Em plena recuperação
Quando estamos bem treinados, correndo ou se exercitando por mais de uma hora ao menos cinco vezes por semana, colhemos os frutos dessa condição: autoestima reforçada, sensação de saúde inabalável e vontade de realizar as coisas. De repente, sempre ele, o inesperado, aparece para nos colocar fora de combate com uma contusão, um pequeno acidente ou uma virose de época.
No meu caso, há duas semanas, após pedalar 35 km na terra com dois bons amigos, já na chegada, a 200 metros do asfalto, uma descida conhecida e uma surpresa desagradável. Quando me dei conta, pimba, estava no ar, com a bike fora de controle e antes que pudesse me preparar para a queda, fui de rosto e costela no chão. Resultado: sete pontos no queixo, esfolados no braço e nas pernas e dores fortes até para respirar ou me levantar, bem como três horas do sabadão no hospital para costurar aqui e radiografar ali.
Todo o esforço dos últimos três meses para voltar a uma forma competitiva e que me deixasse em condições de correr os 10 km em pouco mais de 40 minutos foi por água, ou melhor, terra abaixo. Mudança de planos, desistência de provas, sessões de fisioterapia, anti-inflamatórios e repouso, um dia após o outro. Nessas horas, é preciso ter paciência, não deixar o desânimo tomar conta, aproveitar o tempo antes dedicado aos treinos para algo mais intelectual.Isso mesmo, colocar a leitura em dia, assistir a filmes que estavam na lista e fazer pensamento positivo para a boa e rápida recuperação do corpo. Aprender que tudo leva tempo, tudo tem o seu tempo, e não adianta queimar etapas. Ter prazer em notar a melhora diária, conferir as feridas secando, tirar os pontos, verificar que a costela já não dó tanto ao se levantar ou espirrar, enfim, aceitar a condição de paciente e tirar as próprias lições do episódio.
Em agosto de 2002, estava forte e veloz, treinando rápido para correr pela primeira vez a Meia Maratona do Rio. De repente, um vírus da moda daqueles dias de fim de inverno, que havia derrubado na cama meia Ribeirão Preto, chegou lá em casa pegando primeiro meus filhos e depois minha mulher. Não adiantaram os esforços para evitá-lo e a uma semana da prova, me atingiu em cheio, nocauteando-me por dias de febre e dores.
Quase desisti de viajar, mas resolvi arriscar e seguir para a cidade maravilhosa de nariz entupido, garganta irritada e um pouco de tosse. No domingo da Meia, acordei melhor e após o tiro de largada, já na adrenalina, fui deixando para trás o mal estar e o desânimo. Cruzei a linha de chegada com pouco mais de 1h30min, tempo um pouco acima ao que tinha projetado se não tivesse ficado gripado.
Mas vida de atleta amador é assim mesmo, temos que estar sempre nos adaptando ao planejamento original. Ninguém coloca na planilha descanso de três semanas para curar as feridas do tombo de bicicleta. Além disso, o mundo não irá acabar porque você ficou sem treinar um período. Pensando bem, as dores na costela já diminuíram e quem sabe já não é hora de me inscrever na Meia Maratona de Ribeirão Preto. Já estou sentindo um cheirinho de volta aos treinos ...