O Pelé do montanhismo
Todo esporte tem o seu Pelé e no montanhismo mundial esse camisa 10 chama-se Reinhold Messner, nascido na fronteira da Itália com a Austria em 1944 e, incrivelmente, um sujeito ainda vivo depois de tudo o que fez nos cinco continentes. Para quem gosta de montanhas, impossível não se surpreender com os feitos de Messner, sua coragem, atrevimento, técnica e filosofia de vida.
Sempre que me aventuro numa montanha, das mais baixas às mais altas, penso nesse meu ídolo, o que ele faria nessa ou naquela situação. E também imagino como ficaria feliz se, por um passe de mágica, eu me transformasse no próprio Messner e pudesse escalar, de forma rápida, segura e em solitário, qualquer gigante branco e escarpado que porventura aparecesse na minha frente.
Mas como não sou Reinhold, resta-me apenas homenageá-lo, principalmente junto aos pouco iniciados em aventura e montanha. Vale a pena conhecer sua biografia, facilmente disponível no Google, ou ler um de seus inúmeros livros que relatam as conquistas ocorridas com maior frequência nos anos 60, 70 e 80. Um deles, “Free spirit”, é um resumão dessa carreira de sucesso, na qual ele desafiou a morte em incontáveis oportunidades e saiu vitorioso em todas elas.
Subir montanhas não significa apenas subir montanhas, mas traz em seu âmago uma série de princípios éticos e de sustentabilidade. Messner soube como ninguém pontuar valores importantes nessa atividade e, em boa parte de sua trajetória, nadou contra a maré de opiniões alheias, quebrou paradigmas e se colocou contra a mercantilização das montanhas, uma onda de crescimento de espedições comerciais nas quais não havia regras para se atingir o topo da montanha.
Para resumir a incrível carreira de Messner, ele subiu tudo o que havia para se escalar nos Alpes nos anos 60, abrindo vias e quebrando recordes. Para tanto, desenvolveu técnica apurada e contava com um invejável condicionamento físico. O objetivo não era chegar em primeiro, mas ser rápido o suficente para ficar o menor tempo possível exposto às interpéries e altitudes perigosas. Desta maneira, podia seguir sozinho ou com poucas pessoas, ao contrário das grandes e morosas expedições com dezenas de carregadores, típicas do Himalaia.
E para lá que Messner seguiu no início dos anos 70, mas a estreia foi dramática. A Terra possui 14 montanhas com mais de 8 mil metros de altura, todas localizadas na Ásia em países como Nepal, Tibete e Paquistão. Em seu primeiro “8 mil”, o Nanga Parbat, “preso” a uma expedição maior e após algumas semanas de aproximação e aclimatação, escalou com irmão Gunther, que acabou caindo antes de chegar ao cume. Inconformado, ficou sozinho e por dias procurando o irmão nas encostas a mais de 6 mil metros enquanto sua expedição abandonava os dois como “mortos”.
O resultado é que Messner quase morreu de fato, tendo perdido vários dedos do pé como resultado do congelamento, passando meses em processo de reabilitação. Decidiu então não participar mais de grandes expedições e a liderar ele mesmo suas tentativas. Em 1978, contra a opinião de todos, escalou o Everest pela primeira vez sem oxigênio suplementar, feito repetido dois anos depois em solitário. Na década de 80, foi o primeiro homem a completar a desejada lista dos 14 picos mais altos do globo terrestre, todos acima de 8 mil metros.
A esses feitos outros se sucederam, nos pólos, em desertos, nos Andes, enfim, em qualquer lugar onde pudesse sentir no rosto toda a força e magnitude da natureza. Há poucos anos voltou ao Nanga Parbat para enterrar os restos mortais de seu irmão localizado nas encostas sempre em mudança das grandes montanhas. Vive hoje num pequeno castelo nos Alpes italianos, mas continua sim na ativa, obviamente com objetivos e viagens mais apropriados à idade de um sexagenário.
Messner se transformou numa lenda, abrindo caminho para uma nova geração de alpinistas. Gostaria muito de um dia poder assistir a uma de suas palestras, mas procuro, toda vez em que me encontro em alguma situação de perigo, incorporar um pouco do seu espírito e imaginar como ele agiria diante do desafio a ser vencido.