A Meia de Ribeirão por inteiro
Levanto-me em pleno domingo, dia 25 de setembro, às 5h50. Masoquismo? Não, vontade de assistir ao vivo pela TV ao trecho final da Maratona de Berlim, a mais rápida do mundo. Faltam quatro quilômetros para a chegada e Patrick Macau, do Quênia (óbvio), lidera com folga, passadas fáceis, olhar compenetrado, ritmo acima dos 20 km/h. E 12 minutos depois, soberano, ele cruza a linha com o impressionante tempo de 2h03min38 seg. O recorde mundial da distância havia sido quebrado por 21 segundos. Aquele fora de série franzino no porte mas gigante na arte de correr, totalmente superior a qualquer ariano em termos de resistência, acabara de dar mais um tapa com tênis de pelica, bem debaixo do Portão de Brandemburgo, nos inferiores delírios nazistas ...
Não sou Patrick Macau, mas motivado por este, lambuzo os mamilos e a lateral das axilas com vaselina, visto short cavado, camiseta dryfit, número de prova, tênis com chip, boné e óculos escuro. Antes, faço a última ingestão de carboidratos reforçada por maltodextrina sabor açaí-guaraná. O relógio indica 7 horas, a Meia Maratona de Ribeirão Preto vai começar em 30 minutos. Entro no carro, pego o anel viário, viro à direita em direção ao Mercadão novo e estaciono logo ali. Desço e começo a me alongar, a trotar, a largada é daqui a pouco, na muvuca, onde centenas de corredores se aglomeram. A manhã é bonita, o sol mostra sua cara, umidade baixa, o vento sacode a poeira e a prefeita estoura a boiada com uma sonora buzinada.
Av. Braz Olaia Acosta, lá vamos nós! Tem gente que começa sempre abusando, calma, ainda faltam mais de 20 quilômetros, pra que tanta pressa? Nos despedimos do RibeirãoShopping e atravessamos o Jardim Califórnia em meio a belas casas, a tropa ainda valente, contente com as pernas ainda descansadas. É, mais logo chegamos a Av. Independência, no ponto mais baixo dela, e apontamos o nariz para a direita, em direção ao balão com a Fiusa. Que ladeira! Respiração, ritmo, cautela, o trajeto é mesmo casca-grossa, convém dosar as energias. Cruzamos o balão e continuamos a subir até o Restaurante SA, quando a Avenida Independência começa a mostrar seu lado mais amigável, digo, declinável. Hora de colocar os batimentos em dia, estabelecer um novo ritmo.
E que beleza a pista toda a nossa disposição, trânsito interrompido. No cars! Xô cars! Que fiquem nas garagens! Hoje, aqui e agora, o asfalto é território de pedestres, de corredores, sem medo de serem atropelados. E assim vai até a Nove de Julho, quando viramos à direita em direção à Av. Portugal. E tudo igual, sem carros, as sombras das sibipirunas nos protegendo e nos incentivando: “Corram, a cidade é de vocês!”. E uma quadra antes do balão e do Deck Renato Aguiar, nova curva à direita, uma praça, o Araucária Flat , mais um posto de hidratação e surge a temível subida da Diederichsen. “E vamu que vamu!”
Subir sempre nos leva para mais perto dos céus. Um, dois, três ... um, dois, três ... passadas um pouco mais lentas ... batimentos um pouco mais acelerados ... e antes que que comece a ficar cinza, lá está a Presidente Vargas. Dessa vez, viramos à esquerda, voltando, e a subidinha vira descidinha, e tudo melhora, novo impulso, novo ritmo. E já estamos na Fiusa, tornamos à direita, buscando novamente a Av. Independência. E no balão, esquerda novamente, o que era um longo aclive transforma-se em ribanceira. E de novo singramos o Jardim Califórnia até a Braz Olaia Acosta.
Mas ao invés de seguirmos direto para o balão do Mercadão novo, a rota nos faz virar à esquerda, numa rua entre os estacionamentos do RibeirãoShopping e o parque com lagos onde a pescaria corre solta. E ali, tendo a Unip a nossa frente, viramos à direita para a reta final. Final? Ops, ainda tem mais uma volta, e todas aquelas idas e subidas ... Olho o cronômetro, ele está chegando nos 50 minutos, a vida é um eterno recomeço, se ficar o bicho pega, se correr o bicho come ...
A nova volta de 10,5 km mostra sua cara, cobrando os impostos de quem gastou além da conta. Nesse momento identificamos quem sabe correr, quem sabe administrar seu próprio combustível. Elegemos nossos referenciais, marcamos as cores das camisas que correm no mesmo ritmo, cadenciado. As ultrapassagens já são menos frequentes, a briga agora é com você mesmo. Um intenso jogo psicológico, as dores começam a aparecer, um baço aqui, um joelho ali, uma pequena cólica abdominal acolá. A máquina tem seus limites, não sou Patrick Macau, mas adoraria ter sues pulmões e pernas.
Ironicamente, o tempo passa a correr mais devagar, para aumentar nosso sofrimento. Um minuto se transforma em dois, 500 metros viram um quilômetro. No seu íntimo, uma voz provoca: “Para que continuar, você nem vai ganhar mesmo, aliás, está pagando para correr e sofrer. Que tal parar, começar a andar e tomar uma cervejinha gelada no primeiro boteco da esquina?”. Resisto às tentações, falta pouco, vou até o fim, custe o que custar, um corredor ao lado sussurra palavras de incentivo.
E de repente, lá está ela, a reta final, o funil da chegada, a glória! Ninguém mais me ultrapassa! Não há mais tempo para desistir! Alguém grita meu nome, outros aplaudem, o cronômetro marca 1h40min. Agora sou, por poucos instantes, Patrick Macau, e cruzo a linha de chegada, o meu Portão de Brandemburgo. Alívio, felicidade, euforia! Mais uma Meia nas costas, agora a de Ribeirão!
Cumprimento os amigos e conhecidos que correram ou simplesmente foram lá acompanhar a prova. O que significaria tudo isso se não fossem as pessoas? O Caetano, que quer correr a Maratona de Buenos Aires abaixo de 3 horas; e o Bó, que fez a Maratona do Rio de Janeiro em 3h07min, ambos chegaram entre os 20 primeiros; o Marcos de Assis, que quer começar a correr; o Tales, que passa informações sobre a recuperação do Sergio, aquele companheiro que levou um tiro quando pedalava no Anel Viário e para quem tanto torcemos; o Fábio, que irá fazer o Iron Man 2012; o Tander, que generosamente guardou a chave do carro enquanto eu corria; e tantos outros com quem troquei olhares e palavras educadas naquela memorável manhã.
E no palanque, o Eduardo, do Tribuna, organizador da prova, que gentilmente me concedeu a inscrição, anunciava orgulhoso, ao microfone, os resultados enquanto a prefeita Dárcy e o secretário e amigo Dezordo premiavam os vencedores. As dores já haviam passado, e aos poucos eu fui saindo de lado, não um pobre coitado, mas alguém em busca dos resultados: 4º lugar na categoria 45-49 anos entre os 55 atletas dessa fixa etária; 60º lugar no geral masculino entre os 355 atletas que terminaram a prova, e atrás apenas de uma mulher. Nada mal para quem passou um mês no estaleiro após um violento tombo do bike em agosto.
No dia seguinte, brincando de “Onde está o Wally”, o Ivan, da Corpore, me localizou na foto de largada da prova, publicada em “A Cidade”, que trago logo acima, com uma seta em preto apontando para a minhah pessoa, acompanhada da medalha por esse escriba recebida. Não sou Patrick Macau, mas me dediquei por inteiro à Meia de Ribeirão ...