Infância corrida

Infância corrida

Não existe uma idade adequada para começar a correr. Conheço ex-sedentários fumantes que mudaram de vida aos 40 e aos 50 estavam completando a maratona em 3h30min ou, em casos mais extremos, gente que passou a treinar aos 60 e, cinco anos depois, disputavam provas de Iron Man. Ou seja, qualquer hora, depois de uma avaliação médica, é hora para colocar o tênis nos pés e dar início a uma rotina mais saudável de vida, já que a prática da corrida leva naturalmente a melhores hábitos de alimentação e sono.

Eu me incluo no grupo de pessoas que já na infância aproveitava para percorrer qualquer distância no menor tempo possível. Na escola, na colônia de férias, na fazenda ou na praia, fazia parte daqueles pequenos pentelhos que olhavam um ponto distante e gritavam: o último a chegar lá é mulher do padre! E saíamos todos em disparada! E assim já no Colégio Loyola, de Belo Horizonte, ganhei minhas primeira prova de resistência. E na colônia de férias Paiol Grande, em São Bento do Sapucaí (SP), bem embaixo da Pedra do Baú, venci aos 14 anos a tradicional Corrida das Lanternas, disputada à noite e com cerca de 3 km de distância.

Mas da infância a prova que guardo no coração é a Corrida dos Eucaliptos. Nos anos 70, passávamos sempre as férias de julho na fazenda que meu avô possuía em Ribeirão Preto e até hoje ainda está nas mãos da família. Tios e primos reunidos, caminhávamos entre pomares e cafezais morro acima até um pequeno bosque de eucaliptos quase no extremo da propriedade. De lá, dávamos o tiro de largada e desembestados corríamos até a exaustão, o que invariavelmente era antes da linha de chegada, situada bem no portão da casa principal da fazenda, onde os parentes mais sedentários aguardavam curiosos a chegada da ala mais esportiva da família.

Calculo que fizemos dezenas de edições da Corrida dos Eucaliptos ao longo de ao menos 15 temporadas de julho – com o tempo, o cafezal foi substituído pelo canavial que modificou o trajeto, os primos cresceram, os eucaliptos minguaram e a nova geração de junqueiras não manifestou interesse em manter a tradição. Mas nos bons tempos medimos o percurso em 2,3 km e estabelecemos nossos recordes pessoais que a cada mês de julho buscávamos superar.

As melhores disputas eram feitas aos sábados ou domingos, quando nossos pais e tios chegavam de viagem após a semana de trabalho em cidades distantes. Meu pai era o mais animado e conclamava a todos os irmãos, cunhados e sobrinhos a participarem do evento. Chupávamos laranjas lima no pomar e em seguida andávamos em pequenos grupos, com corredores dos 5 aos 50 anos, para mais uma alegre e disputada confraternização. Lá em cima, no local da largada, todos de prontidão, um, dois, eeeeeeee..... JÁ!!!

Nos lançávamos em carreira pelo retão, descíamos desgovernados à esquerda pela longa descida do cafezal e virávamos à direita, já completamente sem fôlego, na reta do pomar. E aí, novamente à esquerda na descida das pedras para atingir a reta do açude e, por fim, à esquerda, a reta final do terreiro. Uma gostosa e poeirenta sensação olímpica nos tomava a alma, principalmente os garotos que sonhavam um dia correr para a glória, como no premiado Carruagens de Fogo, filme dos anos 80.

Um dia decidimos registrar a prova para a posteridade. Meu pai, de posse de sua filmadora Super 8, arrebanhou um grupo de 15 “atletas” e rumamos todos para os eucaliptos em ruidosa caminhada. Lá, simulamos uma largada para as lentes da Super 8, mas interrompemos a prova para que a pessoa responsável pela filmagem pudesse chegar à sede da fazenda e nos aguardar a postos para capturar todas as imagens da chegada.

Com 10 anos de idade, minhas chances de vitória eram reduzidas diante de primos e irmão mais velhos. Mas parti confiante e me dei bem nos atalhos que peguei pelos cafezais, o que era então permitido. O fato é que, quando dei por mim, vencia a disputa e já me encontrava na reta do açude, a menos de 100 metros da chegada, mas com meu primo Marcos, quase cinco anos mais velho, no encalço. Ainda virei na liderança na reta final, mas o cruel Marcos deixou para me ultrapassar nos metros derradeiros, tudo devidamente registrado pela Super 8.

Um a um, foram todos chegando, e no meio deles, passou minha tia que voltava de Bonfim Paulista com as compras do jantar em sua Belina marrom, ano 74, tudo documentado. Durante anos revi as imagens da chegada exibidas na parede. Meu pai montava o projetor em casa, acoplava o filme de 3 minutos e ficávamos todos assistindo aos melhores momentos das férias. Quando chegava a vez do filme da Corrida dos Eucaliptos, meu pai congelava cada quadro que exibia em qualidade de cinema todo o meu sofrimento naquela reta final, a dor no baço, a falta de ar, a ultrapassagem e o honroso segundo lugar conquistado.

O tempo passou, cresci e aos poucos, junto com irmãos e primos, abaixamos cada vez mais nossos tempos naquele percurso. Primeiro rompemos a barreira dos 8 minutos, depois 7:45; na temporada seguinte 7:30 e, pelo que me alcança a memória, estabeleci em 7min06seg o melhor tempo “de todos os tempos” da Corrida dos Eucaliptos.

Bons idos, de uma infância corrida e feliz, de uma adolescência rápida e em busca de superações. Daquela época, além das boas recordações, ainda guardo o hábito de vestir o tênis, olhar o horizonte e pensar: o último a chegar lá é mulher do padre!

PS: Localizando o tal filme da Corrida dos Eucaliptos, prometo postá-lo aqui (localizei e postei-o em 22 de setembro)


 

Compartilhar: