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TEMÁTICA DA HISTÓRIA DA ÁFRICA E DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA NA FORMAÇÃO DO PEDAGOGO(A)

Prof. Ramires  Santos Teodoro de Carvalho

O saber docente é aprendido e constituído no processo epistemológico que reconhece a docência como campo de conhecimento específico. Na formação de professores as relações e saberes escolares acabam ganhando ressignificação à medida que é incutida a experiência do cotidiano escolar, pois é nesta esfera que percebemos, mesmo nos dias atuais, que as escolas ainda não conseguiram romper com uma forma mecânica de ensinar, ou seja: linear, cronológica e factual.

Todavia, dentro do espaço físico da sala de aula, o ensino de História deveria ganhar um outro sentido, com a valorização de atividades tanto em grupo, quanto individuais e desenvolvimento do processo de cognição histórica. Em razão disso, percebemos a importância de uma boa formação do(a) pedagogo(a), para que o(a) mesmo(a) possa ter fundamentos teóricos e práticos para ensinar nos anos inicias do Ensino Fundamental, visto que, o ensino de História, possibilita ao(a) aluno(a) observar, indagar e questionar o modo como se constrói a sua própria história, desenvolvendo seu sentido de pertencimento social, que é fator que possibilita inferir na própria realidade, identificando passado e presente nos vários espaços coexistentes.

Por isso também, o Ensino de História deve ser trabalhado a partir de histórias individuais e de grupos sociais, pois entendemos que ao aprendê-la, estamos concebendo a identidade dos sujeitos, a análise e a observação espaço-temporal. Dessa forma, nos anos iniciais, o Ensino de História deveria ser trabalhado por eixos temáticos, já que eles possibilitam ao aluno problematizar e recuperar elementos produzidos pela experiência humana, num processo dialético entre sujeito-espaço-tempo e, para isso, o ponto de partida deve ser o desenvolvimento da noção de sujeito histórico.

Assim, os professores devem compreender que o Ensino de História nos anos iniciais do ensino fundamental é um processo de descoberta, de curiosidade e de necessidade de significado, no qual a aprendizagem não deve ser simples memorização de fatos e nomes históricos que impossibilitam o reconhecimento do aluno como agente do processo da/na história. Essa ressignificação do ensino deve valorizar a problematização, a análise crítica e reflexiva da realidade, concebendo professor e aluno como sujeitos que produzem conhecimento histórico dentro e fora da sala de aula.

Além disso, é de suma importância, também, o ensino da cultura Africana e Afro-brasileira, para diminuirmos as desigualdades nos campos educacionais e profissionais tão evidentes em dados, como os da pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostra o resultado do módulo Educação, da Pesquisa Anual por Amostra de Domicílios Contínua de 2018 (PNAD-Contínua), publicado em 19 de junho de 2019, que revelou que em 2018 o analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais de cor branca era de 3,9%; já entre as pessoas de cor preta ou parda atingiu 9,1%. Outro dado relevante foi a proporção de pessoas de 25 anos de idade ou mais, que finalizaram a educação básica: o percentual foi maior entre brancos (55,8%), do que entre pretos e pardos (40,3%).

Sem falar que, a média de anos de estudo analisada em 2018, revelou que das pessoas com 25 anos ou mais de idade, em relação à cor ou raça, 10,3 anos é a média de estudos para as pessoas de cor branca e 8,4 anos para as de cor preta e parda. Um outro dado assustador foi com relação à Educação de Jovens e Adultos (EJA), para o ensino fundamental, em que 73,7% dos que a frequentavam eram pessoas de cor preta ou parda; já na EJA do ensino médio, o percentual de pessoas pretas ou pardas abarcava 65,7%. E, ainda em 2018, a taxa de escolarização líquida das pessoas de 18 a 24 anos que frequentavam cursos de Ensino Superior, independentemente do curso escolhido, ficou em 36,1% para os estudantes de cor branca e 18,3% para as pessoas de cor preta ou parda.

Diante disso, a inclusão da temática História da África e dos Afro-brasileiros nos currículos escolares com a Lei n. 10.639/2003, é de suma importância e tem por objetivo superar uma história alicerçada na visão eurocêntrica. Já o desafio da disciplina de ensino de História no curso de Pedagogia é de contribuir para reflexão e reconhecimento do processo histórico da nação brasileira. Por isso, a formação inicial do professor exige intenso diálogo e reflexão, pois tem como finalidade o combate às desigualdades raciais, propiciando aos alunos condições de compreender, respeitar e aprender sobre a diversidade cultural humana.

A temática da cultura Africana e Afro-brasileira é, também, obrigatória na Educação Básica e está ancorada nas exigências legais da Constituição Federal (1988): Art. 215. § 1º e § 2º, Art. 216 e no Art. 242. § 1º; na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), n. 9.394/96: Art. 26-A e Art. 79-B; no Plano Nacional de Educação (PNE: 2014-2024): Meta 7: 7.25 e Meta 12: 12.5; no Parecer CNE/CP n. 1/2004, que Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, para o Ensino de História, Cultura Afro-brasileira e Africana; na Lei n. 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional, incluindo no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-brasileira", e outras providências; e no Decreto n. 4.886, de 20 de novembro de 2003, que Institui a Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial - PNPIR.

Como ensinar História é um processo formativo que permite pensar as transformações das experiências da sociedade (produto da própria intervenção do homem), possibilita aos alunos estabelecerem comparações e semelhanças entre os grupos sociais nos diversos tempos e espaços. O professor, por sua vez, deve constituir-se como um profissional, pensador, crítico e cidadão, por meio de uma formação que articule saberes e práticas concebidas nos diferentes espaços, ou seja, uma educação como um processo construtivo, aberto, permanente, voltado para uma construção histórica e cultural, que proporcione aos alunos o desenvolvimento pessoal e coletivo.

Conceber um ensino problematizador, que insira os alunos no campo histórico da cultura Afro-brasileira, faz com que os mesmos compreendam as pluralidades de fatos presentes e passados, permitindo identificar a construção do povo brasileiro. Para compreendermos a relação presente-passado, devemos observar nos anos iniciais, os conceitos fundamentais que norteiam a construção do saber histórico escolar: o tempo, o fato e o sujeito histórico.

Entretanto, infelizmente encontramos nos livros didáticos a História da África abordada de forma secundarizada e associada apenas ao tráfico negreiro, Imperialismo e Colonialismo. Por mais que tenhamos leis e decretos que garantam a obrigatoriedade do Ensino da África e da Cultura Afro-brasileira, o ensino dessa temática, ainda é frágil.

Ainda assim, entendemos que ensinar História adequadamente auxilia os alunos a adquirirem ferramentas intelectuais para se situarem e compreenderem-se como cidadãos que são, inseridos na sociedade. O objetivo central da História é a preparação e a formação para a cidadania em torno das temáticas do respeito à diversidade cultural, compreensão da desigualdade que mulheres, crianças, idosos, negros e indígenas, sofrem. Mas para isso é necessária uma base teórica, sem a qual toda essa estrutura de formação fica comprometida.

Ressaltamos, ainda, que é fundamental para os futuros profissionais do magistério que irão atuar nos anos iniciais, o desenvolvimento sistemático do que é História e a perspectiva da cultura étnico racial vinculadas às noções de sociedade, economia, política e cultura permitindo, assim, aos alunos negros, pardos ou brancos, diante da miscigenação brasileira, reconhecerem-se como sujeitos históricos a partir da sua realidade e do universo social que o cerca.

Por isso, o conhecimento histórico nada mais é que a relação e a transformação social provocada na natureza, essa concepção metodológica nasce da atividade político-social que concebe a História como uma construção da atividade humana.

Acreditamos que o ensino de História possibilita a construção da identidade crítica do sujeito, para que atuando na sociedade em que vive, ele seja capaz de fazer a relação passado e presente, percebendo-se, sobretudo, como protagonista e transformador da realidade vivida, contudo sem um currículo mínimo de História sobre a cultura Africana e Afro-brasileira, toda essa possibilidade pode não se concretizar.

 

Referências

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Elaine Assolini
Por Elaine Assolini Pedagoga, linguista, pesquisadora, e-mail:[email protected]
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