A culpa mudou de lugar agora?
"A misoginia se sustenta quando a culpa é deslocada para a mulher."
— Susan Forward
Nos últimos dias, uma notícia veiculada em Ribeirão Preto/SP chamou atenção não apenas pelo fato em si, mas pela frase proferida pelo agressor no momento de sua prisão por violência doméstica: “Ela é a responsável.”
Curta, direta e aparentemente simples, a frase carrega uma lógica conhecida e reiterada historicamente. Nela, a responsabilidade desloca-se do ato para a vítima; do agressor para a mulher. Trata-se de um mecanismo antigo e profundamente enraizado nas relações de poder: a culpabilização feminina como estratégia de absolvição simbólica masculina.
Ao afirmar que “ela é a responsável”, o agressor não apenas tenta justificar a violência cometida, mas aciona um discurso social que naturaliza a inversão de papéis, transformando a vítima em causa e o autor em efeito. Esse deslocamento não ocorre de forma isolada: ele se reproduz nos espaços domésticos, profissionais, institucionais e simbólicos, atravessando a vida das mulheres de maneira contínua e, muitas vezes, silenciosa. Essa lógica de responsabilização da mulher não se restringe aos episódios explícitos de violência doméstica, tampouco se manifesta apenas em situações extremas. Trata-se de um padrão que atravessa o cotidiano e se infiltra nas relações profissionais, institucionais e sociais, muitas vezes de maneira silenciosa e legitimada por discursos que se apresentam como técnicos, neutros ou racionais.
Dessa forma, quando a mulher questiona, aponta falhas, rompe silêncios ou se recusa a ocupar lugares historicamente impostos, passa, não raras vezes, a ser percebida como o problema. O foco, então, desloca-se da ação, da estrutura ou da decisão tomada para o comportamento feminino, instaurando um processo de deslegitimação que fragiliza, isola e desautoriza.
Simone de Beauvoir, ao afirmar que “não se nasce mulher: torna-se”, nos ajuda a compreender como a responsabilização feminina não é natural, mas socialmente construída. Ao longo da história, a mulher foi constituída como o “outro”, aquela sobre quem recaem expectativas de comportamento, culpa e adequação. Nesse sentido, quando algo falha — seja no âmbito doméstico, profissional ou institucional —, a mulher tende a ser convocada a explicar, justificar ou assumir responsabilidades que não lhe cabem. A violência, portanto, não se expressa apenas nos atos físicos, mas também nos mecanismos simbólicos que atribuem à mulher a causa dos conflitos, eximindo estruturas e sujeitos de poder de qualquer responsabilização.
Já Rita Segato nos ajuda a compreender que a violência contra mulheres não é fruto de descontrole, mas um modo de exercício de poder. Segundo a autora, ela funciona como uma pedagogia cruel, cujo objetivo não é apenas ferir, mas reafirmar hierarquias, silenciar vozes e restabelecer posições de dominação. Nesse sentido, a violência não se limita ao espaço doméstico: ela se reproduz em diferentes esferas da vida social, inclusive nas instituições que deveriam zelar pela ética, pela escuta e pela justiça.
Há ainda um aspecto que merece atenção: a forma como essas violências se tornam invisíveis justamente por estarem revestidas de linguagem técnica, burocrática ou institucional. Relatórios, avaliações, pareceres e decisões administrativas, quando desvinculados de escuta e ética, podem funcionar como dispositivos de silenciamento. Sob a aparência de neutralidade, produzem efeitos concretos na vida das mulheres, afetando trajetórias profissionais, vínculos e possibilidades futuras.
Com o tempo, esse tipo de experiência ensina às mulheres estratégias de autopreservação. Muitas passam a medir palavras, a evitar confrontos, a se recolher ou a aceitar injustiças para não serem novamente expostas, rotuladas ou desacreditadas. Trata-se de um aprendizado doloroso, construído não por fragilidade, mas pela repetição de situações em que a tentativa de diálogo ou denúncia resultou em mais violência simbólica.
Ainda assim, é preciso afirmar: o silêncio que muitas vezes se instala não significa consentimento. Ele é, frequentemente, resultado de um contexto que não oferece garantias reais de escuta, proteção ou justiça. Romper esse ciclo exige mais do que discursos institucionais; exige práticas comprometidas com a ética, com a responsabilização e com o reconhecimento das desigualdades de gênero que atravessam as relações sociais e profissionais.
Sendo assim, refletir sobre essas dinâmicas não é um exercício de vitimização, mas de responsabilidade coletiva. Enquanto frases como “ela é a responsável” continuarem a encontrar respaldo simbólico, institucional ou social, a violência seguirá se reorganizando sob novas formas, nem sempre visíveis, mas igualmente eficazes. Tornar essas estruturas legíveis é um passo necessário para interromper ciclos de silenciamento e deslocamento de culpa. Nomear não é ferir — é, muitas vezes, a única possibilidade de transformação.
Referência Bibliográfica:
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
FORWARD, Susan; FRAZIER, Donna. Homens que odeiam mulheres e as mulheres que os amam. Tradução de Angela do Nascimento Machado. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.
SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Expressão Popular, 2004.
SEGATO, Rita Laura. A guerra contra as mulheres. Tradução de Cecília Olivieri. São Paulo: Boitempo, 2021.