Nada mal em Blumenau

Nada mal em Blumenau

A bonita e emotiva campanha da W/Brasil em 1987 dizia que “o primeiro Valisere (sutiã) a gente nunca esquece”. No caso das provas de maratona, diria que a gente não esquece a primeira, a segunda, a terceira e mais um punhado delas. Debutei nas provas de 42 km em 1997 visando correr a Maratona de Nova York, em outubro daquele ano, na companhia de meu irmão Pedro, então morador da Big Apple.

Iniciados os treinos em janeiro, participei dois meses depois, como “paraquedista”, da chamada Maratona Ecológica de Ribeirão Pires, cidade da Grande São Paulo onde moram meus sogros. Ainda sem base formada e com quilometragem muito baixa nos treinamentos, simplesmente sucumbi no km 25 da prova, sem condições de movimentar  sem dor qualquer músculo do corpo, a não ser para pedir carona de volta.. Embora este tenha sido o primeiro Valisere que jamais será esquecido, considero o segundo sutiã, isto é, a Maratona de Blumenau 97, com o primeiro de fato, aquele no qual experimentei a inconfundível sensação de cruzar a linha de chegada.

Com mais três meses de treino, seguindo regularmente a planilha estabelecida após a mal-sucedida experiência em Ribeirão Pires, me considerei pronto para virar de fato um maratonista. Estava correndo cinco vezes por semana, fazendo os longões aos sábados e dando um reforço na alimentação com suplementos. Coloquei como meta, além de terminar a primeira maratona, chegar com 3h30min. E lá fomos nós, eu e um amigo corredor, de carro, de Ribeirão Preto a Blumenau, dormindo em Curitiba.

Blumenau era então considerada um dos melhores desafios de longa distância do Brasil, trajeto plano, com poucas curvas, a temperatura era amena em junho e assim os participantes sempre buscavam fazer tempos baixos naquela prova. Hoje parece que nem existe mais, substituíram por uma Meia Maratona. O fato é que, aos 30 anos, me sentia forte e motivado para fazer uma grande corrida, com plano de “vôo” e estratégia estudados e definidos antecipadamente, o que me permitiu fazer o que considero a minha melhor maratona em desempenho geral das oito que já participei.

O tiro de largada foi dado logo cedo num domingo distante, fresco e nublado. Pacientemente, deixei todos os mais de 500 participantes saírem na frente e só parti quando me certifiquei de que era o último para valer. Disparei o cronômetro do meu relógio, comecei a trotar e mentalmente busquei adotar o ritmo de 12 km/h, ou de 1km a cada 5 minutos. Multiplicando por 42, finalizaria o percurso ao redor das pretendidas 3h30min. Para não errar na dose, já que no início estamos sempre repletos de energia, “verdadeiros depósitos de carboidratos”, puxei um pouco o freio de mão.

Ao poucos, fui passando um, cinco, 10, 50, 100 corredores, sempre na mesma toada, conferindo a velocidade e o tempo a cada km sinalizado no percurso e me hidratando nos postos ao longo do trajeto. Chegar aos 20 km foi fácil, a partir de então as coisas apertaram, mas me mantive fiel à média estabelecida, ou melhor, ganhei até o km 25 pouco mais de três minutos de folga. Passada a barreira do km 32, as dores chegaram e com ela a fadiga crescente, mas o corpo havia guardado as energias suficientes para administrar essa fase aguda da prova.

Os últimos cinco quilômetros foram intensos e sofridos, mas não deixei a peteca cair do passo de 12 km/h. E de repente lá estava ela, a linha de chegada, tão próxima e desejada. Cruzei-a emocionado, doído porém inteiro, orgulhoso como a menina do comercial do sutiã ao vestir aquela sensação única, a de se sentir único, de ter conquistado uma importante etapa da vida. Só que no peito, ao invés de uma peça íntima, eu exibia uma orgulhosa medalha de finisher, com o saboroso tempo de 3h27min, nada mal para uma primeira maratona, quase três minutos abaixo do esperado.

Depois dessa, nunca mais consegui chegar a uma linha de chegada a 42 km da partida em tão boas condições físicas e mentais – consegui tempos melhores, mas a um custo maior para o corpo e a mente. Na noite anterior, havia tomado um chopp de boa sorte, afinal estávamos em Blumenau, agora poderia beber outros em comemoração, relaxantes e merecidos. Conversei naquele domingo pelo telefone com meu irmão em Nova York para falar do meu desempenho e dos planos para a próxima maratona, que seria pouco mais de três meses depois, em Nova York, mas isso já é uma outra história ...


 

Compartilhar: