O não me queixo e a idade do condor
Na semana passada encontrei casualmente comprando frutas um conhecido – trabalhamos juntos nos anos 90 divulgando uma grande feira do setor sucroenergético. Ao cumprimentá-lo, me veio à cabeça uma expressão que havia aprendido com ele lá trás e que até hoje utilizo quando alguém me pergunta como estou. Respondo simplesmente: “Não me queixo”! Significaria algo como “está tudo bem sim embora haja sempre um problema, nada tão significativo, a vida é assim mesmo, vamos tocando firmes e fortes”.
Pois bem, disse então ao conhecido, enquanto desviávamos nossos carrinhos com as frutas, o famoso “não me queixo”, e ainda dei o crédito a ele. Mas a resposta dessa vez foi diferente. “Pois eu me queixo sim!”. Contou então que, já na casa dos 60 anos, estava com problemas na próstata que evoluíram para uma infecção urinária e outras complicações que requeriam remédios fortes com efeitos colaterais. Desejei então força nessa luta diária pela saúde e uma pronta recuperação.
Manter o corpo e a saúde em dia é um grande desafio, principalmente com o avanço da idade. Difícil não estar com uma dorzinha aqui, uma alergia ali, um resfriado acolá, uma irritaçãozinha não sei aonde ... Faz parte de nossa existência, e precisamos saber lidar com isso, ou nos transformamos em pessoas desagradáveis e que passam a maior parte do tempo reclamando e contando dissabores. Chato, né!
Como viajo para o Chile em janeiro para escaladas desafiadoras, resolvi conferir como estavam os dentes – afinal, ter uma dor aguda na boca quando estamos em alta montanha pode significar o fim da expedição. Como não sentia nada, achei que minha visita à cadeira do dentista não passaria de uma prosaica limpeza e retirada de tártaro. Ledo engano.Um canal mal tratado havia se transformado numa infecção indesejável e numa bolota na parte inferior da boca. E lá se foi minha tranqüilidade ... em duas semanas, quatro idas ao dentista, motores, anestesia, instrumentação, inchaço e sete dias de antibiótico, entre outras chateações não tão indolores assim.
A promessa é finalizar o tratamento somente no final do janeiro, no retorno da viagem, mas já com a infecção controlada. Para completar, fui ao otorrino checar se uma dor de ouvido que havia surgido em outubro estava curada, e descobri que nem tanto, que preciso continuar na medicação, tomar mais antibióticos antes de partir para a montanha para prevenir uma piora no quadro. Pensei então se eu já estaria passando da fase do “não me queixo” para o “me queixo sim”. Mas basta dar uma olhada ao redor, falar com os amigos, ler os jornais ou olhar para o espelho e checar que, na realidade, somos privilegiados, abençoados e que reclamar desses pequenos infortúnios é um abuso.
Dizem que quando passamos dos 40 anos mergulhamos na idade do condor. Com dor nas costas, com dor no braço, com dor nos joelhos ... Se por um lado é engraçado, por outro traz um aviso importante. Necessitamos negociar com o lento processo de decrepitude física de maneira inteligente, cuidando da saúde e da mente para usufruir da tão almejada qualidade de vida no maior tempo possível rumo a melhor idade. Que venham as dores que com elas eu me entendo!
Como atleta amador empenhado que sou, convivo razoavelmente bem com os desconfortos que volta e meia aparecem nos ombros, joelhos, articulações, tornozelos e outros lugares. Nesse momento, por exemplo, em função dos treinos de escadas, aqueles de subir e descer várias vezes prédios de 15 a 25 andares para fortalecer a musculatura -, a panturrilha fica corroída. Mais uma dor no cardápio, fibras que se rompem e se recompõem, somando-se às demais. Tudo para subir montanhas, mas o que não é a vida senão uma grande escalada incluindo tudo que existe entre os percalços e a glória?
Que a idade do condor dure muitos e muitos anos! E, na próxima vez que perguntarem a você, leitor, como você está, e mesmo que esteja sentindo muitas dores, apenas responda: “Não me queixo”!