Fragmentos do Ibirapuera
Quatro semanas após o acidente de bicicleta, resolvo sair para correr no Parque do Ibirapuera. Já não agüentava mais o repouso forçado. Os pontos no queixo e os esfolados já eram, a costela e no pulso direito ainda doem mas não impedem a tentativa de reinício dos treinos. É sábado, dia 10, véspera dos 10 anos do 11 de setembro. São Paulo tem uma manhã fria, cinza e nublada, um convite tentador depois de uma semana desértica e esfumaçada em Ribeirão Preto. Hora de partir.
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Deixo a pé o apartamento nos Jardins, a cidade está tranqüila e logo encaixo um trote confortável. Cruzo a Brigadeiro Luis Antonio na altura do Pão de Açúcar, sede do conglomerado varejista e de onde frequentemente chegam e saem modernos helicópteros Agusta com um Diniz a bordo. Em dois minutos, alcanço a Rua Manoel da Nóbrega, bem em frente à sede do antigo II Exército. Sempre que passo por ali fico imaginando como foi o atentado a bomba de 1968 promovido pela organização (VPR) a que pertencia nossa atual presidenta. Mandou pelos ares o pobre sargento Mario Kozel, que virou nome de rua que margeia o quartel.
Já não sinto mais frio e nem penso mais sobre a luta contra a ditadura. Extremistas de esquerda e de direita que fiquem no passado! Afinal, à minha esquerda encontra-se o Ginásio do Ibirapuera e à direita um espichado edifício onde morou algum tempo o amigo, colega de faculdade, ator, cabeleireiro, astrólogo, DJ e artista Marcelo Dalarosa. Do primeiro, me vêm à memória o show da banda The Cure que lá assisti em 1986 e também a partida de vôlei da Liga Mundial de 1993, na qual torci em verde a amarelo pelos nossos heróis e campeões olímpicos de Barcelona 92: Mauricio, Tande, Marcelo Negrão, Carlão, Giovani e cia.
Do segundo, o apartamento do Dalarosa, chegam-me lembranças de uma festa muito louca, de pessoas se divertindo, rindo e ouvindo boa música de uma sala toda envidraçada, da qual se enxergava a grandeza e imponência do Parque do Ibirapuera, fundado em 1954 e que, em tupi-guarani, significa “aquilo que foi árvore” (Ibira = árvore e puera = que já se foi).
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O ritmo da corrida aumenta, algo como 10,5 km/h. Viro à esquerda e passo em frente à Assembléia Legislativa de São Paulo. Daquele palácio, em 1988, parti de ônibus como integrante da Caravana pela Paz, pelos Direitos Humanos e contra a Pena de Morte no Chile. Então estudante de jornalismo da USP, integrei-me a um grupo de esquerdistas brasileiros, de todas as matizes possíveis, para protestar contra o ditador Pinochet em Santiago. Claro que os carabineros não nos deixaram passar pela fronteira entre Argentina e Chile – daquela longa viagem com inúmeras experiências, recordo-me do sufoco que passei dias a fio naquele ônibus fechado e repleto de comunistas que fumavam sem parar ...
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Apesar de ser São Paulo, o ar que respiro é infinitamente melhor do que o da tal caravana esfumaçada. Cruzo a avenida em frente à Assembléia e adentro no Parque, em frente ao Museu Afrobrasileiro. Depois de dois minutos de alongamento, zero o cronômetro e começo a correr novamente, agora a 11 km/h, seguindo a trilha que faz o perímetro do Ibirapuera. A costela não dói, mas avisa que está lá . Contorno o lago, pego um trecho de asfalto e em seguida, mais uma vez, a trilha de terra, vendo à minha direita, através das grades, a Av. República do Líbano.
O clima agora é de um bosque que contrasta com os carros que vão e vêm do lado de fora. Passo por outros corredores. Me divirto com aquele imenso playground tão bem aproveitado pelos paulistanos que pedalam, andam de patins e bicicleta, caminham e conversam. Centenas, milhares deles. Aquela diversidade me fascina: magros, gordos, altos, baixos, brancos, negros, japoneses, crianças, adultos, velhos, heterossexuais, gays, ateus, católicos, crentes, judeus, falantes, calados, feios, gostosas, exibidos, modestos, felizes, ansiosos, vivos ... O que será que tanto falam? O que será que tanto pensam? O que será que tanto sentem?
De repente, me desvio de um sujeito careca até as orelhas, mas com longas tranças rastafari até as costas. Pedala uma bicicleta incomum: a roda da frente possui dois metros de diâmetro, a de trás é normal. Lá de cima da geringonça ele se equilibra sem dificuldades, apenas gira os pedais e segue em frente sua trajetória, sua vida ... Adoro ver e sentir tudo aquilo, uma sensação de alegria me invade a alma por estar ali naquele momento, absorvendo cada sensação daquela sopa cultural temperada com milhares de pessoas dividindo um espaço público sem muros e temperos segregacionistas.
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O perímetro do Ibirapuera soma quase 6 km, dos quais já corri quase a metade. Sigo em velocidade de cruzeiro, passada a passada, desviando de buracos e raízes (cruz credo uma torção involuntária do tornozelo). A respiração prossegue ritmada, sem cansaço, o suor umedece a testa, os sentidos permanecem atentos, a mente trabalha sem freios. Dizem que a Daniela Cicarelli também corre com frequência no parque, sonho então encontrá-la logo ali, ultrapassá-la na curva.
Passo então por ela, mas não dou confiança nem viro o pescoço. A Cicarelli então me pergunta: “Você corre sempre por aqui?”. Eu respondo: “Não, só de vez em quando, moro em Ribeirão Preto”. E ela: “Puxa, às vezes viajo para lá. Me dê seu celular, quando eu for pra Ribeirão te ligo pra gente correr junto”. Digo então meu número para a ex-Ronaldo Fenômeno e acelero o passo, deixando-a para trás. Ela, esperançosa, silhueta perfeita, lábios carnudos, olhos brilhantes, ainda ajeita a camiseta dryfit suada para baixo realçando o decote na esperança que eu me vire para dar uma última olhada, mas ignoro.
A Daniela ainda grita de longe: “Vou te ligar, a gente faz um longão de 20 km no canavial, OK?”. As palavras se perdem no ruído do parque ... Imagino que meus amigos não vão acreditar quando eu contar essa história da Cicarelli ...
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O contorno do Ibirapuera avança, a Rua Quarto Centenário já ficou na retaguarda, suspiro, sinto os benefícios da endorfina salpicando na corrente sanguínea, ninguém me ultrapassa. Vejo o Pavilhão da Bienal. Há 25 anos, invadi o local pela manhã depois de uma noite errante, etílica, de festa. Acontecia lá a Bienal do Livro de 1986, aproximei-me meio trôpego de um estande no qual uma linda e fascinante jovem de olhos verdes trabalhava. Conheci-a da faculdade. Balbuciei um ou dois gracejos, a fala mole, as palavras desconexas, a cantada mal feita, uma noite sem dormir. Ela me botou pra correr, mas não por muito tempo. Estava escrito nas estrelas que escreveríamos um livro juntos. Aliás, essa semana completamos 25 anos de namoro e relacionamento, com incontáveis capítulos que renderiam um jabuti ...
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Acelero, vou a 12 km/h, desafio a costela anestesiada pelos bons sentimentos. Lá fora enxergo o Obelisco que cutuca as nuvens, mas lá embaixo, num memorial, está enterrado um tio-avô, tombado na Revolução Constitucionalista de 32. Morreu numa guerra que não era sua, digo a mim mesmo que ainda preciso visitar seu túmulo. Adiante, à esquerda, observo a marquise - onde o maníaco do parque andava de patins e o Paulo Borges realizava a São Paulo Fashion Week - em obras, e também o Auditório Ibirapuera – onde ainda não vi nenhum espetáculo - e também a Oca, palco de fantásticas exposições já visitadas, como a do Corpo Humano.
A volta termina, o cronômetro marca 29 minutos, quero correr mais. Cruzo o parque por dentro, trotando, em busca da pista de pedriscos com 1,5 km de extensão debaixo de grandes árvores. Passo pelas quadras, gente jogando bola, futebol e basquete. Avôs andam de mãos dadas com as netas, madames desfilam roupas esportivas de grife, o menininho japonês aprende a andar de bike com a ajuda do pai, um casal namora alegremente no banco, uma mulher passeia com o cachorro e limpa com um plástico o cocô deixado pelo seu animal de estimação, um senhor vende água de coco, a vida vibra no Ibirapuera ...
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Corro duas voltas na pista de 1,5 km e paro para beber água no bebedouro central. Penso então nas três Maratonas de São Paulo que corri tendo o parque como a estóica linha de chegada. Ao contrário do cachorro, dou uma passada no banheiro recém-reformado do parque e me dirijo a uma das estações de exercícios do trajeto. Não tenho sucesso em minhas tentativas: a costela dói para fazer barras, o pulso me tortura ao segurar os halteres. Me resta então o alongamento, a flexão do cérebro, o abdominal dos sentidos. Olho o relógio, o cronômetro indica que já fiz mais de 1 hora de atividade, física e sensorial. Está bom, estou de volta, a carcaça ainda pulsa, diria Arnaldo Antunes ...
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Hora de voltar para o apartamento, o Ibirapuera e São Paulo mais uma vez me apaixonam. Lembro do filósofo René Descartes e faço uma pequena adaptação: “Penso, logo corro. Corro, logo existo”.