Aventura na Tanzânia - Parte 1

Aventura na Tanzânia - Parte 1

Desde moleque, sempre associei a África à aventura, à superação de perigos, ao heroísmo. Tarzan era meu ídolo e um dia também eu aprontaria alguma nas savanas ou selvas africanas. Mais crescidinho, o interesse pelo continente aumentou, queria conhecer o local onde a espécie humana floresceu e evoluiu para ganhar o mundo, a terra que em tanto contribuiu para a formação da cultura e do povo brasileiro. Enfim, desde os anos 90 eu já costurava uma viagem para lá.

E, já que eu iria, por que não pisar em seu ponto mais alto e imponente, de onde enxergaria os mais longínquos horizontes em qualquer direção? Pois bem, o Kilimanjaro, com seus 5.890 metros de altitude, emergindo em plena savana da Tanzânia, passou a ser o objetivo acalentado. E em julho de 2005 embarquei nessa que seria uma das mais belas viagens que já fiz, mergulhando sozinho numa memorável experiência africana.

Durante o planejamento da expedição, procurei o João Garcia, então gerente de jornalismo da EPTV e hoje diretor de A Cidade, e propus a ele levar uma câmera de vídeo da emissora. O objetivo seria captar imagens inusitadas, tanto da montanha quanto de animais, para serem aproveitadas em algum programa. Embora não tenha aparentemente botado muita fé no resultado daquela experiência, ele topou e emprestou uma filmadora digital, pequena e meio surrada, usada em ocasiões especiais pelo jornalismo da casa quando da necessidade de gravar com equipamentos mais leves e em locais inóspitos.

E lá fui eu para a Tanzânia levando na bagagem equipamento de alta montanha, máquina fotográfica e filmadora, disposto a subir as duas montanhas mais altas do país – o Monte Meru e o Kilimanjaro – e fazer um safári na cratera de Ngorongoro, um verdadeiro zoológico sem jaulas ou cercas e com a maior concentração de bichos selvagens do planeta, entre leões, búfalos, rinocerontes, hipopótamos e leopardos.Terra da Gente

Quando retornei da África, apresentei à EPTV as quase três horas de material gravado em pouco mais de duas semanas de viagem. O João Garcia chamou a Edith Gonçalves, então chefe de redação e hoje a gerente de jornalismo, para analisar o material. Felizmente, ela gostou do que assistiu e se empenhou em fazer uma edição caprichada, pesquisando inclusive sobre os animais mostrados nas imagens. Vários profissionais da EPTV se envolveram na produção do documentário, entre eles o Chico Ferreira, hoje na Record, que fez a locução.

Algumas semanas depois o programa ficou pronto e foi dividido em três capítulos: Monte Meru, Kilimanjaro e Ngorongoro, totalizando 27 minutos bem bacanas. A EPTV decidiu então veicular a história no programa “Terra da Gente”, aos sábados, em outubro de 2005, dando assim uma maior repercussão à aventura com sua exibição em outras praças da TV Globo, como São José do Rio Preto.

Logo no primeiro episódio, sou apresentado de forma solene como aventureiro, fotógrafo e esportista, sendo listados alguns feitos do meu currículo. Anuncio inclusive que subiria em breve o Monte Elbrus, o mais alto da Europa, idéia posteriormente engavetada mas ainda nos planos no futuro próximo. A Edith achou melhor começar a aventura com o safári por Ngorongoro embora este tenha sido a última parte do meu roteiro da expedição.

Guardo boas lembranças da cratera. Fiquei amigo do motorista e guia Thel, que aparece no vídeo acima. Ele me convidou para sair à noite em Arusha, a cidade de onde partem as expedições para o Kilimanjaro e Ngorongoro. O programa foi sensacional, pois quase nenhum turista branquelo se aventurava em sair sozinho do hotel. E o Thel me levou aos botecos reais da cidade, ruas de terra, somente população negra, divertida e musical. Todos simpáticos e interessados no Brasil, em nosso futebol, em nossos Ronaldos. O branquelo aqui se divertiu e aprendeu muito naquela noite e ainda ganhou um CD com músicas típicas da Tanzânia.

A comunicação se dava em inglês, mas a palavra que mais repeti na viagem foi “jambo” (pronuncia-se diambo). Em suahili, a língua local, significa, entre outras coisas, “olá” ou algo como um informal "e aí", "beleza" ou "até mais". Assim, a qualquer hora, em qualquer lugar, quando cruzava uma pessoa, na cidade, na trilha ou no hotel, era jambo pra lá e jambo pra cá ...

Postarei na próxima semana mais dois vídeos dessa viagem mostrando as ascensões aos cumes do Monte Meru e do Kilimanjaro, este último destino cada vez mais desejado por montanhistas brasileiros. Conheço ao menos cinco pessoas que querem ir pra lá e já me pediram para ver esses programas. Basta agora que acompanhem meu blog ... hehehe. E abaixo ainda disponibilizo aos mais curiosos a matéria que escrevi para a Revista Terra da Gente sobre Ngorongoro, passeio que recomendo a qualquer um que goste da fauna africana.

Até breve, ou melhor, jambo!!!

* * * * * * * * * * * * * * *

Ngorongoro, o Jardim do Éden na Tanzânia

Uma estrada simples de mão invertida, mas em razoável estado de conservação, rasga belas paisagens do interior da Tanzânia que incluem montanhas, lagos, áreas militares e vilarejos do povo Maasai. Depois de 150 quilômetros desde a cidade de Arusha, no nordeste do país, o veículo utilitário 4x4 se aproxima de um dos locais mais impressionantes do continente africano: a cratera de Ngorongoro, uma mistura de Jardim do Éden com aquela savana que conhecemos, desde a mais remota infância, dos programas de televisão sobre animais selvagens.

Uma longa subida, em meio a uma floresta, nos leva a uma altitude de 2.200 metros, junto ao topo das paredes que cercam a cratera, onde o vento sopra forte e a temperatura tem uma perceptível queda. O motorista então pára o carro em frente a um mirante inesperado. Diante dos nossos olhos, surge um colossal vale esverdeado, enfeitado com outras tonalidades de cores que mudam de acordo com a luz solar. Seiscentos metros verticais abaixo, encontra-se uma planície de quase 15 quilômetros de comprimento por 15 quilômetros de largura, uma paisagem de prender a respiração por sua grandeza e beleza.

Lá embaixo, na cratera, vivem completamente soltos e no seu habitat centenas de espécies de animais, entre eles os felinos e paquidermes mais famosos do mundo. Pode-se dizer que Ngorongoro é o local com a maior concentração de leões, leopardos, guepardos (chitas), hienas, elefantes, rinocerontes, hipopótamos, gnus, zebras, avestruzes, flamingos, javalis, antílopes e outras espécimes convivendo juntas. Há água e capim o suficiente para herbívoros, embora os gnus imigrem, e grande quantidade de caça para os grandes predadores.

Gastar horas apreciando a cratera lá de cima, a olho nu ou com binóculos, só faz aumentar o desejo de descer para os seus 1.600 metros de altitude, passando por pequenos grupos de coloridos Maasai pastores e, lá embaixo, aproveitar o dia na busca dos animais. Dezenas de jipes cruzam suas estradas poeirentas diariamente, com turistas em estado de graça e atentos a tudo o que se move naquela vasta porção de terra. De formação basáltica, Ngorongoro só foi descoberta pela civilização ocidental no início do século XX e ainda ajudou a desvendar segredos da origem do homem primitivo.

Percorrer a cratera, armado de câmeras fotográficas e lentes potentes, significa interagir com a natureza selvagem. Ao contrário dos zoológicos, em Ngorongoro os humanos são obrigados a ficar confinados na cabine dos veículos enquanto os bichos circulam soltos. Mas não importa, o que vale é a oportunidade de observar cada detalhe desta reserva natural abençoada. Quem não gostaria de assistir a uma caçada ao vivo, mas os leões e outros predadores ainda passam a maior parte do dia num preguiçoso descanso.

Já as zebras e gnus oferecem cenas mais movimentadas, como disparadas em grupo. Os poucos e corpulentos rinocerontes normalmente não se aproximam das estradas e por isso, para enxergá-los, convém paciência e bons binóculos. Os búfalos já são mais presentes e os hipopótamos podem ser confundidos com grandes pedras que despontam na água . Além dos animais, o espetáculo continua com a invejável vista ao redor, seja do lago, das paredes da cratera ou do amarelado capim das savanas e de seus pequenos bosques.

Nogorongoro é uma grande experiência, passagem obrigatória para o vizinho e extenso Seringueti e, sem dúvida, uma das grandes atrações da vida selvagem na Tanzânia. Vale a pena vivenciar a cratera, nem que seja somente por um dia.

* Texto da matéria publicada na Revista Terra da Gente em 2005

 

 

 

 

Compartilhar: