PeNSE: meninas são as maiores vítimas de violência sexual
O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com apoio do MEC (Ministério da Educação) e parceria do Ministério da Saúde, publicou informações alarmantes na 5ª edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada em 2024, que entre outros dados, procura quantificar e analisar as violências – físicas, psicológicas e sexuais - sofridas pelos estudantes das escolas públicas e particulares do Brasil.
Entre os vários indicativos, resultado das entrevistas com estudantes de 13 a 17 anos, do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio, 18,5% dos estudantes relataram ter passado por situação de toque, manipulação, beijo ou exposição do corpo contra a sua vontade alguma vez na vida. Segundo as pesquisas, essa situação foi mais vivenciada por meninas (26%), apresentando um aumento de 3,8 pontos percentuais em relação à PeNSE de 2019.
A pesquisa também apresenta outras informações importantes: “esse tipo de violência nem sempre é identificado pela vítima, seja por falta de conhecimento em razão da idade, no caso de menores, seja por aspectos sociais e culturais”. Isso leva à reflexão sobre a violência estrutural, fruto de comportamentos familiares, culturais e sociais, causados pela própria desinformação dos agredidos.
Nos casos de assédio sexual, a publicação ressalta que “os agressores apontados pelos estudantes foram: outra pessoa (24,6%), outros familiares (24,4%) e pessoa desconhecida (24,0%). As categorias de namorado(a) e amigo(a) foram mencionadas por 21,2% e 20,4% dos escolares”.
O bullying e o cyberbullying, infelizmente, avançaram. Nas redes, 12,7% dos estudantes disseram já terem sido ameaçados ou humilhados - entre meninas, 15,2%. Nas escolas, 23% relataram provocações, principalmente relacionadas à aparência do corpo (16,5%), do rosto (11,6%) e à cor ou raça (4,6%). A pesquisa também perguntou aos jovens de 13 a 17 anos se sentiram que “a vida não vale a pena ser vivida” - na maioria das vezes ou sempre - e nesse item aparece mais um quadro assustador: uma em cada quatro meninas vivenciavam esse sentimento (Tabela 12.6.1). Reflexo dessa ambientação nociva, muitas meninas já afirmaram ter vontade de se machucar de propósito (43,4%), número bem maior do registrado entre os meninos (20,5%).
Além desses dados, que já são o suficiente para deixar pais e educadores mais atentos, outros números compõem um universo, no mínimo, preocupante: 12,5% dos alunos abandonaram os estudos por falta de segurança no trajeto de casa até a escola e 13,7% afirmaram ter medo de estudar dentro da própria unidade de ensino. 16,9% das alunas da rede pública deixaram de ir à escola, pelo menos um dia, por falta de absorvente íntimo.
Está claro que as meninas são as maiores vítimas de abuso sexual, bullying e insatisfação com a própria imagem. E como as escolas estão praticando a escuta atenta, elaborando o Projeto de Vida, ou oferecendo o acolhimento divulgados exaustivamente como necessidade básica para o combate contra esses casos? Qual canal de comunicação eficiente existe entre vítima, família e escola? Ou as meninas – e os meninos, também - que sofrem essas violências - deveriam se calar?
Pairam nos noticiários casos diários de agressões físicas e psicológicas, feminicídios, est#pr*s coletivos, que são reflexos da violência de gênero, da misoginia, da masculinidade tóxica (por exemplo, no movimento Red Pills), do machismo estrutural. E se esse sentimento é estrutural, é porque vem da infância e se fortalece na adolescência e é perpetuado na fase adulta, validado quando a sociedade permanece inerte.
O PeNSE oferece os indicativos, mas as ações efetivas, as soluções práticas estão na percepção dos pais e na sintonia fina com seus filhos, no nosso olhar atento de professores dentro das salas de aula, nas vivências dos inspetores nos corredores das escolas, nas mãos de todos nós, educadores.