O majestoso vulcão Licancabur
Ponto de referência há séculos no deserto do Atacama, o Licancabur é uma montanha que magnetiza quem visita São Pedro do Atacama. É só olhar no horizonte e lá está ele, não tão distante, bem na fronteira entre Chile de Bolívia, senhor daquele cenário, autoridade entre tantos vulcões ao redor. Sua forma cônica, sua altura de quase 6 mil metros e sua beleza divina atraem a atenção. No meu caso, foi como se ele me sussurrasse a cada instante: “Ei, você aí, venha dar uma subidinha, que tal chegar nop meu cume?”, ou seja, um verdadeiro canto de sereia da altitude...
É claro que o obedeci, assim como os incas cinco séculos antes. A Expedição Influenza, depois de chegar ao topo do Copacoya, do Cerro toco e do vulcão Lascar, apontou sua bússola para o Licancabur. Pegamos logo pela manhã uma van até a fronteira com a Bolívia localizada a algumas dezenas de quilômetros, fizemos os procedimentos protocolares para entrar naquele país, trocamos a condução para um 4x4 e, em menos de meia hora, já estávamos hospedados num precário refúgio na base da montanha e ao lado da esplendorosa Laguna Verde.
O guia Jorge, o mesmo que havia nos levado ao Lascar, nos acompanhava. Com a tarde livre, demos uma volta na Laguna de onde foi possível bater fotos inigualáveis e o Dib caprichou em seus incríveis instantâneos que até hoje povoam alguns dos principais sites de aventura. De noite , fizemos uma refeição reforçada e traçamos a estratégia de subida da montanha na madrugada seguinte.
Em função de minha preparação física antes da viagem, estava voando baixo e decidi que queria subir rápido, em ritmo acelerado. Por isso, o Jorge se encarregou de guiar o Dib, o Gera e o Dr. Luiz e eu optei por contratar o Macário, um lendário guia boliviano que morava por ali mesmo e já havia subido o Licancabur umas 370 vezes. Verdadeira personagem dos Andes, fiquei emocionado de subir aquele gigante sagrado em companhia daquele boliviano baixo e mítico, provavelmente descendente dos povos que ascendiam o Licancabur séculos antes.
Assim sendo, o grupo liderado pelo Jorge deixou o refúgio por volta das 3:30 horas da manhã, quando a temperatura rondava os 20 graus negativos. Eu e o Macário partimos mais de uma hora depois, primeiro de 4x4, até o início da trilha, e depois a pé, para o alto e avante. Acima de nós enxergávamos umas pequenas luzes subindo lentamente – eram as headlamps de meus companheiros.
Fortemente agasalhados, começamos em passo rápido, progredindo bem pelas pedras e trilhas íngremes e em formato ziguezague. Aos poucos, o dia foi nascendo e descortinando paisagens alucinantes, a Laguna Verde lá embaixo e o vale árido se estendendo por dezenas de quilômetros. Os raios solares apareceram e elevaram a temperatura, e a marcha morro acima se tornou cada vez mais cansativa. Ultrapassamos o grupo do Jorge e seguimos, mas eu já não conseguia acompanhar o Macário, a quem eu havia pedido para liderar com velocidade. Sucederam-se então muitas paradas, passadas e profundas respiradas.
Depois de 5 horas de esforço, de repente, lá estava o cume de Licancabur, um toten de pedras a 5.920 metros disposto numa pequena clareira tão desejada e ao mesmo tempo tão simples. E, 50 metros abaixo, um lago congelado na cratera. Hora de descansar, se alimentar, participar de um ritual em homenagem a Pachamama conduzido pelo Macário e também de descer e brincar no lago congelado. Meus companheiros não tardaram em chegar e comemoramos juntos mais aquela conquista conjunta.
Agradeci aos céus por me permitir usufruir daquela experiência transcendental. Aproveitei cada minuto, cada segundo lá no topo, mais havia ainda a missão de descer. Nosso planos agora incluíam uma montanha ainda mais alta, no norte do Chile, quase chegando no Peru e também na fronteira com a Argentina. E para lá viajaríamos no dia seguinte, mas isso já é uma outra videoviagem ou gravaventura ...