No vale do Matutu

No vale do Matutu

Chega o momento em que precisamos recarregar as baterias, “descansar” uns poucos dias. Onde ficaria Xangrilá, um vale quase perdido entre montanhas, sem buzinas, sem carros, sem sinal de celular, sem violência, apenas com engarrafamento de ar puro? Pois ele fica na Mantiqueira, lá pelos lados de Caxambu, nas Gerais, e se chama Matutu.

Há quase 20 anos ouço falar dele. E nesse junho aparece um feriado prolongado a calhar, oportunidade para colocar a mulher e os pais dentro do carro e partir, 500 quilômetros de estrada. Deixamos a simpática Airuoca para trás e vemos à direita o majestoso Pico do Papagaio. Mal posso aguardar para subi-lo, respirá-lo acima dos 2 mil metros. Ao longe, na ponta do vale, a Cachoeira do Fundo. Estacionamos o carro em frente ao Casarão, século XVIII, ponto de encontro, de entrada e de saída, para os que chegam e para os que vão.

A partir dali, o locomover é com as próprias pernas, como os homens fizeram, passo a passo, ao longo dos séculos, por mais de 1 milhão de anos. Como não somos bestas, a bagagem mais pesada segue em lombo de burro; nas nossas costas, apenas mochilas leves. São quase quarenta minutos de caminhada até a Pousada Patrimônio, uma casa de hóspedes, sem eletricidade, mas calorosa ao extremo. Ali passaríamos os próximos três dias, à luz de velas, com vista plena para a cachoeira, para o céu, para nós mesmos.

Sob os cuidados atenciosos do casal anfitrião Luis e Karla, passamos a usufruir do bom e do melhor. O silêncio profundo, o cantar dos pássaros, o escarcéu das estrelas, a suculenta culinária vegetariana de fazer salivar o mais feroz dos carnívoros. Tudo, ou quase tudo, produzido ali, na horta da Karla, ou nos vales ao redor, que fazem do Matutu um exemplo de sustentabilidade. Nada de excessos, até o frio da montanha foi generoso, mesmo nos banhos de chuveiro aquecidos a gás.

Muitos que lá chegaram por lá ficaram, se juntando aos nativos. Gente de todos os lados, de outros países. Gente cansada da canseira das grandes cidades, em busca de uma vida menos estressada e artificial, menos cheia de vazios existenciais, e com um pouco mais de simplicidade. E outros que aproveitam apenas para se revigorar, um final de semana ou um dia de spa. A Marcinha, de Ribeirão Preto, foi e ficou, e lá está criando suas duas filhas. O sogro, um holandês, lá também construiu uma casa, e todos os anos aproveita como ninguém seus dias de Matutu.

Se a mente se entrega a devaneios diante de tanta opulência natural e os sentidos se aguçam com os cheiros, sons e cenários, as pernas clamam por movimento. E lá estamos, minha mulher e eu, a descer e subir trilhas, visitar a casa de amigos, as pousadas mais antigas, os templos que nos irrigam. E na manhã seguinte, em companhia de um irmão que também aproveitava o feriado, seguimos para o alto, para o Pico do Papagaio.

Guiados pelo Miguelão, um guia hippie paraguaio-argentino morador da comunidade do Matutu há 20 anos, galgamos metro a metro, entre acentuados e escorregadios aclives e refrescantes e deslumbrantes matas primárias, o 1 quilômetro vertical que separa o início do topo, o baixo do alto, a cama do cume. São mais de três horas de subida, o silêncio sendo invariavelmente quebrado por nossas vozes, tagarelas ouriçados pela imensidão e beleza do vale.

Antes que o cansaço mande aviso, lá estamos nós, sentados como reis na pedra alta e culminante, a 2.100 metros, nos banhando com os raios solares que disputam com o vento a primazia de nossas sensações. O tempo, mais uma vez, se faz companheiro, descortinando entre as nuvens paisagens longínquas, 360 graus, e o Matutu aos nossos pés, assim como a Coroa do Leão, uma montanha frontal que lá debaixo parecia consideravelmente mais imponente.

Descemos depois do merecido lanche, parando no caminho apenas para um gélido mergulho num poço das altitudes, algo que decididamente clama por coragem e atitude. Para finalizar, já em solo mais baixo, uma parada para tomar uma gelada no único bar do Matutu. Na parede, uma televisão, sem plasma ou LCD, dessas que não mais se vê, exibe o segundo tempo de Brasil e Argentina. Miguelão fica contente com os 4 a 3 que os hermanos nos infringem, com Don Messi fazendo história e três lindos gols.

Mas artilheiros mesmo somos nós, naquele estádio tendo como torcida uniformizada as verdes montanhas e brancas cachoeiras, as árvores tricolores e corpos azul-celestes. Ao invés de 11 contra 11, parece que não há adversário, as redes balançam sem parar, uma goleada de boas sensações, a grande área de nossas almas se estende para além do meio-campo, quase no horizonte, ultrapassando porteiras, cercas e pontes.

Todo partida chega ao fim. Mas consigo levar o jogo para a prorrogação na manhã seguinte, antes de retornar para a civilização ocidental-celular-automoblística-facebook-cristã. Depois de 40 minutos de caminhada, alcanço e encaro o purificador banho na Cachoeira do Fundo, no poço que recebe águas 150 metros acima da cabeça. Sozinho, acompanhado somente pelo espírito da floresta, passo pelo ritual de permanecer alguns segundos embaixo de um verdadeiro caldo energético da mãe Terra. Paralisado pela ducha polar, congelo minha existência por alguns momentos: aquilo sim representa uma verdadeira e genuína experiência Rio + 20, ou melhor, Rio + 10 graus.

Volto para meu mundo com o pressentimento que retornarei ao Matutu. Ali vivi dias especiais com pessoas que amo – deu gosto, por exemplo, ver meus pais, cada um com 78 anos, caminhando por trilhas, divertindo-se como crianças, aproveitando cada segundo de uma invejável terceira idade e aumentando sua legião de admiradores.

No Matutu, quando pensamos na vida, colocamos a teoria em prática.

 

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