Filosofia  Clínica e o Kuarenta Euhm

Filosofia Clínica e o Kuarenta Euhm

Tenho estudado um pouco de Filosofia Clínica nos últimos meses. Quem tiver algum interesse pode conhecer um pouco mais sobre este assunto em www.filosofiaclinica.com.br. Pois bem, são aulas mensais com um sujeito fora de série, o professor e filósofo clínico Lucio Packter. Ele pediu que eu levantasse (e escrevesse) a minha historicidade, que nada mais é que um resumão da vida, do qual é possível extrair informações para analisar e discutir o comportamento, estilo, angústia e visão de mundo.

Pois bem, para complementar esta historicidade, acrescentei um texto que elaborei no dia em que completei 41 anos (faz tempo ...): chama-se “Kuarenta Euhm”. O professor Lucio gostou do conteúdo e leu boa parte do mesmo pela rádio via web para centenas, ou melhor, milhares de ouvintes em todo o Brasil. No dia seguinte, até me pediram permissão para publicar o tal texto num jornal.

Assim sendo, sem esconder minha satisfação com o inesperado interesse por “Kuarenta Euhm”, tirei-o dos arquivos empoeirados do computador para compartilhá-lo com vocês, leitores deste blog:

Kuarenta Euhm

Aos quarenta e um, um homem já fez praticamente tudo o que na vida há importância. Enfim, foi herói na infância, sonhador na adolescência, na juventude buscou sua essência e empolgou-se com referências, depois perdeu a inocência e, como adulto, acreditou na ciência, sacudiu sua existência e estabeleceu sua descendência;

Aos quarenta e um, um homem já provou quase todos os sabores do paladar terrestre: viajou para muitos países, fincou raízes, subiu montanhas, fez muita manha, participou de competições, ganhou medalhas e saltou muralhas, se embebedou, perdeu a razão, voltou a ser são, teve muitas mulheres, lambeu colheres de goiabada, de macarronada, saboreou os melhores pratos, deliciou-se com os momentos insensatos, andou descalço na areia, ouviu rock and roll na veia, se divertiu com os amigos, zombou dos inimigos;

Aos quarenta e um, um homem orgulha-se por ainda ter o amor da mulher que está ao seu lado há vários anos; fica feliz por estar apaixonado, de não tê-la abandonado ou por não ter sido chutado dez anos antes, pois adiante sofreria arrependido com uma substituta certamente menos arguta e mais biruta, sem força para ir à luta;

Aos quarenta e um, um homem já está praticamente preparado para a morte, mas com sorte deseja ainda acender muitas velas, viver mais quarenta primaveras deveras sinceras e sem grandes mazelas; sim, antes de vir a óbito, deseja entrar em órbita, antes de cruzar a linha mórbida, quer ter direito a réplica, dar um último ósculo nesta vida errática, um adeus cinematográfico e lunático ao século e ao vernáculo proparoxítono desta existência dramática e única;

Aos quarenta e um, um homem tem obsessão por seus filhos, almeja que sigam nos trilhos, com muito brilho, que tenham um porto seguro no futuro, que não fiquem no escuro, que saibam a hora de pular o muro sem levar aqueles murros; filhos, melhor tê-los, e sabê-los íntegros, preparados, entusiasmados, vencedores e sem as dores que a vitória sempre reserva aos titulares nos momentos mais singulares;

Aos quarenta e um, um homem se olha no espelho e sabe que vai ficar velho; o tempo é sabidamente sincero, um contundente elo entre o ontem e o nunca, esta espelunca de temores indesejáveis; a pele já não é tão saudável, é mais que provável que as manchas tomem conta de toda sua superfície, às vezes isso é uma chatice, os cabelos brancos já estão em todos os cantos, mas existe ainda uma poderosa e prazerosa força, e por mais que alguém torça, não vale a pena voltar aos vinte, isto seria um acinte, um retrocesso, uma caminhada ao inverso;

Aos quarenta e um, um homem olha sua conta no banco e verifica que poderia ter mais um tanto; afinal, dinheiro é garantia contra terceiros, remédio para a classe média, mas é papel que não compra seu lugar no céu, financiador de nossos merecidos caprichos: carros, viagens e um pouco de luxo, é importante dar a ele seu devido valor, uma declaração de devoção sem amor, um recurso para segurar as pontas, pagar as contas hoje, amanhã e na década que vem, amém;

Aos quarenta e um, o homem quer ler os clássicos, ir um pouco mais fundo para deixar de ser tão básico, entregar-se a Machado de Assis, Oscar Wilde e a Tolstoi, imergir na síntese humana com a consciência que isso dói, mergulhar nas profundezas com Philip Roth, encurralar aprópria existência, ser autêntico em território subconsciente;

Aos quarenta e um, um homem se preocupa com seus irmãos, quer poder estender a mão e deles sempre receber uma ligação, sente prazer na contribuição, no ato da boa ação; quer continuar a ter o privilégio de ver os pais todos os dias, usufruir desta verdadeira terapia, apenas conversar e fazer companhia, contar como foi o dia e ouvir de sua biológica matriz cada detalhe do que diz, permanecer um alegre aprendiz neste ninho ainda feliz, a escutar, a observar, a relembrar e a pedir bis

Aos quarenta e um, um homem abre os olhos para os pecados capitais, em particular com a inveja, que volta e meia viceja, espreita, tenta seduzir, nos fazer desejar aquilo que é desnecessário, nos empurra rumo ao calvário, ou com a cobiça e a preguiça, dupla ardilosa que enguiça nosso senso de bondade e de solidariedade; o mal arde, persuade, nos faz agir como um covarde, mas a sabedoria aos poucos recupera o espírito, oxigena o senso crítico e o coração bate em alegria

Aos quarenta e um, o homem quer ser menos ateu, que ver alguma alternativa depois do breu, após um prudente diagnóstico, pensa em proclamar-se um agnóstico, um degrau acima na escada da esperança, uma lança de incerteza que perfura o escuro do futuro, um furo de luz que reluz naquilo que nos é mais forte, o receio da morte, a extinção física, a transformação do porte outrora atlético em um vulto esquelético;

Aos quarenta e um, um homem aprende que chorar é importante o bastante, que lágrimas também são másculas e aliviam lástimas, sossegam a alma, fazem o horizonte ficar mais colorido, o reflexo da face mais bonito, a primavera mais florida, a vontade mais aguerrida; os soluços tornam-se impulsos, qualquer solução entra em curso, a rotina cretina da retina ilumina a colina escondida atrás da cortina, que é aberta para desenhar uma longa linha reta;

Aos quarenta e um, o homem sabe identificar o verdadeiro sentido da felicidade, estado que não depende da cidade nem do país, mas da atriz e de cada cicatriz do passado; o homem sabe aproveitar um vinho, ser um bom vizinho, apreciar um filme com carinho, dar risada de uma boa piada, mergulhar e dar braçadas na piscina azulada, correr com sol, chuva ou vento, emocionar-ser com uma leitura, acreditar no poder da cura, respirar e bater no peito: vivo sim, e isso para mim está longe do fim;

Parabéns, Kuarenta Euhm!

22/10/07

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