Lembranças de Floridog
Já estávamos andando há três dias ao redor da ilha. Deixáramos o norte urbanizado e o centro densamente ocupado de Florianópolis em direção ao sul, mais preservado, mais selvagem, mais atraente. O tempo, no entanto, virou e uma chuva fina passou a nos acompanhar e nos molhava, prejudicando o registro das imagens. O Ribeirão da Ilha mostrava sua cara, seus descendentes de açorianos, seus botecos e vendas na rua que margeia a costa de frente para o continente.
Uma parada para um lanche, uma cerveja , uma piada. Éramos três, de mochilas nas costas, uma câmera na mão e um objetivo na cabeça. Dar a volta completa na ilha em sete dias. E de repente lá estava ela, olhar cativante, ainda um pouco desconfiada, um belo exemplar feminino, sedutora, a nos observar e em busca de companhia. Seguimos em diante e ela veio logo atrás alguns metros, algumas centenas de metros. Estava molhada e parecia, como todos os cachorros, a ter fome. Demos um pouco de comida, ela gostou e continuou a nos seguir.
Deixamos o asfalto, mergulhamos em trilhas escorregadias, custamos a achar o rumo certo, um açoriano se zangou porque tocamos a campainha para fazer uma pergunta. E a vira-lata, mistura de pastor alemão com uma outra subraça qualquer, ingressou de vez na expedição. Foi batizada: Floridog! Ganhamos mais segurança - contra bichos, ladrões ou até maus-espíritos! Correndo para lá e para cá, às vezes na frente, às vezes na retaguarda, mas sempre alerta e farejando, Floridog nos ajudou a contornar a parte sul da ilha, a praia dos Naufragados, o Pântano do Sul, o Matadeiro, o Campeche, a Armação, a Joaquina, a Mole e a Moçambique, entre outras.
À noite, enquanto dormíamos em pousadas, ela montava guarda nas imediações e ganhava seu quinhão de comida. Mas, ao invés do alimento, o que realmente motivava Floridog era o sabor da aventura, do deslocamento. Pelas trilhas na montanha, calçadas, areia, dunas ou pelas pedras, lá ia ela, altiva, atirada, em busca de alguma emoção, tendo o mar soberano sempre à direita e a vida em frente. Tornou-se nossa D'Artagnan, mais um mosqueteiro interessado em dar a volta naquela ilha mágica.
E para o norte ela seguiu com a gente, cruzando longas praias, latindo, correndo atrás das gaivotas, desprezando outros cachorros, dando sempre a impressão que sabia muito bem onde estava e para onde seguia. Um, dois, três, quatro dias, nossa companheira caminhou mais de 100 km alegre e determinada, comprovando que a vida de um cachorro pode ser bem melhor do que imaginávamos. Mas nossa caminhada estava chegando ao fim ...
Depois de 200 km, retornamos à Praia dos Ingleses, ao hotel onde nossa aventura começara uma semana antes rumo ao norte. E o que fazer com Floridog? Cogitamos trazê-la para Ribeirão Preto já que a iminência de simplesmente abandoná-la ali, tão longe de “casa”, do outro lado da ilha, não seria algo honroso para os mosqueteiros. Mas, ao fitar os olhos de Floridog, percebemos que ela estava bem à vontade, que Floripa era seu lar e a liberdade um bem inegociável.
Não houve despedidas melosas, apenas um último carinho, um aperto de patas, um último e merecido lanchinho para nossa amiga. No dia seguinte, depois que acordamos, Floridog não estava mais ali naquela parte urbanizada da ilha. Partira à noite em busca de novos companheiros, novos andarilhos e, quem sabe, de outras voltas ao redor de Florianópolis ...