Emoções olímpicas
As Olímpiadas de Londres já se foram. Os próximos jogos, dizem, acontecem daqui a quatro ano, no Rio. Depois de duas semanas de fortes emoções, fica um pequeno vazio, mais uma prova cabal da passagem do tempo, do ritmo da vida, do envelhecimento.
Desde criança, passei a contar o tempo em função das Olimpíadas e de Copas do Mundo, realizados de quatro em quatro anos. Sabia a data de realização, o local e algo surpreendente que ocorrera em cada um destes eventos. Um verdadeiro jogo de memória e de imaginação, investigando e sentindo as emoções de cada edição.
Construía imagens do Barão de Coubertin idealizando o retorno dos Jogos e o espírito olímpico, bem como o corredor e pastor de ovelhas grego (e não de alma) Spirídon Louis vencendo a maratona em 1896. Em 1908, em Londres, a prova ganharia sua distância atual de 42.195 metros justamente para passar em frente ao Palácio de Buckinghan e ser vista pelos netos do rei Eduardo VII.
Os Jogos de 24, em Paris, ganharam uma dimensão épica com o filme “Carruagens de Fogo”, que mostra a vitória do judeu inglês Harold Abrahams nos 100 metros rasos e a polêmica e contradições entre o amadorismo e o profissionalismo. Também em 24 e em 28, em Amsterdan, o Tarzan Johnny Weissmuller brilhou nas piscinas. Em 36, em Berlin, Jesse Owens calou os nazistas com quatro medalhas de ouro e obrigou Hitler a deixar o Estádio, inconformado com a “inferioridade” ariana, e isso para mim sempre foi absolutamente marcante.
A guerra interrompeu dois ciclos olímpicos, mas voltou em 48 trazendo a locomitiva tcheca Zatopeck para inesquecíveis vitórias nas provas de fundo em 48, em Londres, e 52, em Helsinque, quando venceu os 5 mil, os 10 mil e a maratona, algo inédito até hoje. Abebe Bikila surpreendeu o mundo em 1960, em Roma, vencendo a maratona descalço, tornando-se bi na prova em 64, em Tóquio, desta vez vestindo um tênis. Em 68, no México, Mark Spitz não brilhou, guardando suas sete medalhas de ouro para serem conquistadas em 72, em Munique, ofuscadas pelo terror do Setembro Negro.
As Olímpíadas de 80, em Moscou, e 84, em Los Angeles, foram marcadas pelos boicotes da Guerra Fria, mas ninguém me tira da cabeça o ouro de Joaquim Cruz nos 800 metros percorridos em 1min43, e Ricardo Prado levando a prata nos 400 medlley. De 88, em Seul, quando Ben Johnson foi pego no doping após derrotar Carl Lewis, para cá, as transmissões ganharam mais qualidade e já podíamos assistir a tudo ao vivo, a principais competições, ídolos, disputas e quebra de recordes.
Em 92, em Barcelona, vi Gustavo Borges em ação ganhando duas medalhas. E pulei como nunca no sofá vendo Tande, Giovane, Carlão, Mauricio, Paulão e Marcelo Negrão conquistando o ouro no vôlei. Depois vieram Atlanta, em 96, e Sidney, em 2000. Amante das provas de natação que sou, não tirei o olho da TV para ver astros como o russo Alexander Popov, o australiano Torpedo e o holandês Peter Van den Hoogenband.
Depois, em Atenas 2004, Pequim 2008 e Londres 2012, brilharam os fenômenos Michael Phelps e o corredor Usain Bolt, este nas últimas duas edições. E, claro, ganhamos várias medalhas no vôlei, na praia, no iatismo e no judô. No vôlei dos meninos, faturamos o ouro em Atenas e “amargamos” a prata em Pequim e Londres. Mas as meninas do Zé Roberto garantiram o ouro nas duas últimas edições. E houve também a Maurren Maggi, no salto em distância, e o César Cielo, nos 50 metros livre, em 2008, e várias outras conquistas para um país que ainda engatinha no seu potencial olímpico.
Torcer a distância, pela televisão, também é uma atividade esportiva. Alguns esportes realmente mexem com a gente, nos tiram do sério. Parece que estamos nós mesmos ali na piscina, no estádio ou na quadra. Às vezes, sinto-me como se fosse o próprio atleta, pois fico tão ou mais ansioso do que ele. No jogo entre Brasil e Rússia, no vôlei feminino em Londres, no quinto set, mudei de canal as seis vezes em que a Rússia teve o match point. Um ritual que ajudou a virar o jogo, ou seja, no fundo, se eu não tivesse trocado de canal na hora, possivelmente o Brasil teria perdido, penso eu.
Na prova dos 400 metros medley em que Thiago Pereira levou a prata há duas semanas, de tanto gritar, socar o ar e pular, acabei assustando uma sobrinha na sala, espantada com minha enérgica torcida. Mas como disse um amigo, se há tantos atletas e modalidades em disputa, alguém precisa ficar de plantão assistindo às provas ao vivo, e eu fiz o possível com minha agenda para ver o máximo que dava, pela manhã, às tardes, e as reprises e mesas-redondas à noite.
Emoções são importantes para oxigenar nossa existência, fazer o coração saltar, o sangue se empolgar! E as Olimpíadas, em vários canais, ou mesmo na Internet, sabem oferecer um cardápio completo de alegrias, surpresas, tristezas, decepções, atos de heroísmo e imagens de incrível beleza. Eu gosto! Mas agora já passou, só daqui a quatro anos, ou dois, dando continuidade à minha linha do tempo baseada em Jogos Olímpicos e Copas do Mundo ...