San Francisco, mais perto do céu

San Francisco, mais perto do céu

No cume do San Fancisco

No dia 11 de janeiro faltava a cereja do bolo para finalizar a temporada de 10 dias na Cordilheira dos Andes, em pleno deserto do Atacama, a cerca de 280 quilômetros da cidade chilena de Copiapó. Já havíamos subido o Siete Hermanos, próximo a Laguna Santa Rosa, a cerca de 4.800 metros de altitude, e o Mulas Muertas, na casa dos 5.600 metros. E, dois dias antes, tínhamos alcançado a cratera do vulcão Ojos del Salado, a quase 6.800 metros de altura, a montanha que representava o grande objetivo da expedição.

Depois de um dia de descanso em Laguna Verde, cenário de incrível beleza e de um pôr-do-sol quase indescritível, já nos sentíamos devidamente recuperados do desgaste intenso do recente ataque ao Ojos . Afinal, dispúnhamos ali até mesmo de um delicioso banho ao ar livre em águas termais com vista para a laguna e os picos nevados. E naquela altitude de 4.200 metros a quantidade de oxigênio, depois de uma semana na alta montanha, era mais do que suficiente para atender nossa demanda, digamos, regenerativa. Além disso, duas noites enfim melhor dormidas e refeições mais completas nos deixaram sedentos por uma nova montanha acima dos 6 mil metros.

Escolhemos então o Nevado San Francisco, cuja base estava a cerca de meia hora de carro de Laguna Verde. Nossa empreitada dependeria novamente dos humores do tempo, lembrando que na semana anterior havíamos abortado uma tentativa de subir essa montanha em função das condições meteorológicas, optando então pelo Mulas Muetas. Mas naquela manhã o dia amanheceu limpo e convidativo. Pouco depois das 6 horas eu, o Luiz e o nosso guia chileno Mario tomamos um café reforçado – o Haroldo tinha retornado a Copiapó na véspera já satisfeito com a conquista da cratera do Ojos.

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Vestimos nossa indumentária de altitude, inclusive as pesadas botas duplas, arrumamos as mochilas e partimos na camionete cabine dupla 4x4, tão essencial naquela remota região do planeta, de estradas e vias de terra salpicadas de rochas vulcânicas. Como de costume, o Mario ligou o rádio e mais uma vez desfrutamos das lunáticas paisagens do Atacama ao som de clássicos do rock dos anos 80 e 90 intercalados com música chilena. Chegamos à fronteira do Chile com a Argentina, o Paso San Francisco, e viramos à direita. O colosso estava logo ali na frente, uma boa parte da montanha ainda nevada.

Para nossa surpresa, o Mario continuou a subir de carro, dirigindo sobre pedras e contornando obstáculos respeitáveis enquanto sacudíamos desconfortavelmente dentro do veículo. E só “estacionou” acima dos 5 mil metros. Descemos e o vento soprava forte por volta das 7:30h. Mochila, luvas e bastões de caminhada a postos, iniciamos a marcha naquele terreno hostil e sem vida. Nossa intenção era seguir junto, passos cadenciados e lentos para poupar energia na longa jornada, mas logo esse plano se mostrou impraticável: o Mario não sabe andar devagar, o Luiz não queria acelerar e eu acabei optando por fazer o meu ritmo, mais veloz.

Em meia hora atingimos um topo e, curiosamente, descemos para cruzar uma imponente depressão que nos levaria à base do San Francisco. Novamente começamos a subir, agora numa trilha exposta e íngreme, pegando uma grande diagonal que atravessa a face da montanha virada em direção a Laguna Verde. Já distanciados um do outro e, ora na companhia do Mario, ora sozinhos, eu e o Luiz continuamos a ascensão pelas duas horas seguintes, parando uma ou duas vezes para descansar, beber, se alimentar e olhar a paisagem. O importante era que progredíamos, o tempo continuava firme e o cume da montanha parecia cada vez mais próximo.

De fato, em mais uma hora de esforços, lá estava o que parecia ser o topo, uma mistura de cratera com pequenos vales nevados e extremamente bonitos. Mas nada de cume! O interessante do San Francisco foi descobrir que não chegamos seu cume depois de uma lenta e às vezes monótona subida em ziguezague. Ao atingirmos a parte superior da montanha, ainda havia uma ascensão suave atravessando dois pequenos vales nevados. Nesse ponto, o cansaço apareceu, forçando a constantes paradas, a cada 20 ou 30 metros, para respirar fundo e continuar. A localização exata do cume se mostrava confusa, pois ao olhar para os picos próximos ao redor e acima, a cada momento um deles parecia ser o soberano.

 

Tive que perguntar duas ou três vezes ao Mário - quando ele se aproximava vindo de um encontro com o Luiz, nesse ponto já fora do meu campo visual – onde ficava de fato o cume. Quando finalmente o localizei, restava uma última rampa em neve, de baixa inclinação e, ao final desta, uma curva à esquerda quer levaria diretamente ao marco final, a 6.014 metros de altitude. Botei ritmo nas passadas e aproveitei cada segundo daqueles movimentos finais. Uma mistura de felicidade e exaltação, uma saborosa cereja naquele bolo de noiva andino, um mirante como poucos na face da Terra.

O Mario vinha uns 20 metros atrás quando finalmente pisei às 12h50min no topo do San Francisco, seu ponto mais próximo do céu. Levantei os braços em ritual de comemoração, aguardei o Mario e nos cumprimentamos. Ele, muito ciente de suas funções, foi logo retirando as pedras que cobriam uma caixa metálica que continha o “livro de presença”. Enquanto isso, o vento nos fustigava ferozmente mostrando que aquele não era propriamente um ambiente de sala de estar, mas uma alta montanha na qual os elementos se mostram na essência e na plenitude.

Ali estava a Argentina, a perder de vista, uma vastidão sem fim que levava o nada ao lugar nenhum, mas de uma exuberância atroz. E mais à direita, próximos, os gigantes Incawasi, a mais de 6.500 metros de altitude, e o Fraire; separados por um vale onde havíamos caminhado na véspera; no horizonte, na região do Ojos, outras imponentes montanhas e picos nevados; em direção à Laguna Verde e ao posto de fronteira, um skyline da cordilheira com picos nevados, vulcões e esculturas gigantescas esculpidas ao longo dos últimos milhões de anos pelas mãos sábias e implacáveis da natureza e suas forças. Linda sensação! Senti-me ao mesmo tempo um predestinado e um ínfimo grão de areia me comparando com aquela grandeza extrema. “Enfim, obrigado por estar aqui e agora”, pensei com meus botões (e bastões).

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O Mario liberou o livro. Sentei-me ao chão, esperei o vento dar uma trégua, tirei as luvas e escrevi um pequeno e tolo texto, com trocadilhos, agradecimentos e reflexões. Assinei e coloquei a data. Um livro, segundo o guia, assinado por não mais de 30 ou 40 pessoas todos os anos. Feito isso, tirei algumas fotos e fiz uma gravação em vídeo, prejudicada pela força do vento. Aos poucos, ele começou a minar minhas energias, a deixar minhas mãos insensíveis, o que me levou a começar a descer para local mais protegido ou de volta ao carro. Mas antes que eu completasse os primeiros 100 metros, cruzei com o Luiz subindo ao melhor estilo lento e consistente.

Nosso encontro não foi o mais festivo pois havia a expectativa de dividirmos juntos as glórias do cume, algo que não se realizaria com o meu retorno antecipado. Desci mais uns 40 metros e me arrependi, dei meia volta e comecei a subir de volta ao cume, quase correndo. Foi o bastante para alcançar pela segunda vez o topo do San Francisco, trocar um abraço mais efusivo com o Luiz e gravar o momento em que ele assinava, incentivado por mim, o livro de presença (ato posteriormente “criticado” pela mulher dele, a Gláucia, advogada da mais atentas às circunstâncias e às letras da Lei, já que nem a 6 mil metros seria prudente que o marido assinasse um documento sem antes ler e analisar por completo seu conteúdo...).

A descida se deu inicialmente de forma afoita já que o Mario temia que perdêssemos o horário de cruzar a fronteira no caminho de volta a Copiapó naquele mesmo fim de tarde. Ele acelerou e eu atrás, confiando na estabilidade das botas duplas e no apoio dos bastões para não alçar vôo nas rampas e encostas em que deslizávamos. Não deu outra. O Luiz, ainda na parte superior da montanha, perdeu o equilíbrio e foi ao chão, mas por sorte não se machucou pra valer. Decidimos então tirar o pé e, caso chegássemos após o tal horário, dormiríamos mais uma noite em Laguna Verde. Aproveitamos então a velocidade segura e algumas paradas para registrar mais imagens do descenso, sem pressa, sem neuras, e ainda cruzamos um alemão solitário subindo a montanha naquele horário pouco adequado – os ventos, segundo o Mario, podem açoitar no período da tarde.

Em pouco mais de duas horas descemos a grande diagonal, cruzamos a depressão, subimos novamente para o vale e saltitamos pelo mar de pedras e rochas até o carro. Logo mais estávamos em Laguna Verde para comer e tomar uma cerveja comemorativa.

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Nesse momento o destino mostrou suas sutilezas. Desde nossa chegada a Laguna Verde, a gente se divertia debochadamente com uma notícia lida num jornal, encontrado no acampamento, que divulgava um curioso recorde mundial: um japonês ficara 18 horas seguidas se masturbando – o detalhe é que fazia isso em frente à mãe e a seu gato.

Diante do ineditismo da notícia, zombávamos do nosso guia e do pessoal de apoio em Laguna Verde, o Hernan e o cozinheiro Miguel, que o tal japonês apareceria de repente no acampamento para tentar bater o próprio recorde em altitude, e que para isso precisaria de certo apoio logístico. E não é que quando comemorávamos com uma cerveja a chegada ao cume do San Francisco nos aparece à entrada do refúgio-cozinha um legítimo japonês, nacionalidade até então ausente de Laguna Verde. Como estávamos de partida para a civilização (Copiapó) minutos mais tarde, desejamos marotamente aos que ficavam sorte e dedicação no suporte ao japonês e na sua esperada tentativa de quebra de recorde onanístico nas alturas ...

Os dias passados em Laguna Verde renderam outras boas histórias. Em primeiro lugar, valia o desafio de se comunicar em português, inglês e espanhol quase que simultaneamente, dependendo do freguês. Às vezes, na mesa do jantar do refúgio, apesar do escasso oxigênio irrigando o cérebro, conversava em português com o Haroldo ou Luiz, virava a cabeça para falar em espanhol com o Mario e o Hernan, e de novo trocava a chave para dialogar em inglês com austríacas, canadenses e suíços. Em relação a esses últimos, descobri um grupo no qual um deles havia completado 60 anos no final de 2011. Para comemorar, esse pacato cidadão não achou nada mais interessante do que subir 60 montanhas acima de 6 mil metros num prazo pouco maior do que um ano. E a empreitada só estava começando. E tem gente no Brasil que me considera um pouco insano, sendo que eu só escalei até hoje cinco montanhas acima dos 6 mil metros.

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Depois de quatro horas de viagem na camionete a Copiapó, encontramos o Haroldo e encerramos nossa jornada em alta montanha no Chile nesse início de 2012. Tínhamos pela frente mais alguns dias de descanso, praia, restaurantes, bares e diversões consideradas mais turísticas e urbanas, tanto na região de Copiapó quanto em Santiago, mas isso já são outros quinhentos ... San Francisco vai ficar com muito carinho e saudade no coração e nas lembranças como uma memorável viagem pelas montanhas do Atacama andino.

 

 

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