Os anos 70 sob a ótica do Super 8

Os anos 70 sob a ótica do Super 8

Nos anos 70 meu pai comprou uma câmera filmadora Super 8 milímetros e por cerca de 10 anos registrou em película momentos marcantes da família, principalmente aniversários e as viagens de férias e feriados. Ao contrário do vídeo, o uso do Super 8 era mais comedido em função do preço dos filmes e revelações, algo parecido com o que aconteceu com a fotografia depois do advento do digital – antes economizávamos nas fotos em função dos custos, hoje desperdiçamos cliques para qualquer ocasião.

Há 35 anos, voltávamos de férias e aguardávamos ansiosos os dias até meu pai revelar os filmes – um, no máximo dois ou três, cada qual com três minutos de duração. À noite, eu e meus irmãos nos juntávamos na sala de estar escura em Belo Horizonte enquanto o projetor era montado e o rolo ajeitado para exibição na parede. Tratava-se de uma legítima sessão de cinema mudo, um alvoroço danado cada vez em que aparecíamos ali na nossa sétima arte particular. Para aumentar as emoções, meu pai congelava algumas imagens, ou colocava em slow motion, e nós gritávamos, dávamos risadas, fazíamos gozações com a performance alheia.

Depois da sessão, já era hora de dormir, minha mãe nos levava para a cama e debaixo dos lençóis eu adormecia pensando no filme que passara e quando seriam as próximas férias, os próximos filmes. Pois bem, o tempo passou e com ele envelhecemos – crianças bonitinhas viraram quarentões carecas; quarentões se transformaram em septuagenários, idosos passaram dessa para melhor. Mas o fato é que nos anos 80 trocamos o Super 8 pelo video, primeiro uma câmera betamax, depois uma VHS e finalmente câmeras digitais. O projetor de filmes do meu pai apresentou algum defeito de difícil solução e as duas vezes em que tentei exibir os filmes a lâmpada simplesmente queimava.

Assim, cerca de 40 rolos de filme ficaram quase que esquecidos num saco plástico.no fundo de um armário por mais de duas décadas. Um passado cada vez mais distante, rico em imagens e boas lembranças, um pouco adormecido, guardando recordações de uma família de classe média alta. Enfim, um passado que valia a pena ser resgatado, tirado da garrafa como um gênio, não só em nome da memória, mas para reflexão do sentido da vida, para derrubar uma lágrima de saudade, para celebrar nossa existência, para perceber que não se luta contra a idade e, claro, para se divertir e zombar dos irmãos, primos e tios que ficaram mais velhos, barrigudos e carecas ...

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Depois de algumas idas e vindas em novembro, o Toninho da produtora me informa que os 40 filmes já foram digitalizados, musicalizados e estão disponíveis em quatro DVDs para minha conferência. Dividi o material em cinco diferentes títulos: Poços de Caldas, a célula-mater do meu ramo da família Junqueira; Fazenda Cruzeiro, onde sempre passamos as férias de julho; Praia, reunindo as temporadas de férias de janeiro e fevereiro; Belo Horizonte, para onde meu pais se mudaram em 1960 e onde vivíamos nos anos 70; e Outros, onde colocamos os filmes que não cabiam em nenhum dos demais títulos.

Passei então mais de duas horas revisitando aquele saudoso passado. Lá estava eu com cinco ou seis anos de idade, brincando com um carrinho e jogando futebol! O que passava na cabeça daquele menino? Ou melhor, o que passava na minha cabeça? Quais eram minhas expectativas?  Será que aquele moleque tinha idéia que 40 anos depois ele estaria sentado num sofá se assistindo?

Observo então meus irmãos e primos, crianças dóceis e agitadas, sorrisos expressivos, brincadeiras divertidas. Não havia IPods, Ipads, videogames, computadores, celulares. Havia bolas, carrinhos, piscinas. Todos parecem se divertir muito, ninguém sabe o que os espera no futuro. Uma fatia de nossas vidas está lá, vibrante e colorida!

Miro as atenções para as  belas imagens da casa dois meus avós em Poços de Caldas, uma mistura de ninho aconchegante e castelo protetor que nos abrigou por décadas e gerações, mas que hoje está na berlinda, um elefante branco de alto custo que mora no coração de todos na família. Vendê-la é uma realidade dolorida, uma navalha na própria carne, um processo de superação emocional em curso e que os filmes de Super 8 escancaram de vez..

Lá estão meu avô e minha avó, soberanos e vivos, olhares determinados, oito filhos, genros e noras, mais de 20 netos, uma grande confraria do mesmo sangue. Ele se foi em 1977, mas continua sendo um ícone familiar, ressuscitado novamente pela força das imagens para a nova geração de bisnetos. Ela viveu até os 98 anos, um elo vivo familiar até o início do século XXI. E vejo também a minha bisavó Cocota no dia em que comemorou seus 100 anos em 1975 – morreu poucos meses depois com a legítima sensação de dever, mais do que cumprido, comprido.

Seu olhar é cativante! Me emociono só de pensar que ela nasceu em 1875, foi testemunha ocular dos tempos de escravidão, da passagem do Império para República. Os Junqueiras a casaram por conveniência ainda menina adolescente, algo comum naqueles tempos, com um primo mais velho que torrava o patrimônio em mesas de jogo, mas felizmente a casa de Poços ficou a salvo dos prejuízos do carteado. No início dos anos 70 do século XX, menino enjoado que era, eu não gostava muito de chegar na casa de Poços e cumprimentar com um beijo aquela senhora enrugada, mas hoje reverencio-a e tento extrair de seus olhos alguma informação dos tempos de D. Pedro II.

Os filmes mostram os penteados, as roupas e os carros dos anos 70. Divirto-me com os modelitos da minha mãe, mais jovem do que sou hoje, os vestidos, as costeletas e bigodes desproporcionais! E também com as Brasílias, os Fuscas, os Galaxies, as Belinas, os Chevetes, os Dodges! Eram tempos do primeiro choque do petróleo, a gasolina e a inflação começavam a incomodar, a ditadura migrava do período negro do Médici, quando a tortura corria solta nos porões dos DOI-CODI ou do DOPS, para a era da distensão lenta, gradual e segura do Geisel. Nossos pais ainda usufruíam os estertores do milagre econômico, mas nós, crianças, alheios à questão política, queríamos mesmo é jogar, pular, nadar, correr, suar e gerar adrenalina.

E haja esporte e competição nessa infância em clima de Olimpíadas! Aqui vão algumas das modalidades e disputas acirradas capturadas pelas lentes do meu pai e de outros cinegrafistas de plantão: futebol, natação, corrida, corrida com barreiras, salto triplo, salto em distância, ginástica olímpica, frescobol, pebolim, buraco, jacaré, briga de galo, saltos ornamentais (do cipó), equitação e ciclismo, entre outros. A ordem era se movimentar e gastar energia, seja na fazenda, que ainda não tinha cana; ou na praia, no Guarujá, a família ali, numerosa, sempre junta, como se fôssemos estar sempre unidos naquele clima de confraternização.

Mas não é bem assim. De repente, os mortos se fazem vivos, têm feições, respiram, andam, sorriem. Torço para que meu irmão caçula, morto aos 17 anos, encontre outro destino, que cresça e não se meta naquele carro em que fatalmente capotou. Fico feliz de vê-lo ali, sorridente, empurrando um velotrol, saltando na grama ou brincando no chuveirinho. Éramos seis irmãos, todos vivos, com o futuro pela frente, o mundo a descobrir, o sucesso a conquistar ...

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O mês de dezembro está chegando. Vou fazer as cópias em DVD para distribuir na família. Depois de assistir “aqueles filmes antigos”, chegou a hora de dividir essas emoções e sensações com os protagonistas daqueles tempos. Meus pais viajaram comigo, meus padrinhos também se divertiram – ao final, um deles, já na casa dos 70, apenas sentenciou: “O tempo passa ...”.

Com a digitalização do material, espero ter contribuído com a memória da família. Um dia, cada um daqueles personagens registrados em película também partirá para o além. Espero que meus netos, e os filhos desses, tenham curiosidade e prazer, daqui a 50, 70 ou 100 anos, em se divertir assistindo como eram seus tataravós numa longínqua e improvável década de 70 do século XX.

 

 

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