No topo do Cerro Toco
Atacama, junho de 2009. Los quatro amigos da Expedição Influenza continuam seu processo de aclimatação para começar a subir vulcões acima dos 5 mil metros de altitude. Com São Pedro de Atacama movimentada e hotéis cheios, ficamos modestamente instalados num hostel a US$ 10 a diária, todos no mesmo quarto, e sem banheiro. Economizamos dinheiro e investimos no clima de amizade e companheirismo, dividindo cada centímetro cúbico de espaço disponível no recinto e abusando das piadas e ironias. Além disso, o gerente do estabelecimento, que atendia pela alcunha de Don Armin, era uma figura impar, recém-saída das cavernas, capaz de dormir em cima de uma pedra no hall de entrada.
Rumo às belezas naturais da região e buscando altitudes mais elevadas, fomos para o parque das lagoas Miniqui e Miscante, já a mais de 4 mil metros. Um cenário simplesmente exuberante, de outro planeta. Não contávamos que o refúgio existente no local estava fechado por causa do inverno – a água congelava nos canos e não se podia usar o banheiro. Depois de muito portunhol persuasivo, convencemos os guardaparques a nos deixarem pernoitar por lá. Assim, fizemos uma caminhada de reconhecimento pela área desfrutando daquela orgástica paisagem.
O refúgio era uma belezinha, arrumadinho e limpinho, como vocês podem perceber no link do “videoviagem ou graventura” acima. Depois do jantar e muita conversa fora, resolvemos dormir. Eu, ainda fascinado por aquele lugar, resolvi descer para a lagoa e caminhar as suas margens debaixo de uma poderosa lua que iluminava o vale. Uma sensação mágica me tomou conta, era tanta energia que aos poucos passei a sonhar acordado me perguntando qual arquiteto teria projetado uma obra tão soberana como aquela que meus sentidos capturavam. O barulho do silêncio era ensurdecedor, o frio batia em -5º C. Depois de meia hora, corri de volta para o refúgio e fui direto para a cama.
E pensar que um quarto de século antes o ignorante do Pinochet teria usado aquela região para testes militares com armas, o que teria causado impactos importantes no ecossistema. Que idéia de maluco!
Depois de uma boa noite de sono, acordamos e gastamos algum tempo para fazer a camionete pegar – não é fácil descongelar o diesel a -10º . Partimos então novamente em direção a São Pedro do Atacama, mas o GPS do Gera, que havia estudado todas as atrações do Atacama antes da viagem e marcado seus pontos de localização no aparelho, nos desviou direto para o Cerro Toco, a cerca de 5.600 metros de altitude. Estacionamos o veiculo por volta dos 5 mil metros, colocamos as mochilas na costas, visualizamos a trilha e, a passos ritmados, rumamos para o alto.
Sem grandes dificuldades, atingimos o topo do Cerro Toco, o segundo cume de nossa expedição – o primeiro havia sido o Copacoya, na região do Geiser de Tatio, dois dias antes. Comemoramos o feito com fotos e apertos de mão aproveitando a linda paisagem ao redor enquanto o vento e o frio nos fustigavam. Estávamos no caminho certo para subir, nos próximos dias, vulcões mais impressionantes – o Lascar e o Licancabur, assuntos dos próximos capítulos ...