No portão do inferno
Depois de subir os Cerros Copacoya e Toco, eu, Dib, Gera e Luiz já estávamos suficientemente aclimatados para subir os dois outros vulcões mais desejados da região de São Pedro de Atacama: o Lascar, um complexo ainda ativo e fumegante, e o Licancabur, um dos pontos mais marcantes de todo o Atacama pela sua forma cônica, pela sua importância histórica e altura.
Primeiro fomos ao Lascar. Contratamos o guia Jorge, um sujeito de fala fácil e educada. Os cinco dentro da camionete, eu guiando, seguimos em direção ao vulcão. A subida se dá por uma via atrás da montanha em relação a São Pedro, por isso levamos cerca de duas horas para chegar ao início da caminhada, entre asfalto, terra, areia e cinzas de vulcão, num percurso algumas vezes parecido com cenários lunares.
Com o carro traçado e em reduzida, subimos em ziguezague até onde foi possível, a cerca de 4.900 metros de altitude. Um local remoto, quase sem vida e muito árido, mas de uma beleza chamativa. Vestimos nossas jaquetas de goretex – membrana corta-vento respirável – e mochilas, e, de bastões de caminhada nas mãos, iniciamos a ascensão lentamente, ziguezagueando, um passinho atrás do outro, respirando com ritmo e progredindo.
Duas horas depois, o carro estacionado já era um ponto vermelho minúsculo no meio do deserto. A logo ali ao lado estava o portão do inferno, no bom sentido. Uma imensa cratera expelindo fumaça, um forte cheiro de enxofre. O pequeno buraco na crosta terrestre, uma enorme lembrança em minha mente. Pensei naquele vulcão nervoso – a última erupção foi em 2006, e imaginei-o expelindo rochas de 50 quilos a 10 km de distância. Me senti pequeno, cada vez mais respeitoso em relação à grandiosidade da natureza.
O frio e o vento ainda davam um tempero especial naquelas circunstâncias. Subimos mais um pouco até o cume do Lascar, a 5.592 metros de altitude, e aproveitamos cada segundo daquela experiência. Isolados naquele ponto do planeta marcado pelas condições extremas, ao lado de uma cratera que a qualquer momento poderia dar sinais de atividade, só nos restou contemplar o ambiente mágico ao redor e fazer alguns pequenos registros. O próximo desafio, o Licancabur, estava bem ali, diante de nossos olhos.