A lebre e o antissemitismo

A lebre e o antissemitismo

Acabo de ler o excelente  “A lebre com olhos de âmbar”, de Edmund de Waal, livro que conta a saga da família judia do autor, os bem-sucedidos e milionários Ephrussi. O cenário de fundo da narrativa tem nada menos do que a gloriosa Paris do final do século XIX, a imponente e depois decadente Viena da primeira metade do século XX e ainda o Japão pós-guerra. Em comum a todos estes lugares e tempos diversos, uma coleção de 264 miniaturas japonesas – os netsuquês, uma relíquia de família hoje nas mãos do autor da obra.

Para quem gosta de história, arte e relatos familiares, trata-se de uma leitura instigante e prazerosa. Como tenho feito ultimamente com livros, o notebook tornou-se companheiro obrigatório. A cada capítulo, são inúmeras paradas para consultar o Google, Wikipedia e Youtube com o objetivo de aprender uma informação,  aprofundar um conhecimento, tirar uma dúvida ou simplesmente saciar a curiosidade.

E foi assim que descobri fatos interessantes. Quando de Wall cita e detalha o quadro “O almoço dos remadores”, de 1881, de Renoir, coloquei a obra na telinha. É um quadro famoso e conhecido, que estampa a parede da sala de jantar da casa de minha mãe. Assim, tão logo fui visitá-la, não resisti à tentação de chamá-la e apontar um a um todos os integrantes da tela. E um deles é Charles Ephrussi, o bisavô-tio do autor.

Um Charles e tanto

Charles, por si só, já valeria um livro pela sua trajetória no mundo das artes naquela famosa Paris do fim do século XIX e por suas amizades. Uma delas, Marcel Proust, usou-o como inspiração para conceber Charles Swann, personagem principal do clássico “Em busca do tempo perdido”, uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Charles, o Ephrussi, viveu intensamente, notabilizou-se como crítico e colecionador de artes, bem como mecenas. Foi ele quem comprou a coleção de netsuquês que se transformou no fio condutor da trama.

Esta última se desloca para Viena quando Charles presenteia o primo Victor Ephrussi, que morava na capital do império Austro-Húngaro, com suas miniaturas japonesas por ocasião das bodas do segundo. O livro então narra toda a atmosfera daqueles tempos trazendo citações a figuras como Theophilo Hansen, arquiteto das grandes obras da cidade e também do Palais Ephrussi; de Karl Kraus, o pensador e aforista; e de um dos ideólogos do nazismo, Alfred Rosenberg. Em Viena nascem a avó de Edmund, Elisabeth, e seu tio-avô Igg. Este último muda-se para o Japão ao final da guerra levando de volta a coleção de netsuquês, um dos poucos bens que a família outrora bilionária conseguiu reaver após a pilhagem nazista.

Tanto em Paris quanto em Viena ficam evidentes a força do antissemitismo naqueles tempos. Realmente, os judeus não eram lá muito queridos, como o livro mostra por ocasião do caso Dreyfus na França e na ascensão do nazismo nos anos 20 e 30 na Áustria. Bem, acho que do livro já contei o bastante para aguçar a curiosidade de quem gosta de uma narrativa empolgante. Vamos então às reflexões que essa história me trouxe ligadas à questão judaica.

Opinião em formação

Por que tanto ódio secular, senão milenar, contra o povo do Rei Davi? Por que 15 milhões de habitantes, em meio a uma população mundial de 7 bilhões de pessoas, continuam a gerar tantos conflitos? Bem, tenho cá minhas opiniões. O tal povo que se considera o escolhido de Deus desenvolveu ao longo dos séculos habilidades que exigiam o uso de fosfato. Tornaram-se então diferenciados nas artes, na ciência e no ofício de ganhar dinheiro e emprestá-lo a juros . Como funcionavam como um clubinho, ajudando-se uns aos outros, e não tinham pátria, ou seja, chegavam num lugar e logo faziam sucesso, produziam também inveja. Da inveja à intolerância e ao ódio foram dois pulinhos, dependendo de quem estivesse no poder e na crise de ocasião, sempre amenizada pela escolha de um bode expiatório.

Nos anos 70, quando minhas convicções foram se formando na passagem da infância para a adolescência, alguns fatos contribuíram para uma visão, digamos, pró-Israel. Apaixonado por esportes e pela glória olímpica, eu não conseguia entender como uma organização terrorista poderia assassinar 11 atletas e treinadores israelenses em plenas Olimpíadas de Munique, em 1972. O templo do esporte havia sido profanado pelo Setembro Negro e aquilo para mim era imperdoável.

O troco veio quatro anos depois, em junho de 1976, quando terroristas desviaram um vôo comercial para Uganda, mais precisamente para o aeroporto de Entebbe, nas cercanias da capital Kampala, apoiados pelo patético e carniceiro ditador Idi Amin Dada, uma das “divertidas” referências da minha infância e retratado recentemente por Forest Whitaker no filme “O último rei da Escócia”. Ao contrário da desastrada atuação das forças policiais alemãs em Munique quatro anos antes, os comandos anti-terror de Israel deram um show de resgate, dizimando todos os terroristas, liquidando guardas ugandenses, humilhando Idi Amin Dada e salvando quase todos os reféns.

Os detalhes desta operação, considerada uma das mais ousadas e brilhantes de todos os tempos, impressionam. Desde a preparação à execução, com a ajuda da sorte, tudo deu certo. Em 2005, fui à Tanzânia escalar o Kilimanjaro. Na volta ao Brasil via Joanesburgo, na África do Sul, o vôo teve uma escala inesperada e inesquecível em Entebbe após sobrevoar o imponente lago Vitória. Para mim, aqueles minutos parados em solo foram fantasiosos: fiquei “assistindo” na mente aos Hércules C-130 israelenses aterrissando na calada da noite, o primeiro no vácuo de um cargueiro inglês, para se “esconder” em seu barulho, e dele saindo tropas de elite com um sósia do ditador à frente, iludindo e pegando de surpresa os atônitos guardas e terroristas no terminal onde estavam os reféns.

Influência materna e televisiva

Naquela década, lembro-me de minha mãe, uma leitora contumaz e que sempre fez questão de dividir o conteúdo de seus livros com os filhos por meio de longas explanações – durante as refeições, nas viagens de carro ou aos finais de semana -, contando sobre a biografia de Golda Meir. Ou seja, a formação do Estado de Israel e as guerras vencidas contra os países vizinhos faziam a cabeça de um garoto talvez um pouco precocemente interessado em política internacional, mas ávido por grandes estórias na aventura da História.

Outro marco nesta temática se deu com a veiculação da série “Holocausto”, apresentada em 1979 na TV brasileira em nove capítulos, se não me falha a memória. Obtive a permissão materna para dormir mais tarde naqueles dias e assim poder acompanhar ansioso a exibição de cada episódio da lenta destruição da família judia Weiss na Alemanha nazista. A jovem Meryl Streep dava início a sua carreira, casada com o personagem Karl Weiss, interpretado por James Woods. Há poucos anos vi um filme em que este ator faz o papel de um implacável caçador de vampiros, mas em Holocausto ele é apenas um frágil artista perseguido, de boa índole como seu pai, o médico Joseph.

Eu sonhava então com a resistência no gueto de Varsóvia, me via lutando entre escombros até heroicamente chegar a Himmler ou a Eichmann , os carrascos nazistas, aplicando-lhes uma lenta e raivosa solução final. O jovem Rudi Weiss, o único sobrevivente da família ao final da série, é abordado por alguém que o convida a imigrar para a Palestina e ajudar a fundar um novo país dos judeus. E 15 anos depois, os “Rudies” seqüestram Eichmann na Argentina e o levam para ser julgado e condenado à morte em Israel, fazendo uma simbólica justiça e desferindo uma merecida vingança pela morte dos “Josephs” e “Karls”.

Convicção abalada

Minha visão pró-Israel recebeu abalos nos últimos anos, após as intifadas, a nova invasão do Líbano e a falta de iniciativas concretas para resolver a questão palestina, deixando milhares de pessoas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia vivendo em condições quase tão deploráveis quanto às que os judeus passaram em guetos. Fico torcendo para que a democracia israelense mude de prumo, que caminhe da direita para o centro e que consiga começar uma nova negociação com os palestinos que propicie, lá na frente, a criação de um Estado para estes últimos e uma convivência pacífica entre os dois povos.

Mas não tenho dúvidas que a segurança do Estado de Israel, um princípio considerado legítimo pelos judeus após 4 mil anos de múltiplas perseguições, encabeçará suas ações e decisões futuras. Inclusive a de bombardear preventivamente instalações militares do Irã se considerar que as ameaças de Armadinejad de “varrer Israel do mapa” não são apenas bazófias para encantar os ouvidos de antissemitas de todo o planeta.

Pensamentos e elucubrações finais

* penso em Charles Ephrussi num agradável almoço à beira do Rio Siena em 1880 retratado por Renoir;

* imagino seu avô fazendo negócio com trigo e fundando o império dos Ephrussi na Odessa do início do século XIX;

* vejo este império ruindo como um castelo de areia em Viena com a anexação da Áustria em março de 1938;

* digito o caso Dreyfus no Google e mergulho numa França dividida entre os contra e os a favor;

* recordo-me de imagens do julgamento de Eichmann, em 1961, numa gaiola a prova de balas, em Jerusalém;

* sinto-me como um piloto aterrissando um avião num aeroporto escuro em Uganda em julho de 1976 para resgatar uma centena de reféns;

* solidarizo-me com palestinos vivendo na miséria na Faixa de Gaza nos dias de hoje;

* pergunto-me se Israel irá atacar o Irã ainda este ano antes das eleições nos Estados Unidos;

* desejo conversar com Edmund de Waal e perguntar como interagiu com seus antepassados;

* tento recompor a trajetória de minha família desde o século XIX mas temo não encontrar “Charles Junqueiras” vivendo em Paris ...

* planejo comprar uma miniatura japonesa e ficar massageando o netsuquê com as mãos no bolso;

* concluo que a Lebre com olhos de âmbar e o antissemitismo realmente dão muito o que pensar ...

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