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WINNICOTT: contribuições para pensarmos a infância

Observador sagaz e atento dos estágios mais primitivos do desenvolvimento emocional, que antecedem a constituição do psiquismo, o pediatra e psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (1896-1971) trouxe inestimáveis contribuições ao repertório conceitual psicanalítico. As ideias embasadas em sua clínica voltada para crianças, adolescentes e pais encontram-se hoje bastante incorporadas à psicanálise contemporânea.

O médico pediatra e psicanalista vivenciou momentos críticos da política na Europa, tendo destacada participação na Segunda Guerra como consultor do governo inglês para assuntos referentes à infância traumatizada. Acompanhou por vários anos crianças que foram separadas dos pais em meio a bombardeios alemães (como medida de proteção física e emocional) e levadas a abrigos, localizados em diferentes cidades europeias.

Essa rica experiência embasou fortemente o seu legado teórico, trazendo inovações práticas no campo psicanalítico.

Dentre as inúmeras contribuições de seu legado, destaco o que diz respeito à forma como enxergamos a primeira infância. Winnicott nos ensina que, para os bebês, um brinquedo não é só um brinquedo, um bichinho de pelúcia, não é apenas um bichinho de pelúcia, uma mamadeira não se reduz a uma mamadeira. Esses artefatos são por ele denominados “objetos transicionais”.

Transicional por que está ligado a um processo de transição: a gradual separação entre mãe e bebê. Os objetos ditos transicionais são aqueles que não pertencem ao corpo do bebê, nem são plenamente reconhecidos como a realidade externa compartilhada no social. A transicionalidade está no encontro entre o mundo psíquico e o mundo socialmente construído. Por volta dos 6 meses de idade, a criança se dá conta de que ela e a mãe não são a mesma coisa e, como consequência, acontece a descoberta da realidade externa, etapa fundamental no desenvolvimento psíquico infantil. Na tentativa de lidar com essa situação, que a deixa angustiada e com sensação de vazio, a criança pode apegar-se um objeto que esteja ligado a essa relação primordial, mãe-bebê.

É pertinente ressaltar que a formulação de Winnicott teve grande importância no domínio da Psicologia da Educação e se tornou comum no cotidiano das creches. O eixo dos “cuidados com os bebês” se beneficiou muito de suas contribuições. Podemos observar a formulação winnicottiana “na prática”, quando a equipe de educadores recomenda que as crianças levem para a creche, sobretudo no período de adaptação,  algo que as faça lembrarem-se do ambiente familiar.

Entre as décadas de 1930 e 1940, o pensador atendeu como pediatra milhares de bebês e crianças, na presença de pais, avós, irmão, familiares, de maneira geral. Fundamentado nas observações feitas nesse momento e na prática da psicanálise com adultos, ele desenvolveu a Teoria do Amadurecimento. Essa teoria permite analisar o desenvolvimento com base na qualidade das relações estabelecidas nos primeiros anos de vida.

Winnicott parte do princípio de que todo indivíduo tem uma tendência inata para amadurecer, mas isso só é possível se a pessoa tiver um ambiente facilitador na primeira infância. O ambiente facilitador refere-se às condições físicas e psicológicas que favorecem o desenvolvimento do bebê. O bebê não é determinado pelo ambiente, mas apenas um ambiente suficientemente bom será capaz de oferecer as condições necessárias para o desenvolvimento do self.

Dessa forma, ao sustentar o bebê no colo, com desejo e segurança, oferecendo-lhe cuidados básicos, o adulto faz com que o pequeno se sinta real, acariciado, cuidado. Se houver diálogos e interações, a experiência torna-se ainda mais rica, pois o bebê passa a diferenciar as realidades externa e interna e a estabelecer relações entre elas.

Nos momentos de cuidado, como a hora do banho, por exemplo, existem muitas oportunidades para a interação e, também, para a construção de vínculos afetivos, posto que, por meio dessa experiência, o bebê pode ser observado, tocado acariciado. O momento do banho constitui-se situação lúdica, em que adulto e criança podem brincar com diferentes objetos e episódios de linguagem.

Podemos salientar também as contribuições de Winnicott referentes ao “jogo de rabiscos”, criado para entrevistar crianças e adolescentes. Trata-se de um recurso eficaz no caso de comportamentos agressivos, por parte de crianças e jovens. Por meio desse recurso, conseguem expressar e nomear sentimentos e emoções ainda reprimidos.

Winnicott manteve sua prática médica em hospitais londrinos por mais de 40 anos.  Seus textos foram lidos e estudados por filósofos como Gilles Deleuze, Giorgio Agambém e Axell Honneth. O pensador inglês foi um homem discreto e solidário a diferentes causas sociais. Sua escrita é objetiva, enxuta e instigante. Seu legado, como breve e resumidamente mostramos, continua reverberando nos dias atuais, ajudando-nos a pensar algumas das muitas questões concernentes ao universo infantil.

 

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Elaine Assolini
Por Elaine Assolini Pedagoga, linguista, pesquisadora, e-mail:[email protected]
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