Oduvaldo, um brasileiro

Oduvaldo, um brasileiro

Era hora de mudança de turno na fábrica. Os três chegaram de carro no bairro de Indianópolis, em São Paulo, e rapidamente começaram a distribuir panfletos aos operários que entravam e saiam. Diziam em alto e bom som palavras de ordem incitando a realização de uma greve e a reivindicação disso e daquilo. Foi tudo muito rápido. A polícia chegou de repente, armas em punho, cercando os acessos. Os três ativistas comunistas correram em fuga, mas uma rajada de balas ecoou no ar. O jovem Oduvaldo se jogou ao chão buscando proteção, mas acabou preso. Um de seus companheiros teve menos sorte, sendo alvejado e morrendo a caminho do hospital. 

O Brasil vivia sua primeira infância da democracia. Depois de 15 anos da era Vargas, sendo oito deles em regime fechado do Estado Novo, Eurico Gaspar Dutra havia sido eleito presidente em 2 de dezembro de 1945 com cerca de 3,3 milhões de votos. Assumiu o cargo em 31 de janeiro de 1946 em clima de liberdade e esperança, mesmo dia da abertura dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte - a nova Carta seria promulgada oito meses depois. No entanto, o PCB, o quarto maior partido do país, com quase 200 mil militantes e diversos parlamentares eleitos, teve o registro cassado em maio de 1947 e, no início do ano seguinte, entrou de vez na clandestinidade - todos os parlamentares da legenda perderam seus mandatos. A repressão então se acentuou nos sindicatos e nas ruas.

Encarcerado

Não foi fácil encontrar Oduvaldo depois de seu desaparecimento em 1949. Quando os pais finalmente conseguiram visitá-lo na prisão, estava magro e machucado. Tinham batido bastante nele, o rosto apresentava feridas. Queriam nomes, endereços, informações. Consta que resistiu convicto à tortura, aos bofetões e ameaças. Não entregou ninguém, apanhou calado, por vários dias, resoluto e enigmático que era, desde a infância no interior, na cidade de Ibitinga, nos anos 30. Já jovem, em São Paulo, como era muito reservado, a família não percebeu que, quando não estava trabalhando, se aproximara do PCB, sendo cooptado rapidamente pela doutrina. Enxergara no comunismo uma utopia, uma saída digna para combater as injustiças da vida, a pobreza que via ao redor. Abraçou a causa e seus riscos, sem questionamentos.

A família ia visitá-lo uma vez por semana no Presídio Tiradentes, em São Paulo. Sua mãe, ao mesmo tempo orgulhosa e desconfortável com aquela situação, fazia questão de anunciar aos demais visitantes que o filho não era um ladrão ou criminoso comum, mas um preso político. Dividia a cela com outros dois militantes de origem humilde, que nem possuíam familiares a lhes prestar apoio. Por isso, tudo o que Oduvaldo recebia nestas visitas, fazia questão de dividir com os companheiros, desde maçãs a cigarros. Seu espírito de justiça e solidariedade não se curvava diante da dificuldade e do desconforto, ao contrário, o fortalecia. Sua jovem irmã, então com 15 anos, também acompanhava ansiosa e saudosa estas visitas, mas temia que as colegas de escola soubessem, ou comentassem na aula, que ela possuía um irmão presidiário.

Paixão

Os esforços da família e de organizações e comitês de esquerda que se mobilizavam para defender seus militantes surtiram efeito. Depois de um ano, deixou a prisão, desta vez embaixo dos olhos mais atentos dos pais para que não se envolvesse novamente em confusões. Mas neste período Oduvaldo conheceu uma espanhola. Ele, aos vinte e poucos anos, traços bonito, olhos claros, olhar penetrante, uma boa alma; ela, quase o dobro de sua idade, provavelmente fugida da guerra civil que levara Franco ao poder, e envolvida no movimento que o ajudara a sair do presídio. Apaixonaram-se e viveram um grande romance.

Oduvaldo, apesar de sua crença na igualdade, era machista. Mas encontrou na espanhola um contraponto, uma mulher experiente, vivida, um jeito espalhafatoso de se vestir e de se pentear, com muito a lhe ensinar. O caso de amor não agradou a família, e o pai de Oduvaldo, aproveitando o afastamento temporário da espanhola de São Paulo, começou a controlar as cartas que chegavam pelo correio. Oduvaldo escrevia, mas não recebia notícias da companheira, interceptadas. Cansada da falta de informações e respostas regulares do namorado, a espanhola logo se entregou a um novo amor. Quando Oduvaldo finalmente viajou para visitá-la, encontrou-a nos braços de outro. Foi um choque para o jovem idealista que, nos últimos tempos, ferira a alma e o corpo em função de suas convicções, e agora experimentava as dores de um coração partido.

Nesta época, alguns sinais de esquizofrenia já começavam a se manifestar, acentuando sua solidão e submersão em um mundo próprio, recheado com as angústias existenciais. Uma mudança de ares lhe faria bem. Com o apoio da família, foi para o Mato Grosso, onde viveu e trabalhou por muitos anos. Sua bondade e dignidade suplantavam o isolamento e manias, por isso sempre foi querido por onde passou. Morou numa pensão em Campo Grande, a vida seguia um curso que se pode chamar de normal, longe da agitação política que tomava o país e que redundou no golpe de 64 e nos anos de chumbo. Conheceu uma moça, começaram a namorar, a cultivar um novo amor, parecia que ia dar em casamento, formariam uma família.

Doença

Mas certo dia, na pensão, alguns viajantes desavisados e de caráter duvidoso começaram a bolinar a jovem que servia o café. Era uma moça muito simpática e correta, a quem Oduvaldo devotava respeito em função do trabalho honesto, da origem humilde, da simpatia no atendimento diário no estabelecimento. Ao ver um dos homens passar acintosamente a mão embaixo da saia da perturbada e insegura jovem, Oduvaldo explodiu. Subiu a seu quarto, engatilhou o revólver e desceu para fazer Justiça com as próprias mãos. Na confusão deflagrada, os viajantes abusados felizmente conseguiram escapar, mas a energia gerada naquele momento de fúria desencadeou uma terrível crise emocional.

Ele foi então internado, um irmão veio de longe, de Niteroi, em avião fretado, para auxiliá-lo. O pai da namorada, ao saber do ocorrido, resolveu afastar a filha do que antecipou ser um casamento com um homem atormentado por problemas psicológicos. O mundo mais uma vez se mostrava a Oduvaldo como um local hostil, no qual a felicidade também era uma utopia e o tempo uma sucessão de eventos traumáticos. Restava-lhe, mais uma vez, o convívio com ele mesmo, aquele arrastar diário de dúvidas, angústias e dissabores, a espera, e não a esperança, de um futuro incerto. Aposentou-se, prematuramente, por invalidez.

Nos anos 70, a ditadura militar dizimou comunistas e terroristas e levou o Brasil ao milagre econômico. Alheio a tudo isso, passou a viver em Belo Horizonte, junto com a mãe, viúva, e próximo à irmã, aquela que o visitava no Presídio Tiradentes. Fumava dois maços de Continental por dia, um derrame deixou-o com um dos braços permanentemente dobrado, a mão no peito. Tomava muitos remédios, vivia seu mundo, sem muito diálogo, quase um monólogo com seu interior perturbado e silencioso, um esquizofrênico que alcançava algum prazer ou alívio nas baforadas do cigarro.

Cuecão

Ganhou o apelido de “cuecão” na vizinhança mais maliciosa, já que, fazendo frio ou calor, só andava de bermudão, diariamente, no calçada que o levava do apartamento à padaria ou à farmácia. Mas tinha seus momentos de humor. Com a prisão de ventre a incomodá-lo, não titubeou em comprar supositórios na farmácia dizendo que eram para sua mãe. Ela, sempre orgulhosa, ao saber da notícia, corou e nunca mais colocou os pés na farmácia. Aos domingos, ia almoçar na casa da irmã e da numerosa família desta, casada e com seis filhos. Na verdade, comia antes dos outros, pois não tinha paciência de esperar a refeição e preferia logo sair para pitar seu Continental ou acender alguma luz no fim do túnel.

Às vezes, inesperadamente, soltava alguns comentários. Dizia que, se Luis Carlos Prestes fosse o presidente do Brasil, tudo seria melhor. Parado um pouco no tempo, com a cabeça e as idéias consolidadas em sua curta militância ao final dos anos 40, possivelmente ainda suspeitasse que os crimes atribuídos a Stalin fossem invenção do capitalismo. Numa rara concessão ao lazer ordinário, aceitou em 1981 ir ao Cine Paladium, então o principal da capital mineira, para assistir ao filme “Reds – os 10 dias que abalaram o mundo”, estrelado por Warren Bealty, descrevendo o que podemos chamar de momentos gloriosos da revolução bolchevique de 1917. O filme, longo, não transpareceu lhe trazer muito alento, ao menos não tanto quanto os cinco cigarros que o fizeram levantar cinco vezes da poltrona para serem fumados no saguão de entrada do cinema ao longo da projeção.

Em 1984, a irmã mudou-se para Ribeirão Preto e, com o objetivo não deixar Oduvaldo e a mãe sozinhos em Belo Horizonte, trouxe-os para viver numa antiga casa alugada em frente à praça central da vizinha cidade de Cravinhos. Lá ele viveu mais alguns meses, antes de morrer e se livrar definitivamente de uma existência, em geral, conturbada, e de uma trajetória, ao final, sem sentido, presa a um corpo cada vez mais debilitado. O seu exemplo é mais um daqueles que mostram que à vida não viemos a passeio. Mas Oduvaldo, um brasileiro, obscurecido pela sua infeliz condição, exalava, de alguma forma, dignidade, um legado de respeito deixado para aqueles que o conheceram.



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