Entre escrever e ser lido
Escrever é um ato milenar que inspira alguns, aterroriza outros e mexe com todo mundo que se aventura nesta empreitada. Sentar, organizar os pensamentos de forma lógica, digitar e comunicar alguma coisa, contar, opinar, extravasar, sentir. Trata-se de um belo desafio, cada vez mais difícil de encontrar leitores e interessados, ao menos para os menos talentosos, pouco ousados, não tão criativos e quase anônimos.
Vivemos hoje em meio a um turbilhão de informações e opções disponíveis de conteúdo e afazeres. Digamos que até o século XIX quem escrevia não sofria tanta concorrência, embora o analfabetismo fosse proporcionalmente maior naqueles tempos. Hoje, com o rádio, o cinema, a TV e a internet, reter a atenção de um cristão para ler alguns parágrafos representa tarefa considerável. Milhares possuem blogs, milhões se expressam pelo twitter e pelo Facebook, mas de maneira sintética, telegráfica – quem tem tempo, curiosidade ou prazer de gastar preciosos minutos interpretando longas sequências de palavras, frases e períodos? Não sei quantos são – a indústria do livro continua a crescer -, mas certamente são bem disputados.
Quando folheamos jornais e revistas, ou passamos o mouse em sites informativos, nosso foco se volta para o título, para a foto, chamada ou legenda. Se temos um pouquinho de tempo, aplicamos uma leitura dinâmica, ou nos concentramos apenas no primeiro parágrafo, para se certificar se realmente interessa. Bem, quando nos sentimos atraídos pelo tema, o telefone toca, alguém nos chama, o relógio e a consciência avisam que estamos atrasados. Deixamos então para depois e, então, bye, bye leitura.
Desta maneira, concluo que quando rabiscamos algumas idéias, temos que escrever para nós mesmos, não para os outros. Pelo simples fato de poder não haver “outros”, ou eles serem próximos de zero. Não que você, leitor - obrigado pelo prestígio - , não seja importante. Obviamente é! Pode ser um só, se chegou até aqui após quatro parágrafos e 1.900 caracteres, já representa um valente, um cavalheiro, já que poderia estar lendo , vendo, ouvindo ou fazendo 900 milhões de outras coisas.
Deixemos você, leitor, momentaneamente de lado. Concentro-me agora em mim mesmo. Já que vou gastar meu também precioso tempo escrevendo, que seja algo não burocrático, que venha da alma, que tenha graça, que faça algum sentido ou não, mas que satisfaça seu autor, deixando-o melhor do que estava quando começou o texto. Se conseguir levemente atingir um mísero estado de graça após o ponto final, já terá, sem cena, valido a pena . Se, além de tudo, ainda conseguir leitores, que bônus precioso!
E, além disso, se o amontoado de linhas gerar alguma pequena emoção que for neste leitor, aí sim já é uma consagração. De repente, um vira dez; dez se transformam em 100, e já me sentirei gente grande. Mas deverei continuar a escrever para o eu-leitor, não para você, pois quando (ou se) isso acontecer, estarei preocupado com diferentes gostos e opiniões, tentarei agradar, vou me perder, ser burocrático e desinteressante, voltando a escrever somente para mim mesmo, me anulando e abraçando a mediocridade. Esquisito, não?
Não sou Reinaldo Azevedo, não sou Paulo Henrique Amorim e nem Juca Kfouri ou Leticia Bighetti! Não tenho Facebook, nem tão pouco twitter. Escrevo para a mim mesmo com a esperança de um dia ser honesto, sensível e competente o suficiente para dizer coisas que batam de verdade no coração, que façam alguma diferença para alguém, entre 900 milhões de opções, parar por alguns minutos e ler o que vai escrito na telinha. É mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha que um pobre de espírito entrar no reino dos céus da audiência digital ...