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UM ESFORÇO PELA PAZ

 

Rogério Bandos

Diante da violência e bestialidade da guerra, eis as perguntas: por quê? Para quê? Ambição, cobiça, ganância, dinheiro, honras? Todas as respostas na órbita do poder, essa palavra – substantivo e verbo – ao mesmo tempo. Como substantivo: forte, pronto, mas, todavia, inerte, insatisfeito. Como verbo, em ação: violento, como todo e qualquer tipo de poder, de acordo com Nietzsche, pela submissão, muitas vezes sem opção, ou uma mudança forçada, para o bem ou não. Outras vezes, com temor, com dor: poder a serviço do medo, da morte. Na guerra, a violência em grande escala, sem freios, contra milhares, milhões, contra um povo, contra civis indefesos, crianças, mulheres, idosos, animais, gente comum – armados, amados ou não. Contra uma nação soberana, contra a paz de Cristo, Gandhi, Luther King e Lennon – todos, vítimas do poder da violência. Retrocesso ao passado cheio de sangue de nossos livros de história, contra e na contramão do futuro, com seus heróis atuais como Elon Musk, da Starlink, da nova comunicação global e da sustentabilidade; contra o esforço para um mundo melhor de trabalhadores e cientistas a serviço da vida e contra os avanços na preservação e dignificação da vida humana.

Em uma palavra, uma definição para essa guerra: latrocínio. Assalto à mão armada, em grande escala. Roubo de vidas livres, pacíficas, de lembranças, de histórias de amor, para talvez nunca mais além da saudade. Em outra palavra: genocídio. Vidas sem vida nos campos e nas ruas, disparos contra vidas em disparadas e desespero, refugiados em aflição; pássaros novos longe do ninho, como na música do urbano Renato Russo, poeta das letras sobre o amor às pessoas independentemente do amanhã, e, por outro lado, da falta de amor da legião de outro russo, um proto-alter-Hitler, mas, de modo diferente do nazista, com bombas atômicas e mísseis de longo alcance nas mãos sujas de sangue alheio. Desrespeito a acordos, jogos de narrativas, chantagem e ameaças, expansionismo insensato, sem respeito às fronteiras e limites. Ontem, a Crimeia. Hoje, a Ucrânia. E amanhã?

País da Eurásia, de um valente presidente, de bandeira de duas cores, com um pé no velho continente, da esperança azul, mas cansado de duas grandes guerras recentes e tantas passadas, ainda com cicatrizes frágeis e recentes, e o outro pé em uma corrente no passado asiático, continente dos antigos conflitos, desde o extremo leste amarelo, como os impiedosos khans mongóis, Stalin, Mao e tantos outros, para agora, mais uma vez, como um novo tirano(ssauro), saudoso da extinta U.R.S.S., oriundo dos porões escuros da guerra fria; sombras na luz de nossos dias, com a frieza de um inverno siberiano. Operação especial? Sofismo insofismável. Guerra, mesmo, entre povos mais que irmãos – triste fratricídio, mas sem enganos ou dúvidas nessa questão: ao autor do primeiro tiro, a culpa maior por ela, e pelo seu porvir. Insensatez, covardia e estupidez, sobretudo para o século XXI e na convalescença de uma pandemia.

Pobres dos homens pobres de espírito, no exercício de seus podres poderes, muitas vezes, para eles, gestos naturais (apud Caetano). Vida natural, morte natural – isso, sim, e não à morte na guerra, de jovens combatentes. Cemitérios militares cheios de e imaturos e incautos soldados, no desperdício de muitas décadas de vida, para a tristeza famílias em prantos, de ambos e todos os lados. Alguns sargentos, e poucas altas patentes, mas sobretudo, e sobre todos, nenhum presidente ou chefe de estado moderno no campo de batalha, mas, sim, no conforto de seus palácios, em segura distância. Desses, só discursos enganadores, subterfúgios e hipocrisia típica da vil política, ditadora, em fomento à cultura belicista. Em verdade, discursos de medo, não de verdade, e não também ao diálogo, à livre expressão e à própria liberdade, sob o risco de detenção; apenas obediência e subserviência. O des-curso do discurso.

Destruição.  Cidades, outrora belas e altivas, agora em pó. Tortura, estupros e execuções a sangue frio. Absurdos para uma espécie pensante, para nosso gênero, de sobrenome sapiens. Nada de sabedoria na guerra, no máximo alguma inteligência, e doentia. Ação sem coração, ego sem superego, motivo sem razão – caminho fácil para a ruína. Pequenez humana na ilusória grandeza da megalomania. Muito poder em para uma só pessoa: eis o perigo dos governos e sistemas políticos subordinados a uma única cabeça com o poder nas mãos. Grande risco, mesmo para as ditas democracias atuais, mesmo originárias do sufrágio – falível ferramenta de escolha.

Pelo fim desta e de outras guerras, uma Educação para a paz, a Educação de Morin, para a instrução de uma nova geração de pássaros, em ninhos seguros, para a conscientização de passarões e passarinhos, como nós. Educação para uma melhor instalação de verdadeiras democracias em todo o planeta, para um mundo uno, com a ONU forte e atuante, acima dos interesses escusos de poucos. Por fim, e para o passado, nosso pretérito imperfeito – e apenas nele –, cada vez mais distantes e extintos de nossa história moderna, os déspotas e tiranossauros.  

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NOTA:  O texto que você leu não utilizou nenhum verbo, ou seja, nenhuma oração, pois esta exige um verbo. Logo, é feito só por frases, que se esforçam para fazer sentido. Foi um exercício gramatical com o propósito de mostrar as possibilidades da escrita e do discurso. Se você percebeu antes, ótimo. Se não, tudo bem, pois muito nos escapa na leitura de um texto. O discurso tem seus mistérios e entranhas escuras. Para explorá-los, ferramentas como a Análise de Discurso de matriz francesa, buscam entender fatores como as condições de produção do discurso, a memória, os interdiscursos e formações discursivas que se afiliam, o sujeito que discursa – com seus fatores inconscientes e ideológicos –, os sentidos que o discurso produz, além da atenção aos detalhes. A isso, Carlo Ginzburg chamou de paradigma indiciário, que é uma metodologia investigativa baseada na atenção aos pormenores do discurso, pois eles importam para a compreensão do todo. Não só na análise do discurso, mas também, na análise da vida nossa e ao redor, ou seja, no mundo real, os detalhes contam. Contam histórias, contam verdades. Como historiador, Ginzburg nos ensina a não desprezar as inúmeras histórias daqueles que sofreram e sofrem com as guerras, por mais individual e pequena que possa parecer. Toda vida importa, e a história, nas escolas, não deve ser ensinada apenas pelos supostos êxitos dos “vencedores”, muito exaltados em hinos nacionais. Esse reducionismo esconde muitas vezes o sofrimento que essas “conquistas” provocaram aos nossos semelhantes. Nosso “herói” e patrono do Exército também é algoz no Paraguai. Napoleão, o pequeno-grande corso que jaz em seu imponente mausoléu no Les Invalides, levou sofrimento e morte para além das fronteiras francesas. Em covas rasas ou suntuosas sepulturas, a morte encerra nossa existência carnal, nesse belo planeta cheio de vilões, mas carente de super-heróis fora das telas. As consequências de uma guerra são inimagináveis, sérias e mais complexas que qualquer ficção possa retratar. Logo, que ninguém – e nenhum país ou sociedade – se iluda: não há vencedores nela.

 

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Elaine Assolini
Por Elaine Assolini Pedagoga, linguista, pesquisadora, e-mail:[email protected]
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