Domingão existencial
Nada de suor e adrenalina esportiva no domingão. Acordei tarde, me estiquei na cama. Depois da longa espreguiçada, peguei o caderno cultural do Estadão e li, entre outros, artigo comentando o documentário sobre Raul Seixas, cujo trailer havia assistido semana anterior no Reserva Cultural em São Paulo. O diretor do filme traz, logo no início da narrativa, uma alusão a Easy Rider, clássico de Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson do final dos anos 60.
Me perguntei quantas vezes já não havia falado sobre este filme, quantas vezes já não havia saído de viagem em minha modesta existência vestido com o mais apurado espírito de Sem Destino. E nunca tinha visto o diabo deste filme. Decidi então ir à locadora para alugá-lo. E lá chegando, aliviado por descobrir que o DVD estava disponível, ainda encontrei na prateleira do Empório do Cinema outro cult que ensaiava conferir há tempos: O sétimo selo, do sueco Ingmar Bergman, no qual o protagonista joga xadrez com a morte enquanto caminha por seu país devastado pela peste na Idade Média.
Um belo cardápio para passar a tarde. Depois de um delicioso almoço em família e algumas taças de vinho tinto, deitei no sofá apertando o play na primeira opção. Lulu, meu filho de 15 anos, estranhou um pouco o próprio pai chamá-lo para apreciar um filme no qual o consumo de drogas corre solto e na forma de uma ode à liberdade. Expliquei que a trilha musical e as paisagens eram marcantes, mas ele se desinteressou pela história 15 minutos depois, assim como minha mulher. Subi então eu mesmo na “garupa” de Fonda e Hopper e entrei naquela narrativa marcante, tão reveladora de uma época e de uma sociedade.
Quarenta anos depois, a temática continua tão intensa e atual. Afinal, a busca pela liberdade e os problemas com a intolerância estão na ordem do dia, aqui, no Brasil e no mundo. E o que fizeram Fonda e Hopper é algo muito forte no ser humano desde os primórdios. Simplesmente sair, sem destino, vivendo um dia após o outro, explorando o desconhecido, buscando a diversão e o prazer, sem maiores compromissos, sem isso ou aquilo, autênticos, diferentes, não importando muito com o que os outros pensam. Música, vento no rosto e o mundo a explorar.
Meu irmão Rodrigo resolveu experimentar essa sensação de forma mais prolongada e um pouco mais estruturada. Partiu com a mulher Ana para uma viagem de 1000 dias (www.1000dias.com) pelas Américas a bordo de uma camionete. Já se foram 700 dias e vale a pena conferir os relatos diários do casal sobre a aventura. Quem sabe um dia eu também não saio por aí por mais tempo, sem a necessidade de ter que voltar depois de 15 dias. Todos merecemos um sabático e os domingos servem para botar lenha em sonhos ou planos mirabolantes, e os filmes nos transportam para estes devaneios tão necessários à alma.
Fim do DVD, Fonda e Hopper já estão devidamente baleados e mortos na estrada da existência. Resolvo me popularizar nas vontades e nos hábitos. Ponho a TV na programação da Globo para dar uma espiada em Santos x São Paulo. A magia do futebol me tira um pouco da letargia da vida, vibro com as jogadas de Lucas e Neymar, torço para a arte, para os dribles e belas jogadas, os belos gols me encantam. Mas os 90 minutos correm rápidos e chega a hora de conversar com a morte.
O Sétimo Selo é uma obra em preto e branco de 1957. Ouvi falar dele a primeira vez quando estava na faculdade, mas os filmes de arte não me seduziam tanto nos anos 80. Entretanto, no último domingo, eu me encontrava sedento para mergulhar na densidade de Bergman e aumentar as dúvidas, obter menos respostas e explorar sentimentos obtusos. A implacável Magra jogando xadrez, a angústia do cavaleiro, a alegria do artista, o temor da população, tudo aquilo eram ingredientes excitantes na sala já escura e com uma atmosfera solitária - minha mulher e filho tinham ido à missa exercitar suas espiritualidades de forma, digamos, mais construtiva.
O Fantástico não teve muita vez no fim do fim de semana. Ao invés disso, li em voz alta o primeiro capítulo do livro de filosofia clínica que havíamos “abaixado” pela Internet no meu micro. Tratava de algumas perspectivas de como um terapeuta interage com seu paciente e começa uma relação levando-se em consideração conceitos filosóficos. Uma preparação para um curso que pretendemos seguir nos próximos meses.
O noite avançou e a segunda-feira não tardaria a chegar. Hora de dormir, mas o sono demorou a aparecer, se arrastou na madrugada. Concluí que deveria ter variado o roteiro, passeado com o cachorro, mexido a carcaça - o corpo exige mais movimentos do que o piscar dos olhos e os batimentos cardíacos. Respirei fundo, suspirei e finalmente adormeci.