Entre a denúncia inconsequente e a apuração dos fatos
Quinta-feira, 24 de setembro, cinco e meia da tarde. Toca o telefone, é um jornalista de um importante portal de notícias, em viagem de apuração no interior paulista, querendo repercutir com um de meus clientes da área sucroenergética um assunto pra lá de espinhoso: o uso de crack por trabalhadores rurais supostamente interessados em aumentar o desempenho no corte manual da cana.
O horário não era dos mais adequados para se conseguir uma informação completa e validada, mas felizmente a matéria estava programada para o final de semana e havia tempo para se trabalhar até o dia seguinte. A pauta viera à tona na mesma semana após a veiculação inconseqüente de um levantamento, e não de um estudo minucioso e criterioso, feito por um grupo de deputados estaduais a respeito do uso do crack nos municípios paulistas.
A partir de palavras mal colocadas e interpretações equivocadas, parte da imprensa paulistana pouco afeita ao que ocorre hoje nas usinas de São Paulo chegou a veicular notícias de que cortadores de cana sem registro em carteira, sendo alguns menores de idade, estariam fumando crack para vitaminar suas performances no canavial, atuando diariamente por até 14 horas seguidas, com o podão na mão, para ganhar mais uns trocados por produção. E o pior: com o consentimento e, vejam só, até mesmo com o estímulo de alguns usineiros.
Algo no mínimo degradante e criminoso! E foi com esse tipo de informação na cabeça que o jornalista desembarcou justamente numa cidade onde meu cliente possui uma unidade produtiva. E o jornalista queria agendar uma entrevista a ser gravada em vídeo ainda na sexta-feira, dia 25. Colocar o cliente à frente de uma câmera estava fora de questão, mas então o que fazer para evitar a veiculação de uma notícia com evidente potencial de repercussão negativa?
A resposta: com informação, seriedade e um choque de realidade. Isso porque primeiramente, a própria experiência do repórter na cidade visitada mostrou que a situação não era como a pintada pelos deputados. Claro, o crack representa uma chaga social, que não escolhe vítimas ou regiões. Hoje, todo o Brasil enfrenta essa praga, são milhares de famílias sofrendo com parentes viciados, ou seja, a droga não é exclusiva desse ou daquele Estado, desse ou daquele setor da economia.
Buscando personagens, o repórter encontrou trabalhadores e ex-trabalhadores rurais em tratamento, mas esses reforçaram que o uso do crack não se dá para trabalhar, mas exatamente o contrário, o consumo acontece fora do expediente – nenhum usuário se sente estimulado para fumar uma pedra e sair cortando cana por aí, um serviço reconhecidamente cansativo. E quando foi ao campo na sexta-feira, sem prévio aviso, o repórter viu as frentes de trabalho com os devidos equipamentos: ônibus com toldo para proteção contra o sol, mesas e cadeiras para se fazer as refeições na sombra, água gelada disponível, banheiro, etc – enfim, nenhum menor de idade, todo mundo registrado e nada de droga na lavoura.
Para completar, colocamos o jornalista em contato por telefone com o porta-voz da entidade que representa as usinas. Assim, esse esclareceu dúvidas, apontou incongruências e passou informações sólidas e contundentes sobre o atual cenário das usinas paulistas, os avanços obtidos em diferentes aspectos de responsabilidade social e sustentabilidade. E até completou: “Se você ou algum deputado informar onde há menores de idade trabalhando no corte manual da cana, e ainda mais sem registro em carteira, eu mesmo chamarei a polícia e irei acompanhar o flagrante”.
De nossa parte, informamos ao jornalista através de email sobre a atual situação de nosso cliente: cerca de 85% de corte mecanizado da cana, número que chegará a 100% até 2014 nas áreas mecanizáveis; os benefícios aos funcionários (todos devidamente registrados e sem terceirização), como planos de saúde e odontológico, campanhas de vacinação, palestras informativas contra drogas, alcoolismo e tabagismo, etc.
A matéria foi veiculada na segunda-feira, dia 26. O repórter saiu da capital com um paradigma na mente e voltou com informações apuradas. O texto se ateve, sim, aos dramas pessoais e às dificuldades de tratamento a usuários de crack, mas em nenhum momento escorregou para o sensacionalismo ou para afirmações sem fundamento, como parte da imprensa deixara ocorrer por simples falta de apuração dos fatos. Pelo contrário, a matéria mostrou o quanto nós, como sociedade, precisamos nos empenhar para deter o avanço do crack, um mal generalizado e muito longe de ser um subproduto do setor sucroenergético.
As informações passadas pelo porta-voz da entidade e da nota por nós enviada também foram publicadas, deixando o leitor do portal devidamente a par da realidade. Cabe ao jornalismo apurar fatos e denunciar mazelas, mas não alimentar mitos. O senhor de engenho escravista é coisa do passado, hoje os problemas e desafios são outros, mais complexos e próprios de um setor que se modernizou e ajuda o Brasil com empregos, economia de divisas, geração de impostos, investimentos em tecnologia, melhorias ambientais e um combustível verde.