O biriba do Xandão

É tempo de primavera/verão, de dias quentes e noites agradáveis, saudáveis, próprias para brincar e se exercitar na piscina com muita emoção. É tempo de biribol na casa do Xandão! E eis que estou no escritório no meio da tarde, compenetrado, escrevendo um texto, planejando uma ação ou elaborando alguma estratégia de comunicação, quando chega um dos já famosos, concisos, despontuados e desacentuados e-mails formato tweet: “galera biriba amanha 7 horas favor confirmar trazer cerva farei galinhada abr xandao”.
Dito e feito, no dia seguinte lá estamos nós, na house do Xandão, sempre em oito ou mais “atletas”, não tão estetas, barrigudos mas topetudos, gente aos quarenta e com fogo nas ventas, cada um chegando empolgado com seu fardo gelado. Conversa pra lá, conversa pra cá, tira a roupa e veste a sunga, rola um alongamento, um aquecimento, e logo depois um tibum, um a um, todos se jogam na piscina de 7 x 3,5 metros, cercada por tela de proteção, rede altura oficial, bola própria de biribol, para partidas de 15 pontos em melhor de três, ou às vezes os tontos vamos a 25, quatro de cada lado, entre mascarados e mais regados, tentando sempre equilibrar os talentos com os mais lentos, os altos e os baixos, de modo a deixar o jogo parelho, a ser decidido apenas nos detalhes, no fim de cada set, na sorte e nos azares.
A regra é clara, diria o Arnaldo. Como não tem juiz, seguimos o esquema “Jacuzi”, ou seja, encostou na rede, o faltoso homem-aranha precisa se acusar; a bola resvalou imperceptivelmente no bloqueio, cabe ao bloqueador se culpar. E a assim vai, sempre com prováveis polêmicas, discussões sistêmicas, mas sempre na esportiva, e viva nóis! Sacou, se errou, vai ouvir sem jeito o indefectível “Que hora, heim!!!”. Ganhou o ponto sacado pelo adversário? Tem que rodar. Estratégia do jogo? A idéia é fazer a recepção já levantando a bola para o companheiro na rede, que já terá então a opção de enfiar a mão, surpreendendo o bloqueio, ou levantar para o arremate final do outro jogador da equipe que se encontra na rede querendo romper a parede adversária.
Diferentemente do vôlei, no biribol não usamos a “manchete” – a altura da água atrapalha ou impede. Podemos “carregar” um pouco a bola, principalmente nas cortadas e “enterradas”, mas também utilizamos com freqüência as pingadas e exploradas de bloqueio. O jogo torna-se dinâmico, competitivo, engraçado! Tem gritaria, gozação e volta e meia um rally pra deixar todo mundo eletrizado. Claro que cada um quer ganhar e saborear o gostinho da vitória, no entanto perder faz parte da história, o que não pode são discussões bobas. Na dúvida, volta o ponto e pronto.Nada de brigas, intrigas. Aí tá desclassificado, pois o compromisso maior é com a diversão.
E ela de fato toma conta da noite! Os comentários standup do Claudião, a canhota do Brandão, os bloqueios imprevisíveis ás de copas do João Moraes, as pingadas do Fenômeno, os saques entusiasmados e enviesados do John Boy e do Mauro ou o saque balão do Marcelão, as exploradas do Xandão, as tentativas de pegar o Cléo em vão, as comemorações, as gozações, as piadas e tantas outras jogadas de deixar de boca aberta os numerosos dentistas, e camaradas altruístas, que por lá apareceram nesses últimos anos de jogos insanos agitando as águas bem tratadas e onduladas da piscina.
Depois de uma hora, hora e meia, até duas, o braço começa a cansar, o ombro e o joelho reclamam com razão, a coluna envia sinais de deterioração, as mãos apresentam alguns arranhões, um dedo torcido, às vezes um nariz ou um olho coçando, a garganta com sede, chega de bola na rede, enfim, tempo de dosar a adrenalina, já não há endorfina, momento parar e recompor as forças! E logo ali ao lado, a cerveja gelada, o rock em roll de qualidade tocando na parada, todo mundo dando risada, falando ao mesmo tempo na mesma toada, a disputa na piscina já é coisa passada ....
O Xandão mostra porque é o mestre-cuca da galera, da panela sempre vem coisa boa para descer na goela, uma massa, uma galinhada, uma salada, um patê ou uma empada.
São os prazeres da vida, o doce convívio da confraria, a noite avança mas amanhã é dia, dia de acordar cedo, de ralar e vencer o medo. Até o próximo jogo, a próxima vez, ainda esse mês ... É o biriba do Xandão mostrando cada vez mais tradição!