Balanço da Feira

Balanço da Feira

Na edição da Feira do Livro de Ribeirão Preto que acaba de ser encerrada, deixei a preguiça de lado, fiz contorcionismo na agenda de trabalho, investi em estacionamentos do centro (quando não encontrava alguma vaga solitária a cinco quadras da esplanada) e resolvi aproveitar a apetitosa programação de palestras, conferências e troca de ideias. Descartei os shows musicais, sinal que a idade avança e os ouvidos e pernas deste escriba exigem mais conforto para o pleno desfrute. 

De partida, estive na solenidade de abertura para visualizar que uma iniciativa da envergadura da Feira só pode ser obra coletiva. Fruto do trabalho de muita gente, de idealizadores a empreendedores, de voluntários a abnegados, em meio aos mais diversos desafios, entre eles os de caráter político, comportamental e logístico. Dificuldades não faltaram, melhorias podem e devem ser implantadas, mas o saldo é positivo. 

No dia seguinte, estreei como mediador, no auditório do Palace. O palestrante era o professor de História Antonio Tumissa, um angolano que deixou seu país para escapar de uma guerra civil de décadas. Hoje morando e lecionando na Bahia, veio a Ribeirão Preto falar sobre cultura afrobrasileira. Achei que o tema e o horário – 15h30 – não atraíram muitos interessados. Ledo engano! Mais de 100 pessoas acompanharam o salão de ideias e o testemunho do professor. Muito bacana aprender sobre Angola. O debate com o público esquentou ao final, quando as cotas raciais nas universidades elevaram os ânimos. Fui um mediador discreto, como acredito que teria que ser, e a experiência valeu a pena. 

No final de semana, voltei ao Pedro II desta vez para acompanhar a conferência de Zuenir Ventura e seu filho que lançara um livro para registrar os 50 anos da maior tragédia circense do todos os tempos, ocorrida em 1962, em Niterói, e que ceifara 500 vidas. Fiquei surpreso ao constatar que desconhecia por completo este incêndio, um marco na história da cirurgia plástica no Brasil já que centenas de vítimas se queimaram e passaram anos se tratando das sequelas na pele. Foi lisonjeiro ver pai e filho ali no palco, ambos jornalistas, ambos escritores.

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Na plateia estava Leonardo Boff, que fez uma intervenção salientando toda sua visão marxista dos fatos e da História. Zuenir, uma figura simpática, preferiu polidamente rasgar elogios ao teólogo ao invés de esquentar o debate confrontando os velhos jargões da luta de classes como principal teoria para explicar desde o golpe de 64 ao Brasil de hoje. Enfim, nada que diminuísse minha admiração por “1968”, livro que lançou Zuenir no mercado editorial em 1988 e cujas páginas saboreei naquele ano, da primeira à última. 

Na segunda-feira, uma nova conferência, a da jornalista Sonia Bridi. A mediadora, sua xará, Sonia Maggiotto, é ninguém menos que a minha mulher. Confesso que apreciei a performance das duas Sonias no palco do teatro. A minha tinha passado os últimos dias ouvindo as 13 horas do áudiolivro da outra, a da Globo, contando suas experiências de alguns anos vivendo na China. Mas o tema do debate foi outro, o clima, baseado em livro que a jornalista está lançando e que fala das mudanças que a ação do homem vem causando no planeta. Ao final, ainda troquei algumas palavras com Sonia Bridi sobre nossas ascensões ao Kilimanjaro, na Tanzânia, e de como a quantidade de neve havia diminuído nos poucos anos que separam nossas investidas ao ponto mais alto da África. 

Neste mesmo dia, após o almoço, voltei à Feira, ao auditório Meira Júnior, para acompanhar a colunista política da Folha, Eliane Catanhêde, autora da biografia do ex-vice-presidente Jose Alencar. Sob a mediação do Mac, editor de Economia de A Cidade, ela falou sobre sua trajetória e deu detalhes sobre os egos de Lula, que lhe negou um depoimento para o livro sobre seu vice, e de Fernando Henrique. Na hora das perguntas, indaguei como ela lidava, na cobertura de assuntos ligados aos anos de chumbo, como a Comissão da Verdade, com o fato de a Folha ter apoiado a ditadura e emprestado veículos às forças de repressão, e mais recentemente ter usado o termo “ditabranda” para definir aquele período da História. 

Eliane se saiu bem na resposta, fez uma comparação do jornal com José Alencar, que havia apoiado o golpe e depois se transformou no vice de Lula, ou seja, mudou de opinião. Mas ressaltou que não podia falar em nome do jornal, e sim em nome dela, e que jamais sofreu qualquer pressão ou recebeu qualquer orientação da Folha de como deveria proceder na cobertura de assuntos relacionados ao período citado.

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Na quarta-feira, na companhia de meu filho, fui conferir um velhinho sabido e de longos cabelos brancos caídos na testa e cujas crônicas dominicais têm sido leitura obrigatória nos últimos meses: Ferreira Gullar. Com seus mais de 80 anos, contou muitas coisas interessantes sobre sua vida, desde quando descobriu ainda adolescente a poesia moderna em São Luis, e depois, já no Rio, inventou a desconstrução da língua, fez parceria com os concretos irmãos Campos, viveu os tempos de militância, a prisão, o exílio, as paixões. Recitou uma poesia dedicada a um amor vivido em Moscou, e confesso que aquelas palavras divinamente concatenadas e proferidas me arrepiaram a pele. 

A agenda repleta de trabalho não me impediu de acompanhar o Fernando Corrêa da Silva, advogado e cliente, em suas atividades de padrinho do Eduado Giannetti, que veio na quinta-feira participar de uma conferência no evento. Fomos ao Leite Lopes recepcioná-lo e depois almoçamos juntos no Stream. Infelizmente, não pude assistir a sua palestra, mas o almoço cujo cardápio incluiu conversas a respeito de literatura, política, economia e singularidades, foi recompensador. Não é todo dia que dialogamos com inteligências tão refinadas, daquelas capazes de escrever livros traduzidos para vários países ou redigir uma proposta de programa econômico para um país como Brasil. 

A Feira do Livro estava chegando ao seu encerramento, mas aproveitei o sábado para tirar uma última e valiosa casquinha. Ainda de manhã, no auditório Meira Júnior, acompanhei a parte final do Salão de Ideias em que o Julio Chiavenato comentou seu último livro, sobre os impactos do câncer na vida dos pacientes. Como sempre, Chiavenato estava afiado, sem meias palavras. Invariavelmente discordo do que ele escreve na página 2 de A Cidade, textos que abordam ou analisam a realidade e os fatos por um viés mais negativo e rancoroso do que meus míopes olhos enxergam, mas ouvi-lo ali, sempre convicto, valeu a pena.

E lá estava o Luis Eblak, editor da Folha Ribeirão, com quem conversei bastante no intervalo das atividades. Mas logo em seguida ao Chiavenato, cujo “Genocídio Americano” marcou meu final de adolescência em Belo Horizonte, entrou no auditório do Palace o Menalton Braff. O autor de “À sombra dos ciprestes” me impressionou positivamente pelo seu discurso pausado, tranqüilo, educado e esclarecedor, pela sua extensa bagagem de leituras clássicas, pela maneira como contou criar, produzir e escrever. Já possui uma vasta obra e outros muitos livros já prontos para serem editados. E reforçou que sua carreira tem dois momentos: AJ e BJ, ou seja, antes do Jabuti, quando tinha poucos leitores, e depois do Jabuti, quando ganhou repercussão nacional.

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A Feira ainda teria um encerramento com foco na ciência. Voltei no sábado à noite, acompanhando pela minha mulher e filho, para assistir ao Nicolelis, o nosso atual cientista-maior. Uma bela conferência, já que toda a inteligência e poder de realização do mesmo estão sendo colocados em prática num projeto inovador de Educação e produção científica próximo a Natal (RN). Sai pensativo da conferência, com um pouco mais de fé na tal ciência, torcendo muito mais para que ele realize a promessa de fazer um adolescente em cadeira de rodas, vestindo um exoesqueleto, dar o chute inicial na abertura da Copa de 2014 do que para o Brasil vencer esta competição.

Foram dias intensos, sacudindo a cabeça com conhecimento e opiniões de primeira, ouvindo gente que tem o que dizer, consumindo idéias, satisfazendo com alimentos culturais uma esfomeada voz interior, cada vez mais exigente. Em 2013, certamente, estarei de novo driblando compromissos para me enfiar, de alguma maneira, na plateia e escutar gente que merece ser escutada.

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