressignificar relações com o conhecimento são, também, argumentos positivos, visto que em outras condições de produção, no caso, tarefas feitas no ambiente domiciliar, podem ser lidas, interpretadas de forma diferente às da sala de aula.

4º) A lição de casa não é necessariamente uma sobrecarga. Desde que seja bem planejada e adequada aos recursos de aprendizagem dos alunos, pode estreitar o vínculo com a escola.

5º) A lição de casa pode proporcionar interações entre pais e filhos, irmãos ou com outros adultos responsáveis pelo aluno.

A lição enfadonha pode dar lugar a práticas significativas, ou seja, aqueles que mobilizam sentidos que circulam na memória discursiva (memória de saberes) dos estudantes. Dentre as possíveis práticas significativas, podemos destacar aquelas que envolvem leitura de um livro de que o aluno goste, ilustração de textos, desenhos e pinturas livres, formulação de adivinhas, produções linguísticas escritas, criação de jogos e brincadeiras, decifração de enigmas, observação de experimentos científicos, entrevistas com familiares etc.

Nesse contexto, gostaria de lembrar que tão importante quanto ensinar é cuidar do processo de aprendizagem. Cuidar e zelar para que esse processo aconteça de acordo com as possibilidades dos alunos é tarefa da escola. Assim sendo, a lição de casa pode se constituir em valioso instrumento, no sentido de provocar e instigar os alunos a (re) pensarem o que aprenderam ou não, suas dificuldades e desafios. A boa lição de casa motiva os alunos a reverem conteúdos ensinados, bem como sua posição aluno e, ainda, o que faz com o que lhe é oferecido em sala de aula.

 A ajuda dos pais, segundo o meu entendimento, deve ser vista pelos professores como possível contribuição e não como um pilar de sustentação para o aprendizado do aluno.

Para finalizar esse artigo, gostaria de salientar que a lição de casa não pode ser pensada sem a consideração da cultura escolar de maneira ampla, do projeto político-pedagógico da escola e das finalidades e ideologias educacionais, que norteiam os educadores de maneira geral. Pensar sobre os prós e contras da lição de casa é, portanto, tarefa para o coletivo, esse importante instrumento para a renovação dos fazeres educativos e pedagógicos.

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Elaine Assolini
Por Elaine Assolini Pedagoga, linguista, pesquisadora, e-mail:[email protected]
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